Samantha's pov
Petrichor (n.): o cheiro da terra após a chuva.
- Caros alunos, – o coordenador começou – sejam bem vindos à sua troca de módulo semestral da Universidade de Harvard. Hoje, especialmente, nossa troca de módulo será feita conjuntamente, pois teremos alterações no corpo docente da instituição e, portanto, todos os alunos devem ficar cientes destas alterações, principalmente aqueles que são orientados em seu trabalho de conclusão, pela professora Deena Johnson que estará, temporariamente, cedida à Universidade de Oxford a partir do mês que vem.
"Deena Johnson que estará, temporariamente, cedida à Universidade de Oxford a partir do mês que vem.", as palavras do coordenador Williams ressoavam em minha cabeça como facadas consecutivas em meu cérebro. "Oxford...Londres....".
Fui despertada para uma breve consciência pelo aperto que Cindy deu em minha mão e por alguns poucos segundos ouvi as vozes que cochichavam baixinho entre os alunos, a maioria chocados com a informação que havíamos acabado de ouvir.
Eu estava em um processo muito lento para conseguir discernir o que aquela informação queria dizer e em um processo mais lento ainda para processar a própria informação como parte da realidade e não como algum tipo de alucinação sem sentido da minha mente perturbada por algum motivo que eu desconhecia.
Meus olhos correram para o palco, buscando por Deena que olhava-me disfarçadamente vez ou outra. A encarei por tempo suficiente para tentar entender o que sua expressão queria dizer e tudo o que consegui extrair do que havia por trás da perfeita postura imponente da professora foi algo parecido com agonia, todas as vezes que permitia-se olhar diretamente para mim.
- Samantha...você sabia di... – Cindy começou a perguntar, mas foi interrompida por Heather.
- Claro que ela não sabia, não está vendo a cara dela? – Heather falou, segurando a minha outra mão.
- Por que ela deveria saber disto? – a voz de Thomas surgiu de repente e um frio leve de apreensão subiu-me a espinha e se juntou ao incômodo que eu já sentia no estômago, deixando quase incontrolável a minha vontade de vomitar.
- Ammmm... – Heather e Cindy engasgaram juntas e não conseguiram responder Thomas, que prontamente me encarou, com uma interrogação estampada em seu rosto.
Inspirei profundamente e deixei o ar sair devagar de meu peito.
- Conto pra você depois, Thomas. – falei simplesmente, levantando-me da poltrona onde estava sentada. – Eu preciso sair daqui. – declarei, seguindo para o corredor, tendo certa dificuldade para passar por Cindy, que estava sentada ao meu lado e era o único obstáculo entre mim e o caminho de saída daquele auditório.
A dificuldade não durou mais que cinco segundos, pois Cindy levantou-se também, dando sinal de que me acompanharia para fora dali.
- Heather, me liga se alguma coisa importante acontecer e pra dizer o que vai acontecer depois que sairmos do auditório. – Cindy disse depois que passei por ela e já estava caminhando em direção à saída, em seguida, seguiu-me.
Caminhei normalmente para fora, tendo a ajuda da garota ao meu lado para abrir a pesada porta do auditório. Concentrei-me em caminhar e em manter o que havia no meu estômago dentro dele, negando-me a deixar fluir qualquer pensamento que remetesse à Deena.
Queria manter minha mente imersa em uma nuvem turbulenta, mas não queria pensar nela.
"O extintor de incêndio à minha esquerda. Outro extintor a pouco menos de dez metros. Normas de segurança. Matérias do semestre. Alguém correndo do lado de fora do campus. Corredor. Vou por ele."
Sempre muito perspicaz em respeitar meus momentos de necessidade absoluta de silêncio, Cindy resignou-se a caminhar ao meu lado, sem ao menos questionar o nosso destino, o que me poupou em absoluto a necessidade de ter que pensar para onde estava indo. Eu não estava indo a lugar algum.
"Outro corredor. Esquerda. Outro. Direita."
Depois de caminhar por alguns minutos por corredores que eu nem sabia que existiam, respeitando sempre a ordem de entrar um à esquerda e outro à direita, avistei uma escada, também desconhecida, e deixei-me ir por ela sem razão qualquer que me motivasse a fazer aquilo, enquanto lidava com o reboliço que não cessava em meu estômago.
Cindy continuava me seguindo sem dizer absolutamente nenhuma palavra.
Surpreendentemente, quando chegamos ao nível superior, aonde a escada nos levava, reconheci o andar de nossas salas. Nunca havia tido conhecimento daquela parte do corredor ou da própria escada, porque nunca havia ido mais longe do que a porta da minha sala.
"Quantas vezes eu deixei de conhecer novas alternativas por nunca ter passado da minha zona de conforto?", pensei, aceitando todo tipo de pensamento que me desviasse do que tentava a todo custo inundar minha mente.
A mesma falta de motivo que me levara até ali, levou-me também até a sala de aula.
- Não conhecia esse caminho. – Cindy finalmente falou, repousando sua bolsa na sua mesa de costume, antes de sentar-se, depois que já havíamos adentrado nossa sala.
- Nem eu. – Disse simplesmente, deixando as minhas coisas sobre a mesa de costume, mas sem sentar-me.
A garota ruiva encarou-me sem entender por alguns segundos, mas pareceu querer deixar o assunto sem relevância para lá. Manteve-se em silêncio enquanto eu apoiava os dois punhos sobre a mesa e encarava a madeira debaixo de meus dedos fechados.
- Quer conversar sobre o que aconteceu? – minha amiga perguntou-me cautelosamente.
"Conversar sobre o que aconteceu", repeti mentalmente e aquilo me pareceu tão irônico que não pude conter um sorriso de mesmo tom em minha boca.
De repente, tudo o que eu estava reprimindo desde o momento que havia saído do auditório tomou conta de mim como se uma barragem houvesse se rompido e tudo me tomava com força, acumulando-se perigosamente em meu estômago.
- Bem, eu gostaria. – falei, sem conseguir conter o sentimento inominável que me dominava. – Mas eu não faço a menor ideia do que aconteceu.
- Ela não lhe disse nada? Não mencionou absolutamente nada sobre ter que ir embora? – Cindy perguntou, prontamente, instigando-me a dizer porque me conhecia, sabia que para aliviar o que quer que eu estivesse sentindo, eu precisava falar.
- Nenhuma vírgula. – falei, desviando o olhar da mesa para minha amiga, ao meu lado esquerdo. – Absolutamente nada.
- Tem certeza? – Ela perguntou outra vez.
- A última coisa que ela me falou foi... – procurei em minha mente qual havia sido a última vez que havia falado com Deena. – Oh! Espere! – exclamei mais para mim mesma do que para Cindy que me ouvia. Peguei meu celular de dentro da bolsa e abri a última mensagem de Deena.
"Estou na dúvida se ligo para você ou não, dado o avançado da hora. Desejo que esteja dormindo tranquilamente. Acabei de chegar em casa, perdoe-me por não ter atendido a sua chamada. Preciso conversar com você, me ligue assim que acordar! Boa noite, meu amor". – Deena (01:36 am).
"Preciso conversar com você, me ligue assim que acordar!", reli a frase cinco vezes e entreguei o celular à Cindy.
- Meu Deus, vocês são muito gay. – Cindy murmurou enquanto lia. – Ah.... – ela exclamou calmamente, como se estivesse compreendendo algo. – "Preciso conversar com você, me ligue assim que acordar". – minha amiga leu em voz alta a mesma parte que me havia esclarecido grande parte de tudo aquilo e levado um pouco dos chutes que eu levava no estômago. – Acho que você não foi a primeira a saber porque não ligou para ela assim que acordou. – ela concluiu, por fim.
- Provavelmente. – disse, sentindo-me um pouco mais aliviada e por isso, sentei-me, finalmente.
- Então essa é uma excelente notícia. – a garota disse, analisando-me.
