•Maputo•
•Moçambique - Continente Africano•
•Agosto de 2017•
Há dias em que eu vinha pensando em meu pai, que saudades eu sentia dele agora que estava sozinho por aí, sem ninguém para me orientar ou me proteger.
Eu havia sido não burro ao não seguir os conselhos dele, ouvindo sempre a voz da minha própria razão, que havia se criado sozinha em minha mente. Sempre à cochicar palavras de má ideias para mim.
E aonde tudo isso havia me levado? à lugar nenhum só para variar. Todas as minhas tentativas de dar a volta por cima, terminavam com todas me colocando para mais baixo do que eu estava antes.
Mesmo após acreditar que tudo ficaria bem, se eu tivesse o apoio dos meus pais à meu favor, nada deu certo ainda.
Faziam meses que eu estava planejando contar à eles que eu gay, procurando a melhor forma possível para isso.
Mas afinal? Havia como contar uma notícia da melhor forma possível, sendo que você saberia que iria magoar muita gente?
Ficar pensando em tudo isso, era devastador. Jamais imaginei que meu pai reagiria de tal forma, ele que sempre havia sido o primeiro à me apoiar em tudo, tinha sido o primeiro a me rejeitar.
Pode se passar 40 anos, mas nunca esqueceria à humilhação que passei, vendo meu pai jogando minhas coisas para fora de casa, gritando para que os vizinhos escutassem, o quanto eu havia humilhado aquela família.
E por mais que eu tentasse dizer que não havia nada de errado em mim ser assim, meu pai não pensou nem um segundo se quer e já foi me enxotado para fora de casa, estando chovendo no dia.
Mano, que raiva aquilo me deu, fui obrigado a ficar procurando minhas coisas no meio da lama. A medida que a chuva foi piorando, tive que procurar um abrigo. Encontrando como refúgio, um velho beco cheio de drogados, que ficava próximo ao fim da cidade.
Depois disso, minhas noites se resumiam à insônia e depressão. Eu até havia pensando em fazer prostituição para me sustentar, mas só de imaginar um velho babão relando as mãos em mim, era o suficiente para me fazer vomitar por horas seguidas.
-Vejo que o rapaz anda meio pensativo essa noite. Algo aconteceu para deixá-lo triste dessa forma - perguntou o barman, meu velho companheiro de desabafos e drinks sofisticados.
-Hum?...que foi?? - pergunto desorientado, voltando meus pensamentos para fatos que estejam acontecendo de verdade aqui no planeta Terra - não tenho nada me deixando pensativo não, isto é apenas ilusão da sua cabeça - comento, fazendo sinal de que ele deveria estar ficando louco.
-Pois não é isso que parece. Alguns clientes estão notando a sua aparência cabisbaixa por aqui. E parando para me perguntar, se você está passando por algum problema - relatou Chris, se apoiando sobre o balcão para cochichar comigo.
-Problema deles, eu estou quieto no meu quanto, e pagando por tudo que eu estou bebendo. Se há alguém que esteja incomodando aqui, são eles com suas perguntas indevidas
Vendo que eu não havia gostado nenhum pouco daquela conversa, Chris se afasta um pouco de mim, curioso sobre o que eu faria se continuasse a me estressar denovo.
Odiava esse homens que frequentavam o bar. Todos sempre querendo mostrar estarem interessados na minha pessoa, para depois disserem a mesma coisa. Afinal, todos só queriam sexo pra uma noite. Cai fora, eu não sou assim.
-Disso eu já não sei, mas o cavalheiro aí....- apontando com o olhar em direção à minha esquerda, mostrou-me um jovem homem que estava sentando sozinho, mais ao fundo do estabelecimento - ele ali, me mandou trazer a bebida mais cara da casa para você, esta noite e todas as demais em que você vier. Disse que você merece essa, mais do que ninguém, e que é para pôr na conta dele - me contou, revirando os olhos de pura inveja.