- Uhum... – murmurei, sentindo a agonia abandonar meu corpo, dando lugar a uma tristeza incontrolável.
- Então por que ainda está com essa cara, Sam? – minha amiga perguntou, puxando sua cadeira para o lado da minha.
- Isso não muda o fato de que ela vai embora em um mês, amiga. – falei, percebendo minha voz em um tom mais fraco e triste do que eu imaginava que estava. – E não muda o fato de que ela nem sequer mencionou que havia a possibilidade de ir embora. – continuei. – E fez eu me apaixonar tão profundamente por ela e agora vai embora e... – as palavras se engataram em minha garganta.
Cindy passou o braço por meus ombros e me abraçou de lado, fazendo-me apoiar a cabeça em seu ombro. Fechei os olhos, sentindo-me exausta, como se a situação tivesse sugado todas as minhas energias. Alguns minutos de silêncio foram mantidos e em seguida quebrados pela garota que me abraçava.
- Eu não sei o que dizer, mas sei que deve haver alguma explicação plausível e que somente Deena pode lhe dar. – a garota falou, dando-me um beijo carinhoso na testa, depois, apoiando a própria cabeça na minha. – Fique calma, tudo vai se resolver.
O alerta estridente do celular de Cindy, avisando que havia uma nova mensagem. Olhei pelo canto do olho para a tela ainda travada do celular de minha amiga e vi o nome de Heather. Desisti de olhar e fechei os olhos.
"Não importa o que eles querem que façamos, eu não vou sair daqui", pensei comigo mesma, recusando-me a assistir mais palestras ou participar de oficinas.
- Nós vamos ter aula. – Cindy anunciou, cortando-me os pensamentos. – Seu instinto é bom mesmo, hein.
Eu não estava surpresa, não era como se Harvard fosse cancelar o primeiro dia do módulo dois porquê uma professora iria ser transferida, mesmo que essa professora fosse Deena Johnson. Respirei profundamente, mas com lentidão, esforçando-me para deixar o oxigênio encher satisfatoriamente meus pulmões.
- De quem? – perguntei, desencostando a cabeça do ombro de Cindy que, consequentemente, voltou à sua posição normal.
- Heather não disse, só disse que vamos ter aula normalmente. – minha amiga falou, arrastando sua própria cadeira de volta para o seu lugar.
- Ótimo. Preciso mesmo me concentrar em alguma coisa. – falei, retirando de dentro de minha pasta A3 de couro preta, que havia ganhado de meu pai, meu caderno de desenho, deixando-o em cima da mesa, perfeitamente alinhado. Fiz o mesmo com meu estojo de lapiseiras.
Cindy nada disse, apenas ocupou-se em organizar em cima de sua mesa o seu próprio material e enquanto nos ocupávamos, em silêncio, os passos dos alunos que já se direcionavam às suas salas começavam a surgir ao longe no corredor. Menos de um minuto depois, uma série de alunos começaram a entrar na sala.
A maioria eram rostos conhecidos, mas havia alguns que eu nunca havia visto ou que tinha absoluta certeza de que não estava no mesmo período que eu e sim, mais adiantados.
Surpreendi-me ao ver Thomas entrar na sala, assim como alguns caras que andavam com ele o tempo todo e os encarei estupefata, querendo entender o que estavam fazendo ali.
- Sou mais bonito que esses caras e você nunca me olhou assim. – Thomas disse, praticamente arremessando a si próprio na cadeira da mesa logo atrás da minha.
Instantaneamente uma interrogação se formou em minha cabeça, como reação à observação sem sentido de Thomas e o olhei sem entender.
- Hã? – expressei verbalmente minha dúvida.
- É que você estava olhan... – Thomas desviou o olhar do meu, para algo atrás de mim, de repente. – Caramba... – ele exclamou vagarosamente, como se tivesse ficado em câmera lenta.
Virei o rosto quase na mesma lentidão com que Thomas havia falado e senti meus ossos serem quebrados ao meio, assim que minhas córneas formaram a imagem que meu cérebro processou em um segundo.
"Mas que mulher...", a voz de Thomas já estava abafada em minha mente, quando ele fez a observação.
Deena.
Toda a confusão que acontecera desde que eu havia visto no auditório fez com que eu esquecesse do quão estonteante a mulher estava naquele dia. A calça social azul escuro, apertava-lhe as curvas das coxas e glúteos, como se tivesse sido criadas apenas para vestir aquele corpo. O corpo de Deena. Os sapatos elegantes, de salto extremamente alto, calçavam-lhe os pés com extrema delicadeza e o blazer de listras azuis e brancas, davam-lhe uma beleza quase surreal. Os cabelos estavam naturais e a maquiagem marcante não escondia a estafa em seu rosto, mas apenas para mim, que conhecia aqueles traços tão bem. Sua presença era imponente. Tudo em Deena trabalhava para que ela fosse incansavelmente hipnotizante. As mãos delicadas, adornadas com jóias finas e de boníssimo gosto, o pulso delicado e convidativo, a tatuagem em seu dedo indicador direito, naquele dia exposta... A forma como se movia com exuberância e elegância...
- É claro que você precisava mesmo se concentrar em alguma coisa, não é...? – Cindy murmurou, inclinada o suficiente para alcançar meu ouvido e falar baixinho, em um tom levemente risonho.
Incapaz de me mover com rapidez e ainda muito absorvida pelas sensações que ver Deena me provocara, virei lentamente a cabeça na direção de Cindy para olhá-la. Quando acabei o movimento, já não lembrava-me mais o que ia falar. Pisquei algumas vezes, tentando lembrar, mas minha em minha mente sem controle, só havia a imagem de Deena, pisando todo e qualquer outro pensamento que tentasse fluir.
- E você, definitivamente, não olha assim pra nenhum cara. – Observou Thomas, usando um tom de voz sério e muito atento a mim. – Se isso for o que estou pensando... – O olhei rapidamente e não disse nenhuma palavra, apenas esperei que meu olhar confirmasse o que eu sabia que ele estava pensando. – Puta que par...
- Podemos começar ou vocês querem que eu espere que os senhores acabem suas conversas? – A voz de Deena soou alta, fazendo-me dar um pulo na cadeira, virando-me para frente imediatamente. Toda a turma ficou em silêncio instantaneamente. – Acho que isso foi um "podemos começar". – Ela disse em um tom mais amigável. – Bem, eu quero que todos os alunos que não são do segundo período, mas estão fazendo o crédito do segundo módulo de Planejamento Urbano levantem as mãos.
Todos os rostos que me eram desconhecidos levantaram suas mãos, incluindo Thomas.
Deena caminhava calmamente pelo espaço livre da sala, com os braços parcialmente cruzados, enquanto olhava atenciosamente todos os que levantaram suas mãos. Em menos de dez segundos, voltou a falar.
- Okay, vocês são vinte e oito. – ela observou. – Eu preciso fazer o encerramento de módulo com os alunos do módulo um de teoria da percepção e gostaria de contar com a compreensão de vocês. Não tomarei mais que trinta minutos da aula para isso. Sendo assim, como será um tempo maçante e nada proveitoso para os senhores, peço-lhes que se dirijam à biblioteca e que cada um de vocês tragam para a sala dois livros de urbanismo. – ela completou e ficou parada olhando-os. Cinco segundos depois, olhou para o relógio dourado em seu braço e olhou de volta para a turma. – Pensei que já tivessem ido. – ela disse e em menos de trinta segundos todos os alunos novos já haviam desaparecido da sala.
Deena sorriu para nós, caminhou até sua mesa e sentou-se, puxando sua pasta em sua direção, até que fosse possível abri-la e assim o fez, em meio ao silêncio taciturno da sala.
- Como vocês sabem, ao final dos módulos vocês recebem suas notas e é isso o que faremos agora, enquanto seus novos colegas estão nos ajudando, recolhendo material para nossa aula. Todos os outros professores o farão, não se preocupem. – ela disse, retirando uma pilha grossa de papéis que, eu suspeitei, eram nossas avaliações.
- Pensei que sua cara de idiota por ela fosse melhorar, já que estão namorando. – Cindy sussurrou em meu ouvido outra vez.
Suas palavras fizeram meu coração acelerar tanto que eu quase tive certeza que todos na sala haviam escutado o pulsar vergonhoso que meu músculo cardíaco dava.
"Namorada", a palavra repetiu-se em minha cabeça e junto com ela, todas as lembranças de tudo o que eu já havia vivido com Deena vieram à minha mente, arrebatando-me em uma sensação de estar fora da gravidade e encantamento ainda maior pela mulher à minha frente.
"Minha namorada".
- Vou chama-los um por um até aqui para que peguem suas notas. – ouvi a voz de Deena e a olhei novamente.
Ela estava atenta à pilha de papéis, perfeitamente organizados, e nem parecia notar a minha existência. Eu sabia que dentro de sala precisávamos agir como duas pessoas que não tinham nenhum tipo de relação que não fosse de aluna e professora, mas minha consciência, naquele momento, começou a perder para os meus sentimentos recentemente abalados.
"Por que ela nem sequer me olha?", indaguei mentalmente, enquanto ouvia Deena chamar o nome de Aruna Ravi, um garoto hindu que havia sido convidado a estudar em Harvard depois de ter desenvolvido um projeto urbanístico de níveis altíssimos em um concurso mundial de arquitetura para alunos de high school. O prêmio deveria ser uma bolsa de estudos na melhor faculdade de arquitetura e urbanismo de seu país, mas Aruna Ravi foi tão brilhante que conseguiu uma bolsa de estudos em uma das melhores universidades do mundo.
Minha mente perdeu-se no sorriso que Deena deu para Aruna Ravi ao entregar ao garoto sua nota. Não estava surpresa por Aruna Ravi merecer um sorriso de Deena em uma situação como aquela, ele era realmente brilhante, mas por algum motivo incontrolável e irracional, aquele sorriso fez-me recordar que, desde que entrara na sala, Deena nem sequer havia olhado para mim.
- É melhor avisá-la. – a voz de Thomas despertou-me do abismo de pensamentos onde eu havia mergulhado.
Olhei para o lado e Cindy olhava-me um tanto apreensiva, o que percebi porque minha amiga mordia o canto inferior esquerdo do lábio. Uni as duas sobrancelhas, levantando levemente a esquerda, que era a única que eu conseguia levantar, usando a expressão para interroga-la em silêncio.
A garota se aproximou-se de mim e balbuciou em meu ouvido.
- Estão começando a perceber como você olha para ela. Pare. – ela me alertou e eu congelei.
Àquela altura, se Cindy havia tido a preocupação de me alertar sobre, mais pessoas do que eu gostaria já havia percebido o meu olhar exagerado sobre Deena, fato este que fez com que eu ativasse o pequeno fio de razão que ainda havia em minha cabeça e desligasse as emoções que me atrapalhavam de agir como uma pessoa ponderada.
Havia muito mais em jogo ali do que minhas dúvidas, meus sentimentos machucados e minha mente desesperada por respostas.
"Kathleen O'Brien", Deena chamou o próximo nome e a garota, que definitivamente eu não sabia definir qual o estilo, caminhou até a mesa da professora e pegou sua nota, com um olhar apreensivo. "Você deveria saber que na faculdade, festas de fraternidade não são prioridade", ouvi Deena dizer para a garota, mas não pude ver a sua expressão, já que estava ocupada fingindo estar desenhando qualquer coisa em meu caderno.
- Samantha Fraser. – Deena chamou finalmente o meu nome e eu não pude me conter em analisar o tom de sua voz ao chamar meu nome. Exatamente o mesmo tom que usara para chamar os outros alunos.
Comecei a me perguntar o que Deena queria conversar verdadeiramente comigo. Queria contar que iria embora? Queria dizer que havia sido um erro ter ficado comigo? Queria dizer que não me queria?
- Samantha Fraser? – Deena chamou-me novamente e dessa vez pude olhá-la. A interrogação em seu rosto fez-me lembrar que eu precisava levantar e caminhar até ela para pegar minha nota.
Andar nunca havia sido tão dificultoso. Minhas pernas pareciam pesar toneladas e eu nem sabia exatamente o motivo daquilo. Talvez as ideias pesadas e descontroladas em minha mente estivessem correndo para as minhas pernas, no final das contas.
Razão e emoção pareciam travar uma batalha sangrenta dentro de mim, de tal forma que, meu corpo, como campo de batalha, estava exausto.
Encostei-me finalmente à mesa de Deena e encarei a mesa, abaixo de meus olhos. Eu não sabia o porquê, mas meus olhos não conseguiam subir e olhar para ela. Não tão de perto assim, de tal forma que a única parte dela que estava ao alcance dos meus olhos, eram suas mãos.
- Se sente bem, Samantha? Há algo de errado? – Deena perguntou, demonstrando genuína preocupação em seu tom de voz, o que só serviu para inflamar e dar poder à emoção, dentro de mim.
"Se há algo de errado?! SE HÁ ALGO DE ERRADO?", exclamei mentalmente, enquanto subia os olhos de suas mãos até que, enfim, meus olhos encontraram os dela.
Apertando os dentes dentro de minha boca, com os lábios grudados um no outro, dei um sorriso sem mostrar os dentes, enquanto encarava Deena.
- Algo de errado? – perguntei retoricamente, forçando um tom casual, como se não estivesse entendendo do que ela estava falando. – Não, professora Johnson, está tudo perfeitamente normal.
- Ótimo. – Deena disse simplesmente, concentrando-se no papel à sua frente.
Meus olhos fixaram-se novamente em suas mãos que, não bastassem a beleza, também transmitiam algo de angelical, enquanto ela movia os dedos da mão direita para digitar a minha nota em seu laptop.
O breve momento de contemplação e distração, permitiram-me escapar de um conflito imediato dos por quês de Deena ter-me respondido com tamanha frieza, mas este momento durou somente até que a mulher sentada do outro lado da mesa onde eu estava encostada, olhasse para mim.
- Samantha, esta é a sua nota. – ela disse, indicando com a ponta da lapiseira o "A+" no papel estendido sobre sua mesa. Deena levantou o pequeno maço de papéis e entregou a mim, dando um leve sorriso. – Parabéns por sua nota, senhorita Fraser. – ela disse com simpatia e eu uni as duas sobrancelhas, tentando orientar meus entendimentos dentro daquela situação.
- Obrigada. – eu disse automaticamente, simplesmente por que era educado dizer "obrigada" quando alguém nos parabeniza.
Deena deu um sorriso curto outra vez e desviou o olhar para o computador, concentrando-se em algo, depois olhou-me outra vez e pendeu levemente a cabeça para o lado, encarando-me com uma expressão interrogativa e cheia de...arrogância?
- Alguma reclamação sobre a sua nota, senhorita Fraser? – ela perguntou, com uma frieza congelante em seu tom de voz.
Toda aquela indiferença atingiu-me tão rápido quanto aconteceu. Não houve tempo para assimilar e tentar atribuir aquele comportamento de Deena a algum fato que o justificasse. Senti. Simples como se diz. Resultado disto foi que, como resposta a ela, apenas mexi a cabeça em um movimento negativo e saí dali.
Sentei-me em minha cadeira novamente, deixando o maço de papeis que ela havia me dando largado ali de qualquer forma, completamente alheia a tudo e a todo.
Ouvi a voz de Deena chamando por outro aluno e depois outros e depois outro... Eu não estava realmente concentrada em qualquer coisa e muito menos podia-se dizer que eu estava sentindo qualquer coisa, a despeito, é claro, de um leve formigamento que meu peito, que dava forma ao vazio que eu achava estar sentindo, ou que realmente estava.