-Deixe de ser uma vadia invejosa - brinquei, dando um tapa de leve em seu braço - ele pode ser até gostoso, mas realmente não faz meu tipo de pessoa.
-E quais são seu tipos. Um velho gordo, à beira da morte??? Parece que sim.
-Não seja idiota. O cara só está sendo educado, no máximo tentador. Mas quais as probabilidades dele estar afim de mim? - questionodando uma breve olhada para trás, vejo que ele está ao telefone.
-Cem por cento. Aumentando as chances de felicidade, se ele for um gostosão rico, de bons costumes. A tradicionalidade virou moda hoje - exemplificou Chris, achando que era um professor de filosofia, passando ensinamentos aos seus discípulos.
Nisto ele estava certo, vai que na única vez em que decido apostar todas as minhas fichas, consigo acertar na sorte duas vezes. Ganhando de cara, um homem daquele nível de beleza, acompanhando de uma fortuna.
As chances eram mínimas, mas o risco poderia valer a pena se o garanhão de cabelo loiro, fosse mais educado do que simplesmente sair pagando bebidas por aí.
-Vou lá, mas só por que quero agradecer pela gentileza da bebida. Homens desse tipo, são raros por aqui - cochichei, virando o resto da minha vodka com laranja em dois goles - aqui vou eu...
-Aham sei... - desconfiou ele, erguendo a sobrancelha para mim - depois que ele abrir a carteira e mostrar tudo o que tem lá, você vem aqui e me diz se a gentileza dele é grande - pediu ele, fazendo referência de tamanho com as mãos, querendo saber de outra coisa.
Não dando bola para as idiotices que Chris era acostumado à dizer, dei um breve "tchau"com os dedos, e saiu confiante, caminhando com determinação no olhar, mostrando em qual direção meu foco estava direcionando.
Eu era um homem de valor e sabia qual era o preço da minha integridade. Não chegaria lá mostrando minhas garras e dentes de cara, seria sútil como raposa, prestes à atacar no galinheiro.
No entanto, o homem que Chris havia me mostrando não era tão feio quanto imaginei, ao observá-lo de longe. Sua beleza parecia estar à níveis e padrões, indescobertos pelos humanos pré-existentes.
Sua feição se resumia em forma quadrangular, sendo preenchida com uma barba branca bem alinhada. Acompanhando sempre a linha em que seu cabelo semi-encaracolado era cortado. Dando um destaque em especial, para as belíssimas esmeraldas que refletiam em seus olhos, chamando atenção para o destacamento do belíssimo tom de verde que eles possuíam.
Enxergando que o caminho estava aberto, tomei nota que minhas ações teriam consequências se eu insistisse ao ultrapassar aquela linha, me pondo à total risco de partir meu coração, caso o esperado não desse certo.
-Olá, posso me apresentar à você, ou estou atrapalhando em algo?? - chego me apresentando de cara, vendo se ele continuava à falar por telefone.
-Oii, claro que não. Sente-se, fique à vontade - convidou ele, permitindo que eu fosse agraciado em poder ouvir sua voz grave, deixando de digitar uma mensagem para guardar seu celular no bolso. Seja o que fosse que ele estivesse conversando, poderia esperar - puxe uma cadeira e vamos conversar.
-Muito obrigado pelo convite, mas não, estou bem aqui de pé - me fiz de difícil, drobando um pouco o quadril para o lado - Vim aqui simplesmente para lhe agradecer a gentileza que teve ao me pagar uma bebida, porém infelizmente não poderei aceitar... - relatei, mostrando minhas reais intenções pro estar ali.
-Desculpa, mas por que? não imaginei que fosse lhe ofender de alguma forma. Somente quis mostrar empatia por alguém que está sentando triste no bar, desde quando eu cheguei aqui...
Engolindo seco, me espantei ao ouvir o som daquela afirmação feita, queimando devagar meus ouvidos sensíveis. Não ocasionando mais do que uma simples azia em meu estômago, já lotada de tanta vodka barata.