Talvez o formigamento fosse a sensação do nada, ou talvez o formigamento fosse a máscara do "tudo", para se fingir de "nada" e nos livrar das dores em momentos inapropriados.
Mas final, por que diabos eu achava que estava sentindo algum tipo de dor?
Deena havia me mandado uma mensagem dizendo que precisava falar comigo e que eu deveria ligar para ela assim que acordasse, ou seja, o mal entendido do auditório tinha uma explicação que eu tinha certeza que ela me daria na primeira oportunidade. Deena tratou-me com indiferença porque estávamos em uma sala cheia de alunos e, embora ela já tivesse dito que não se importava em estar namorando uma aluna, havia toda uma questão de respeito à instituição, aos alunos e ao seu ambiente de trabalho, que eu entendia completamente. Então, por que eu estava me sentindo daquele jeito? Por que, apesar de reconhecer a validade de seus motivos, a forma como ela me tratara havia me incomodado tanto? Por que eu estava...triste?
Os infinitos "por ques" que surgiam em minha cabeça, para minha agonia ainda maior, não vinham com nenhuma resposta, nem ao menos uma resposta insatisfatória; absolutamente nada. Fiz uma análise minuciosa de possíveis respostas que encontrei espalhadas por aqui e por ali, dentro de meus sentimentos confusos, mas nada encaixava-se, nem mesmo como uma explicação forçada para os meus questionamentos.
Percebi em algum momento que Heather e Cindy estavam sentadas lado a lado, conversando sobre qualquer coisa, distraídas e bem no segundo em que ouvi Deena chamar "Zack Trump", percebi também a presença de Thomas, atrás de mim, o que me pegou de surpresa, porque eu não fazia ideia do momento em que o garoto havia voltado para a sala. Passei os olhos rapidamente pelo espaço amplo atrás de mim e percebi que todos os alunos que haviam saído para buscar livros para a aula já haviam voltado.
"A consciência sempre deixa escapar algo que, com certeza, está na mente", pensei, analisando a curiosidade do fato de eu não ter percebido uma coisa que, com absoluta certeza, havia acontecido bem diante dos meus olhos. "Talvez a minha consciência estejam deixando escapar algo em relação a Deena".
Eu estava a ponto de mergulhar, novamente, em ponderações que ajudassem minhas emoções a encontrar explicações, quando Deena decidiu começar a aula. No exato momento em que ela se levantou de sua cadeira, todos os cochichos cessaram e a sala entrou em um silêncio perfeito.
A mulher caminhou até o centro do espaço livre que tinha para caminhar, ficando assim bem de frente para mim. A mão direita era mantida atrás de seu corpo, dando-lhe um ar ainda mais imponente. Talvez o contraste entre o que ela representava, dentro de um corpo tão jovem, servisse de realce para a construção daquela imagem imperiosa que ela tinha. A mulher mais velha levou a mão esquerda aos óculos delicados em seu rosto, alinhando-o em seu rosto e depois, uniu as duas mãos atrás de seu corpo.
"Ah, meu Deus... Eu sou tão apaixonada por ela.", o pensamento explodiu em minha cabeça, sem qualquer aviso, fazendo o formigamento em meu peito começar a dar lugar aos sentimentos conhecidos que habitavam ali.
- Meus caros alunos do módulo um, é com satisfação que lhes parabenizo por seus desempenhos que, maioritariamente foram satisfatórios, com raras exceções. Os alunos que não alcançaram nota para avançar para o módulo dois, no crédito de Teoria da Percepção, por favor, dirijam-se, após a aula, até a coordenação do curso e solicitem nova matrícula. Aos que alcançaram médias satisfatórias, meus parabéns, vocês não reprovaram no módulo mais fácil do curso. – Deena disse, dando um sorriso simpático. Seu tom não era repreensivo e nem debochado. Dirigiu-se aos alunos reprovados sem revelar quem eram, com imparcialidade no tom de voz. – Agora, daremos início à primeira disciplina do módulo dois e uma das mais importantes de suas vidas.
Deena caminhou até o quadro atrás de si, esticando-se rapidamente até sua mesa para pegar uma caneta hidrográfica de cor preta, que usou para escrever o nome da disciplina no quadro branco.
"PLANEJAMENTO URBANO", ela escreveu em letras garrafais e virou-se para nós.
- A grande questão aqui, meus caros, e esta pergunta eu gostaria que vocês respondessem é: o que é planejamento urbano? – ela perguntou, colocando a tampa na caneta em sua mão. Ninguém se manifestou. A sala inteira permaneceu em silêncio, olhando para ela. Deena começou a caminhar de um lado para o outro, brincando com a caneta em sua mão, olhando para os alunos. – Se vocês falarem assim, todos juntos, eu nunca vou entender. – Ela disse com humor e sorriu, contagiando a todos na sala, que acompanharam o sorriso da professora. – Vamos guardar essa pergunta. Antes, eu quero que vocês me respondam quatro perguntas essenciais para que comecemos a pensar em planejamento urbano. A primeira é: Qual o nome do curso de vocês? – ela perguntou, dando um sorriso cínico em seguida. – Se vocês não souberem essa, eu desisto da docência. – ela brincou, mas manteve a expressão séria e todos sorriram.
- Arquitetura e Urbanismo. – Rand Looper, o cara alto de bigode vintage respondeu.
Deena acenou positivamente com a cabeça.
- Quem aqui quer ser arquiteto? – ela perguntou em seguida e todos na sala levantaram as mãos, inclusive eu, o que lhe gerou um sorriso no rosto. – Okay, isso é bom, tenho certeza que todos serão excelentes arquitetos. – Deena parou de andar e encarou a turma com atenção. – Quem aqui quer ser urbanista? – ela perguntou e absolutamente ninguém, levantou a mão. – Quem aqui sabe do que trata o urbanismo? – a mulher de cabelos castanhos perguntou e esperou até que alguém respondesse.
- Cidade? – Heather falou, mais como uma dúvida do que como uma resposta.
- Cidade. – Camila afirmou e caminhou para o quadro, escrevendo a palavra "cidade", bem abaixo das palavras "planejamento urbano". – O que mais?
"Urbanismo...cidade...pessoas...", pensei, entrando no espírito da aula.
- Pessoas...- falei, com mais certeza do que Heather havia falado, mas mantendo o tom duvidoso de quem não tem certeza absoluta do que está falando.
- Pessoas. Isso mesmo. – Deena escreveu no quadro a palavra "pessoas". – O que mais?
- Relações sociais? – uma garota de cabelos dourados se pronunciou e Deena prontamente escreveu no quadro.
- Espaço. – Thomas se manifestou e Deena escreveu, também, a palavra dita pelo garoto atrás de mim.
- Vejam, nós temos aqui "cidade, pessoas, relações sociais e espaço", que foram as palavras que, para vocês, remetem a uma possível caracterização do que se trata o urbanismo. – Deena começou a falar, virando-se de frente para a turma novamente. – Tenho certeza que, caso eu lhes perguntasse do que trata a arquitetura, teríamos palavras como "projeto, desenho, produção estética, construções", etc. – a mulher falava para a turma em um tom cheio de sabedoria e ponderação. Não havia uma pessoa que não estivesse completamente atenta à Deena. – Aí consiste um grande erro das escolas de arquitetura ao redor do mundo. Não pensem que não existem arquitetos formados por aí que separam taxativamente o urbanismo da arquitetura quando, na verdade, meus caros, o objetivo fundamental desta ciência que é a Arquitetura E Urbanismo, – disse ela, destacando a conjunção aditiva "e". – é formar Arquitetos E Urbanistas. – disse ela, destacando novamente a conjunção "e". – A arquitetura é um fato social. O urbanismo é um fato social. São estudados conjuntamente porque suas funções sociais não são cumpridas se a arquitetura não estiver atrelada ao urbanismo e vice versa. Escutem o que lhes digo, – Deena falou, cheia de paixão na voz. – nenhum arquiteto cumpre o seu dever para com a arquitetura se não tiver em sua mente o urbanismo como norte, tampouco um urbanista se apropria com excelência do urbanismo se não tiver a arquitetura como pilar de sustentação para a sua produção urbanística. – A mulher mais velha havia inflamado os sentimentos de todos os presentes ali. – Para serem excelentes produtores da arquitetura e/ou do urbanismo, vocês precisam se inflamar em paixão por ambos! – Deena exclamou, fazendo-me suspirar. – Estou aqui, humildemente lhes convidando a apaixonarem-se pelo urbanismo, tanto quanto são apaixonados pela arquitetura. Nós temos um mês de aula juntos e eu estou aqui, lhes convidando a aprenderem muito mais do que projetar cidades e casas e prédios, estou aqui lhes convidando para aprenderem a mudar o mundo. – A mulher de cabelos castanhos finalizou, como se ela mesma precisasse recuperar o fôlego, assim como deixou todos os seus alunos e sorriu. – Bem vindos ao módulo dois. – ela completou a sua introdução e deu prosseguimento à aula, como se não tivesse acabado de parar os corações e fervilhar as mentes de algumas dezenas de pessoas ali naquela sala.
Deena não era apenas uma mulher linda, com um QI de gênio e uma carreira brilhante. Deena era um ser humano a flor da pele e aquilo se podia perceber muito bem quando ela estava ensinando. A mulher por quem eu era perdidamente apaixonada dedicava cada célula de seu corpo no exercício de transmitir e dialogar com seus alunos. Deena nos instigava a pensar, nos incitava a formar um pensamento crítico, nos ensinava a produzir ideias e não somente reproduzir.
O resto da aula foi um debate infinito a respeito do urbanismo. As ideias não cessavam e Deena, orientando-nos quando necessário, mostrava-nos pontos de vistas diferentes dos nossos, mas sem imposição de ideias, apenas incitando o exercício do auto questionamento em cada um de seus alunos. Não houve um segundo de distração para a turma, a aula prosseguia de maneira tão envolvente, enveredando por caminhos cada vez mais avançados de discussão, que todos estavam absortos no ambiente que se criou.
A jovem e brilhante professora deixava toda a sua experiência e conhecimento fluírem para seus alunos, de tal forma que, fomos inundados de tanto conhecimento que, apenas ao final da aula, fui capaz de perceber minha mente exausta. Não só eu, mas também Cindy, Thomas, Heather e todos os que se começaram a conversar quando Deena já havia acabado a aula e fazia a frequência dos alunos.
- Já fiz duas matérias com ela e nunca vou me acostumar com o jeito que ela fala... – Thomas comentou. – Podem falar tudo dela, mas essa mulher é uma maquina de conhecimento e é a melhor professora que já tive na vida. – o garoto de olhos claros falou.
- Eu estou até tonta com essa aula. Ela usou até física quântica pra falar de urbanismo, cara. E o pior de tudo é que... EU ENTENDI! – Cindy comentou, esticando o pescoço para um lado e para o outro.
- Eu tento ficar magoado por ela ter me reprovado, mas assisto a essas aulas e percebo que eu era um estudante de merda, porque professora de merda, com certeza, ela não é. – Thomas falou, batucando a caneta em cima do livro que havíamos usado na aula. – E você, o que achou da aula, Samantha? – perguntou-me, mas nem esperou que eu respondesse. – Restrinja-se aos comentários acadêmicos, por favor, seus olhos já disseram bastante sobre seus comentários anatômicos por hoje.
Abri a boca, estupefata com o comentário de Thomas e o olhei com os olhos arregalados.
- O que? Não me culpe se você não sabe disfarçar. – o garoto disse, dando um sorriso brincalhão. – Agora entendi por que você não caiu nos meus encantos.
Cindy riu e eu a olhei da mesma forma que estava olhando para Thomas.
- O que? Eu avisei pra você parar. – minha amiga riu e levantou as mãos em posição de defesa.
Revirei os olhos para os dois e soltei a respiração profunda.
- Eu achei a AULA maravilhosa. – respondi simplesmente, levantando-me da cadeira.
- Só isso? – Cindy perguntou em um tom irônico.
Revirei novamente os olhos e ignorei a pergunta.
As pessoas já saíam da sala e não havia mais muitos alunos. Eu e Thomas esperávamos por Cindy que colocava suas milhares de coisas perfeitamente organizadas, dentro de sua bolsa.
Quando minha amiga deu-se por satisfeita, seguimos em direção à porta de saída.
- Senhorita Fraser, pode vir até aqui? – Ouvi Deena me chamando e a olhei de onde estava. A mulher mais velha sorriu apenas com os lábios para mim, o que me fez caminhar até ela.
Meus dois amigos pararam onde estavam, aguardando-me.
- Sim, professora? – perguntei quando cheguei perto o suficiente.
- A senhorita poderia entregar este bilhete na secretaria para mim, por gentileza? – Deena perguntou, entregando-me um pequeno papel.
A olhei sem entender e, como de costume, levantei a sobrancelha esquerda enquanto fazia com os meus olhos o caminho do rosto dela até o bilhete que já estava em minhas mãos.
"4pm. Harvard Yard, Memorial Church. Estarei esperando."
Li o pequeno bilhete em minha mão e olhei novamente para Deena. Alguns alunos passaram atrás de mim, conversando qualquer coisa, sem dar a menor importância para mim e Deena. A mulher sentada à minha frente abriu-me um sorriso e acenou positivamente com a cabeça, deixando claro que o bilhete era para mim.
Aquele sorriso fez com que todos os meus sentimentos por Deena saíssem detrás da nuvem de incertezas que se instalara em meu peito e tomassem conta de mim. De repente, os "por ques" que tomavam conta dos meus sentimentos horas atrás ressurgiram, mas dessa vez, havia uma resposta em comum para todas elas.
"Por que eu estava me sentindo daquele jeito? Por que, apesar de reconhecer a validade de seus motivos, a forma como ela me tratara havia me incomodado tanto? Por que eu estava...triste?". Eu estava triste porque Deena iria embora e não importava o motivo ou por quanto tempo, eu ficaria longe dela e a simples ideia de ficar longe dela, partiu-me ao meio.
Suspirei, olhando para o papel novamente e depois para Deena, forcei um sorriso que quase não saiu e olhei para ela.
- Tudo bem, professora, entregarei. – respondi-lhe e forcei outro sorriso.
- Obrigada, Samantha. – A ouvi responder antes de virar-me para ir embora e a olhei rapidamente, a tempo de ver os olhos tristes de Deena, antes que ela os desviasse para Rand, que se aproximava de sua mesa.
Deixei a sala acompanhada por meus dois amigos que conversavam sobre qualquer coisa, segurando o bilhete de Deena que pedia-me que a encontrasse nos jardins de Harvard, perto do Memorial Church e com uma tristeza no peito que agora tinha uma razão muito clara: a partida de Deena.
•
As gotas de chuva chocavam-se violentamente contra o vidro transparente da enorme janela à minha frente. Apesar do casaco eficiente que cobria-me o corpo, devido ao tempo que eu permanecera ali, minhas costas já sentiam o frio da parede atrás de mim. As meias em meus pés tampouco faziam seu trabalho com a mesma eficiência depois de muito tempo em contato com o concreto do parapeito largo sobre o qual eu estava sentada. Movi-me discretamente, acreditando que o atrito de meu corpo no tecido da roupa e em seguida com a parede atrás de mim e sob meus pés, produziria algum calor que me devolvesse algum conforto. Entretanto, como tudo ao meu redor naquele dia, a física não parecia querer colaborar comigo. A xícara de chocolate quente que Cindy me dera dez minutos antes já estava gelada e não fazia outro papel senão dar um ar mais melancólico para a cena que eu protagonizava naquele momento.