-Capaz, não ofendeu de forma alguma. Quero apenas estabelecer um limites, algo que alguns costumam querer ultrapassar por aqui - afirmo sorridente, já colocando meus pés para correrem bem longe dali -...porém, só foi isso mesmo. Muito obrigado pela conversa, foi ótimo ter sua atenção.
-Espere!! - ordenou o homem, empurrando a cadeira para o lado. Ficando em pé, me segurou firme no pulso, encarando meus olhos com seus lindos talismãs verdes de possessão - você poderia me explicar que limites são esses? Sou novo na cidade e não sei como me esquivar desses tipos de homem.
-Hã? Acho que posso - digo, ficando envergonhado com a intimidade que ele teve ao me segurar de tal forma pelo braço - a oferta de se sentar não parece tão ruim agora.. - respondo, fazendo menção em voltarmos para à sua mesa.
Sem a menor pressa no jeito de andar, voltamos em silêncio para a mesma de antes, fazendo com os outros homens presentes por ali, me olhassem de cima à baixo, inclusive Chris que me admirava do outro lado do balcão.
-Então, você é novo por aqui? - pergunto, sentando à cadeira que ele havia me direcionado segundos antes.
-Sim, eu sou. Acabo de chegar do Brasil à menos de duas semanas, sou nativo de lá - conta ele, servindo para mim, um copo de gin.
-Que interessante! - exclamo, enquanto ajeito à minha cadeira em certa com a mesa - e o que te traz aqui? Passando férias na cidade?
-Não, não. Sou empresário, vim para cá, através da promessa que eu encontraria ótimos recursos ao qual investir com meu dinheiro com segurança - comenta ele, demonstrando não ser um simples par de chinelos que vai ao bar com apenas uma nota pequena de dinheiro no bolso.
-Uau. Vejo então que estou falando com um grande empresário de de sucesso - digo sarcasticamente, fazendo com que ele ria para mim - Garanto que não achou nada mais de interessante para fazer pela cidade e resolveu dar uma passada por aqui, dando uma volta em seu Audi, procurando alguém que aceite dormir com você - exito, ao falar de forma que não pareça estar sendo mal educado com ele.
-Para falar a verdade sim, me interessei bastante por esse lugar, quando o vi nas melhores referências da cidade - recita, começando olhar para meus lábios agora - Infelizmente, não consegui alugar um carro melhor, Audi foi o que havia me sobrado na concessionária.
-Não brinca que você tem mesmo um Audi!! - falo, achando curioso o fato das coincidências baterem. Tudo poderia ser um sonho, mas pedia ao céus que não fosse.
-Tenho sim, por que? - pergunta, não vendo motivo do meu interesse pelo automóvel. Para ele, Audi era um simples carro, mas para mim, era uma máquina de sucesso.
Meu teve pai um Audi no passado, mas havia vendido para pagar a cirurgia que minha mãe havia feito no estômago. Reduzindo sua gordura em 60%.
-Carro maneiro. Deve ser um máximo correr com um carro desse nível de motor, as rodas devem pegar fogo ao acelerar? - perguntei, finalmente encontrando algo que me chamou mais atenção, do que aquele lindo homem.
-Te garanto que tem algo pegando fogo por aqui, e não são as rodas do meu carro, gatinho - comenta ele, debruçado sobre a mesa durante a nossa conversa.
-Como assim? Não entendi - sibilo lentamente, começando à ter mais dificuldade para se pensar, vendo que não foi uma boa ideia exagerar nas bebidas.
Jorge não parecia ser o tipo de cara que se contentava com uma simples conversa normal, tudo nele exalava um ar de superioridade. Sua própria aparência já mostrava que ele não era o tipo de homem, que aceitava falhas em sua vida. Tudo deveria ser baseado na linha da perfeição.
-Venha, deixar eu te acompanhar para fora desse lugar, te explico melhor sobre isso depois. Podemos arranjar um lugar mais confortável para ficarmos à sós, enquanto conversamos sobre a gente. Sem falar que te deixo dar uma volta no meu carro.