- Que época estranha para uma chuva tão forte. – Observei em voz alta, com o rosto virado para a janela, encarando fixamente as grandes gotas que escorriam pelo lado de fora do vidro.
- O clima anda estranho. Estamos no inverno e quase não tivemos neve. – Minha amiga disse, de algum lugar do quarto e pela movimentação, percebi que não estava deitada e sim andando.
Mantive-me calada, com meus sentimentos demasiadamente indispostos para prosseguir em uma conversa. Olhei o relógio mais uma vez. 3:20pm. Cedo demais para ir ao local marcado por Deena.
- Tem certeza que não quer conversar sobre isso? – Deena perguntou e percebi a garota aproximando-se de mim e então, virei o rosto para poder olhá-la.
- Absoluta. – respondi-lhe com sinceridade.
Eu realmente não queria conversar sobre aquele assunto com outra pessoa que não fosse Deena. Não havia nada que eu pudesse dizer. Dentro de mim só havia tristeza. Eu não precisava falar, eu precisava ouvir e a única pessoa que poderia falar o que eu precisava ouvir era Deena.
- Tudo bem, eu entendo. – a garota sentou-se no parapeito largo, de frente para mim, cruzando seus pés aos meus, ato pelo qual eu agradeci.
Os olhos de Cindy perderam-se brevemente em algum ponto além da janela e por este breve momento, minha amiga deixou escapar uma vírgula de tristeza de dentro de si e então, dei-me conta do quão egoísta estava sendo em não dar-lhe atenção em seus problemas como ela dava atenção aos meus. E eu sabia exatamente qual era o problema de Cindy.
Olhei o relógio outra vez. 3:25pm. Eu não demoraria mais do que cinco minutos para caminhar do edifício dos freshman até o Harvard Yard, então, decidi desligar minha mente de mim mesma e liga-la em minha amiga, durante o tempo que eu tinha.
- O que lhe incomoda tanto em ficar com ela? – perguntei de uma vez. Dar voltas não era o meu forte. Cindy arregalou os olhos e levantou uma das sobrancelhas, olhando-me com uma explícita expressão de quem não havia entendido a minha pergunta. – Alice... – expliquei e antes que Cindy completasse sua expressão que daria início ao pensamento de negar o que eu sabia, cortei-lhe. – E não adianta tentar negar, porque se você não se lembra, eu entrei nessa vida antes de você e reconheço de longe. – falei em um tom brincalhão e minha amiga deu uma gargalhada, seguida de uma concordância cansada.
- Eu não sei... – a garota à minha frente falou. – Quer dizer, eu nem sei por qual motivo eu iria negar pra você agora, entende? Não tenho vergonha e nem problemas em estar tendo algo com uma mulher, antes que você pense isso. O problema passa bem longe disso. O problema não é em ser uma mulher, o problema é em "estar tendo algo". – Ela concluiu, fazendo aspas com os dedos.
A encarei por alguns segundos, enquanto mordia o canto inferior direito do lábio para ajudar no processamento da informação que acabara de ouvir.
- O seu problema é que não quer "ter algo" com ela? – expressei a dúvida, apenas para reafirmar o que eu havia entendido.
- Eu não quero "ter algo" com ninguém. – ela foi enfática. Enfática demais. Pareceu querer afirmar aquilo mais para ela do que para mim.
- Por que não? – fiz a pergunta mais óbvia, embora eu já soubesse a resposta que me daria.
- Porque eu estou bem assim, estou bem sem ter ninguém. Namorei por muito tempo, Samantha. Foi um relacionamento muito conturbado, você sabe. Eu preciso de um tempo pra mim, não quero me envolver com ninguém. – ela disse com sinceridade.
- Você já não namora mais com ele há quase um ano, amiga... – comecei a argumentar e ela me cortou.
- Tempo não significa nada.
- Concordo. Nesses termos, tempo não significa nada, mas não é como se você estivesse tentando se livrar de um sentimento por ele. Você mesma disse que já não o amava enquanto ainda estavam juntos. – recordei-lhe.
- Não se trata dele, se trata de mim. Eu não quero entrar em um relacionamento e viver tudo aquilo de novo. – ela falou, soltando um suspiro.
- Por que você acha que vai viver um relacionamento igual ao anterior? Aliás, por que você acha que vai viver um relacionamento? – questionei-lhe, com seriedade. – Até onde me lembro, você e Alice estão tendo "uma coisa", certo?
A garota ruiva revirou os olhos, como se as respostas para minhas perguntas fossem óbvias, mas respondeu-as mesmo assim.
- Alice é, perigosamente, muito parecida comigo em pontos cruciais e diferente em pontos importantes. Não existe maneira de "ter uma coisa" com Alice sem que o resultado dessa "coisa" não seja um relacionamento sério. Tipo você e Deena. – ela concluiu e a simples menção do nome da mulher mais velha fez meu coração pular dentro do peito.
Olhei o relógio rapidamente outra vez. 3:45pm. Hora de ir ver Deena.
- E então é isso? Você, Cindy Berman, vai se privar de viver uma coisa que quer porque está com medo do futuro? – perguntei-lhe, levantando do parapeito, para calçar minhas botas e ir ao encontro de Deena.
- Estou com medo do futuro porque sei como será. – ela balbuciou, colocando as pernas para fora do parapeito, mas mantendo-se lá.
Caminhei até a frente da garota e fiz com que olhasse para mim. Levantei as duas mãos, com os punhos fechados, parando-as bem à frente dela, à altura de seus olhos.
- Esta mão é o que você conhece. – falei, movimentando a mão direita para que Cindy entendesse de qual mão eu estava falando. – Esta é o que você não conhece. – balancei a mão esquerda, com o mesmo intuito. – Alice está dentro de uma delas. Há cinquenta por cento de chance para as duas. Ela pode estar dentro de uma ou de outra. Se você perder o que tem dentro do que já conhece, tudo bem, significa que não era para dar certo e apesar da dor, eventualmente, você vai seguir e frente, mas se você perder o que está dentro do que não conhece, então a sua vida será triste, porque a gente só tem uma chance para as coisas que não conhecemos. Outras virão, mas nunca a mesma. E se Alice for o que você ainda não conhece e ainda por cima, o que você deseja? E se ela for a sua chance única? Você me disse uma vez que eu não deveria ter medo de sentir o que sinto e que sentir, nem de longe, poderia estar errado. Está na hora de ouvir o seu próprio conselho, não acha? – perguntei, observando os olhos de Cindy fixos em minhas mãos.
A garota levantou os olhos até encontrar os meus e deu-me um sorriso, que disse bem melhor do que seus lábios provavelmente diriam, a resposta que desejava, ao que eu havia dito. Em seguida, Cindy deu-me um abraço carinhoso e antes que eu pudesse pensar em me afastar, a garota colocou as mãos em meus ombros e afastou-me gentilmente até que pudesse me olhar.
- Obrigada, Sam. – ela sorriu e antes que eu dissesse alguma coisa, ela apertou levemente os dedos em meus ombros. – Agora vá. Não quero que você se atrase para o seu compromisso. Provavelmente Deena já está lá.
Olhei o relógio rapidamente e ainda faltavam dez minutos para as 4pm.
- Duvido. Ela tem essa coisa com a pontualidade. Tenho certeza que ela só vai aparecer exatamente às quatro. – falei, reconhecendo que já estava na hora de ir e levantando-me em seguida.
- Uhum... – Cindy murmurou.
- Quando eu voltar, conversamos mais. – falei, dando-lhe um beijo na testa antes de virar-me em direção à porta.
- Ei, Sam... – Cindy chamou-me, assim que alcancei o sobretudo pendurado perto da porta. – Você está bem?