-Isto seria bom, mas não sei se seria confiável eu andar por aí com um homem mais velho, motivado pela promessa de uma boa conversa - pondero, imaginando o encontro que aquela noite prometia.
-E o que eu poderia te proporcionar? fazendo de tudo para chamar sua atenção - reagiu, começando fazer nossa conversa ter um novo interesse.
-Sexo seria um bom começo - dou risada, achando graça ao exclamar algo tão sério em meio à uma conversa casual.
-Posso fazer com que seu pedido seja realizado nos próximos 10 minutos. É só você me disser quando, que eu já chamo o garçom e pago a conta. Daí estaremos livre para irmos aonde quisermos - diz ele, afastando sua costa para trás, de forma que consiga abrir o botão mais alto de seu paletó bem desenhado.
-Não fantasia, cara. Estou apenas zoando contigo. Sem chances de transar comigo na primeira saíderia que fazemos - exponho, mostrando que nada parecia o que era.
-Mas eu não, quando falo que faço algo, é porque estou realmente muito interessado em alguém. São raras as exceções em que isto acontece.
-Eu nem sei o seu nome, para começo de conversa - informo, sentindo o calor que o álcool faz surgir, começando entrar em combustão em mim.
-É Jorge. E o seu? - diz, passando o pelo cabelo cor de mel. Moldando de uma forma que fique parada no lugar.
-Alex. "Alê" para os íntimos - me dirijo à ele, estendo a mão sobre a mesa.
-Então Alê, deixe-me te levar para sair esta noite. Garanto que você estará livre para algo entre amigos - pediu ele, apertando firma minha mão, sobre a mesa.
Meu Jesus. Que merda era essa que eu havia me enroscado. Não podia sair com aquele cara para fora dali. Quem sabia o que ele poderia fazer comigo, quando ninguém estivesse vendo..
E se não fosse verdade as coisas que ele havia dito antes? E se tudo não passasse uma história cotnafa para atrair rapazes como eu para uma cilada sem volta?
Tudo poderia acontecer, se eu não pensasse com cautela no terreno aonde eu pisaria. Bombas poderiam estourar em surpresa.
-Ok. Proposta aceita. Mas com a confiança que poderei voltar embora no momento em que quiser - exponho, tentando transmitir autoconfiança, quando digo algo.
-Prometo não deixar você se arrepender, muito menos sobre ir embora. A escolha que você acabou de fazer, será algo que jamais esquecerá na vida - disse Jorge, estufando o peito de pura emoção. Seus olhos começavam à fazer meu corpo arder de vergonha.
Piscando o olho para mim, fez um breve sinal para que o garçom se aproximasse com o valor que sua conta. Vendo que estávamos com pressa, o rapaz que trabalhava lá, correu ao nosso encontro.
-Quero que calcule o quanto deu a minha, e a conta do rapazinho aqui comigo. Vou pagar as duas no débito - pediu, sacando seu cartão dourado para fora da carteira. Não consegui evitar que meus olhos acompanhasse o movimento do cartão.
Obrigado Chris, você tinha razão. Agradeci mentalmente. A "gentileza" dele era realmente muito grande, tanta que não caberia dentro de mim.
-Então é isso que eu sou agora, seu acompanhante de luxo. Tudo que eu comer e beber, você paga? - questiono, procurando brecha para debochar de sua cara.
-Quem sabe, essa é outro tópico que podemos combinar no nosso trato. Nada impede que essa relação não possa ir além dessa noite - responde ele, ficando mais sério ao me ver interessando na probabilidade - tudo depende de até onde você quer ir.
Como era mesmo aquela frase?
"A DOR É PASSAGEIRA, MAS A GLÓRIA É ETERNA??"
Se fosse realmente como a frase dizia, estava tudo ok para mim. Eu estava aberto à qualquer coisa que me servissem de bandeja.
Desde que fosse de valor, me proporcionando, fama, dinheiro e prazer.