Permiti-me pensar a respeito daquela pergunta enquanto vestia o sobretudo preto, calmamente. Ajeitei as mangas e a gola, preocupando-me em cobrir o meu corpo, para depois amarra-lo à minha cintura.
"Eu estou bem?", perguntei-me mentalmente, mas nenhuma resposta veio. "Eu estou bem?".
- Não sei. – Respondi enquanto finalizava o laço. – Provavelmente poderei responder isso quando voltar. – Falei, girando a chave na porta, para destrancá-la. – Eu espero.
- Vai dar tudo certo, Samantha. Tenha paciência e seja compreensiva. – Cindy alertou-me e eu apenas sorri, acenando positivamente com a cabeça e pegando o guarda chuva vermelho de Cindy, antes de sair.
"Ter paciência e ser compreensiva", repeti para mim mesma o caminho inteiro, desde o corredor, passando pelo elevador, até chegar à porta de saída do edifício dos freshman.
A chuva diminuíra, mas não o suficiente para que eu não precisasse do guarda chuva, então o abri antes de sair, tendo um breve momento saudoso de minha mãe, quando sua voz surgiu dentro da minha cabeça, chamando a minha atenção por abrir guarda chuva dentro de casa.
"Samantha, não abra o guarda chuva dentro de casa. Atrai a morte.", a voz da mulher de cabelos loiros soou em minha mente e eu ri para mim mesma enquanto atravessava a porta e caminhava em direção à calçada.
Eu nunca havia entendido a relação que havia entre abrir um guarda chuva dentro de casa e a morte, mas não era como se eu pudesse questionar as ideias de minha mãe, então aos dez anos, simplesmente desisti de brincar com o guarda chuva dentro de casa.
Enquanto caminhava, tratava de preencher minha mente com todo tipo de assunto, desde tentar entender como alguém não tinha pena de deixar uma flor do lado de fora da janela no inverno, até o fato de que talvez o guarda chuva vermelho de Cindy estivesse chamando atenção demais, apesar de não ter visto uma pessoa sequer na rua, desde começara a caminhar para o meu destino. Eu não queria pensar em Deena, até que ela estivesse à minha frente e pudesse responder a todas as perguntas que amassavam meu estômago. Eu não queria pensar nela até que pudesse ter o seu colo para acalmar meu coração.
Olhei o relógio quando já estava caminhando pelo Harvard Yard e a Memorial Church já estava ao alcance de meus olhos. Um minuto para as quatro. Olhei em volta, procurando qualquer indício de Deena, mas não a vi em lugar algum. Fechei o guarda chuva, percebendo que não havia mais indício de chuva e caminhei os poucos metros que faltavam até o local marcado por Deena.
Parei de frente para a construção datada de 1932, observando algumas gotas que ainda pingavam desde o seu telhado até o chão. A Memorial Church parecia muito maior de perto do que quando vista de longe, por trás das árvores que se estendiam pelo Havard Yard. A construção era intrigante. Singela em suas formas, mas ao mesmo tempo, olhar para ela causava uma sensação de mergulho em um passado desconhecido. A torre enorme, pintada de branco, causada a sensação de tocar o céu, o que me pareceu bastante inteligente, considerando que aquilo era uma igreja.
- Dizem que a primeira turma de formandos de Harvard a ter sua missa de formatura celebrada no Memorial Church, teve doze ganhadores de prêmio Nobel. – a voz de Deena surgiu atrás de mim e eu senti o arrepio típico que sua presença me causava, tomar conta do meu pescoço, ombros e finalmente os braços.
Virei de frente para ela no mesmo instante, devagar, apesar de minha urgência em olhar para a mulher que bagunçava a minha vida com uma frequência muito maior do que eu era capaz de me acostumar, em um tempo tão curto.
- Eu espero que a igreja traga a mesma sorte à minha turma também. – falei, com a voz soando mais fraca do que a minha real intenção e abaixei os olhos, sentindo-me envergonhada por aquilo.
- Você não precisará de sorte para ter seu talento reconhecido. – Deena disse, com os olhos veementes, fitando-me.
Limitei-me a acenar positivamente com a cabeça, embora não concordasse com tal afirmativa e em meio ao meu aceno e o que veio depois, houve entre nós um espaço perdido de olhar, onde, por algum motivo, enxerguei dentro dos olhos de Deena uma resposta silenciosa à pergunta que eu ainda não tinha feito, enxerguei dentro dos olhos da mulher à minha frente a calma que preencheu o buraco no meu estômago, o qual eu tentava ignorar desde as primeiras horas daquele dia. Enxerguei nos olhos de Deena a reciprocidade de um sentimento que nem eu sabia que existia dentro de mim e que curou as feridas que haviam surgido na minha alma, tão instantaneamente quanto o próprio sentimento costuma surgir. Não por razões adversas, mas por simples incapacidade de lidar com aquilo agora, apeguei-me à calmaria e ignorei a recente consciência do sentimento que se revelara entre nós. No pequeno espaço de cinco segundos, eu me dei conta de que eu... eu a am...
- Obrigada por ter vindo. – A voz de Deena cortou-me o pensamento e eu a agradeci mentalmente por isso.
- Por que está agradecendo? – perguntei, amaldiçoando-me por não conseguir controlar o tom de voz saindo fraco.
- Depois do que houve hoje de manhã, achei que seria natural que não quisesse me ver... – ela disse, sua voz vacilando ao final da frase.
Mordi o canto inferior do lábio, tentando desviar da lembrança instantânea do vazio agonizante e dolorido que eu sentira naquela manhã e desviei o olhar do dela por um segundo, esperando que ela não visse meu lapso de fraqueza emocional. Senti a mão de Deena tocar timidamente a minha por um brevíssimo segundo, então a olhei novamente e suspirei. Seus olhos estavam preocupados, profundos e atentos a mim. Talvez eu tivesse demorado mais do que um segundo sem olhar para ela.
- Eu tenho certeza que você jamais faria nada para me magoar propositalmente e que pode me explicar o que está havendo. – a respondi finalmente, com a sinceridade mais madura que eu conseguia alcançar dentro dos meus sentimentos.
Era óbvio que eu havia tido toda sorte de pensamentos infantis e irracionais a respeito daquilo, da mesma forma como tive pensamento racionais e maduros, mas eu havia escolhido deixar que prevalecesse o pensamento maduro e racional, pelo bem da minha relação com Deena. "Manter uma relação respeitosa e saudável, 90% do tempo é uma escolha.", a voz de minha mãe havia soado em minha cabeça, com o alerta, durante muitas vezes naquele dia. Então eu escolhera confiar na mulher para quem eu havia confiado o meu coração, o meu corpo e a minha alma. Havia uma explicação que não me magoaria, eu tinha certeza.
Um pequeno sorriso no rosto de Deena tranquilizou-me ainda mais e eu senti-me grata pela escolha que havia feito, caso contrário, provavelmente estaríamos discutindo naquele momento, ao invés de estarmos trocando sorrisos.
- Este lugar não é público demais para nos encontrarmos? – perguntei, intencionando que ela me levasse para o carro dela, onde eu poderia abraça-la sem me preocupar com o resto do mundo.
- Na verdade, é o lugar menos público que eu consegui pensar em Harvard. – Deena respondeu com um ar misterioso.
Levantei a sobrancelha esquerda, indagando-a silenciosamente. Aquele, definitivamente não era o lugar "menos público" de Harvard. Não se considerássemos o meu dormitório ou a própria sala dela ou seu carro ou...
- Venha, precisamos conversar no lugar "menos público" de Harvard. – Deena tocou minha mão suavemente por dois segundos enquanto passava ao meu lado, encaminhando-se em direção à lateral da Memorial Church.
A segui, apenas dois passos atrás dela, até uma pequena porta lateral, pintada de branco, cheia de adornos renascentistas esculpidos em toda a sua extensão. A porta era pequena e baixa, até mesmo para mim, que tinha uma altura abaixo da média, mas seu detalhamento era tão bem feito que dava uma impressão de grandiosidade um pouco irônica.
Deena tirou do bolso uma pequena chave dourada, cujo "chaveiro" era um fio vermelho amarrado à sua ponta e a colocou na fechadura, destravando a porta antes de girar a maçaneta e abri-la completamente.
Perguntei-me por um momento por que Deena tinha a chave da porta lateral da Memorial Church, mas deixei o pensamento para depois, para poder seguir a mulher que estava parada a porta, olhando-me, esperando que eu adentrasse o espaço, deixando o guarda chuva vermelho de Cindy encostado na parede.
A porta se fechou atrás de mim e eu não pude enxergar mais nada. A escuridão se derramou sobre o ambiente desconhecido para mim, o que me causou uma sensação de estar perdida, mas só até sentir a mão de Deena segurar a minha e seus dedos cruzarem aos meus.
- Não é por nada não, mas este não é um lugar um pouco esc...
Antes que eu pudesse completar a frase, um estalo de interruptor antecedeu o brilho das luzes que iluminaram o espaço em que estávamos.
- Uau. – exclamei baixinho, em reação à cena que se revelara aos meus olhos.
- Eu sei... – Deena concordou, contemplando o lugar da mesma forma que eu, apesar de não ser a primeira vez que ela estava ali, com certeza.
- Uau. – repeti a expressão, desconcentrando-me brevemente da beleza que eu contemplava para apreciar a sensação de ter a mão de Deena tão firmemente presa à minha. – Eu nunca imaginaria que um lugar assim poderia existir.
O espaço tinha um teto muito mais alto do que eu poderia ter imaginado ou talvez fosse apenas a impressão causada pelas pinturas renascentistas de anjos e arpas no céu que, de alguma forma, pareciam uma miniatura do teto Capela Sistina, só que com anjos de ouro. À minha esquerda, Na direção de um Vitral iluminado por luz artificial que projetava no chão a imagem de Jesus Cristo, havia um pequeno altar, erguido em madeira escura e acolchoamento em veludo tão branco que parecia ter sido colocado ali havia poucas horas. O chão era de mármore branco e pequenas luzes saíam do chão, iluminando o caminho do tapete vermelho que se estendia até o altar. As paredes eram revestidas em pedras trabalhadas, o que fazia o ambiente ser uma enorme mistura de períodos artísticos, causando uma sensação tal de conforto e assombro, que era quase impossível de descrever.
- Senti-me da mesma maneira quando entrei aqui pela primeira vez. – Deena disse, acariciando minha mão com o polegar.
- Posso entender o motivo. – respondi-lhe, caminhando até o outro lado do ambiente sem soltar sua mão, para ver mais de perto as pinturas do teto que se estendiam até uma altura visível aos olhos, na parede. – A pessoa que fez isso aqui era muito sensível.
Deena sorriu, dando-me um beijo no ombro, enquanto eu olhava atentamente os detalhes da pintura, sem atrever-me a tocar.
- Diz a lenda que o homem que construiu este lugar, era um artista, aluno de Harvard, muito amigo do reverendo na época. Dizem que eles se apaixonaram... – Deena começou, parando um pouco, enquanto olhava em volta e eu voltei minha atenção completamente para ela. – Entretanto, a paixão foi um sofrimento muito grande para os dois, porque eram homens de muita fé e muito crentes na bíblia. O reverendo tinha um compromisso com a vida que havia escolhido e o artista tinha um compromisso com Deus... Eles escolheram não viver o amor que sentiam um pelo outro da maneira que queriam, mas como amigos. Para o artista, entretanto, a situação começou a se tornar insustentável e então, ele decidiu ir embora, mas antes, iria deixar um presente para o seu amado amigo. E então, ele construiu este lugar. – Deena contava a história, passando a ponta do dedo delicadamente pelo contorno de um anjo pintado à parede. – Depois ele partiu, casou com sua melhor amiga, que conhecia toda a história e teve um filho a quem deu o nome do seu amado, que se tornou o padrinho do seu filho, no final das contas e padrinho também, da filha de seu filho. – a mulher finalizou e olhou para mim, dando um sorriso iluminado, que eu não entendi. A história havia me dado vontade de chorar e Deena estava sorrindo.
- É uma história muito linda. – falei, olhando para Deena com atenção, que voltara novamente a encarar um ponto fixo na parede.
Desviei rapidamente o olhar para o mesmo lugar que Deena e atentei-me para a imagem pintada. Eram dois anjinhos, um de frente para o outro, encarando-se. Um segurava uma bíblia e o outro um pincel. Pouco abaixo, estava a assinatura do pintor, em letras muito pequenas e quase imperceptíveis, pintadas em dourado.
"Maxime Johnson", li em voz baixa, involuntariamente. "JOHNSON?!", exclamei mentalmente e olhei para Deena no mesmo instante, arregalando os olhos para a mulher que ainda segurava a minha mão carinhosamente.
- Johnson? – perguntei, usando o próprio sobrenome dela como pergunta. – Quer dizer, é uma história real?! – a indaguei novamente, sentindo-me excitada demais com a ideia de que aquela fosse realmente uma história verídica.
- Sim. Maxime Johnson era meu avô, pai do meu pai. – Deena deu um passo para frente, segurando minha outra mão e quebrando totalmente qualquer distância desnecessária entre nós.
- Eu estou tão...tão... – tentei falar, mas a palavra correta não aparecia. – não sei que palavra usar para descrever. É uma história tão linda e ao mesmo tempo tão triste. Eu nunca imaginaria que é mesmo real e que é a história da sua família e...
- Shhh. – Deena fez com os lábios, soltando minha mão e colocou o indicador sobre meus lábios. – Eu posso imaginar como se sente. – Ela disse, dando-me um beijo carinhoso nos lábios.
A excitação com o ambiente e com a história dele transformaram-se imediatamente em falta de ar. Não era como se houvesse muito tempo desde que havíamos nos beijado, mas meu coração estremeceu como se fosse a primeira vez que os lábios dela encostavam nos meus.
A mulher mais velha manteve-se em silêncio, encostando a testa na minha e fechou os olhos, junto comigo, apreciando o momento da mesma maneira que eu. Permiti-me desfrutar da respiração quente de Deena que percorria meu rosto e cobria meus lábios; das mãos de Deena que tão carinhosamente seguravam as minhas, como se eu fosse um objeto precioso que não podia ser danificado. Porque era assim que Deena me fazia sentir, como se eu fosse preciosa e eu não podia lembrar de sensação melhor do que aquela, de ser ama...
- Nós precisamos conversar. – Deena disse, dando-me outro beijo carinhoso e lento nos lábios.
Concordei com um aceno positivo de cabeça, ainda de olhos fechados, depois de soltar um breve suspiro, que havia sido inevitável devido a recente dificuldade em respirar que Deena me causara.
A mulher mais velha levou-me para outro ambiente, que assemelhava-se muito a uma biblioteca particular, passando por uma porta de vidro que separava os dois ambientes. Sentou-se em um banco largo, indicando para que eu sentasse ao seu lado, o que eu fiz sem questionar.
- Não estranhe o lugar, eu lhe trouxe aqui muito mais para lhe contar a história da minha família do que por qualquer outro motivo. – Ela disse, colocando a mão em meu joelho e o apertando com carinho. – Afinal, eu poderia ter conversado com você dentro do meu carro ou...
- Está tudo bem. Estou feliz que me trouxe aqui. – falei, tranquilizando-a do pensamento de que eu pudesse estar estranhando o lugar escolhido para conversarmos.
Deena sorriu, fitando-me por alguns instantes antes de falar.
- Escolhi esse lugar para conversarmos porque aqui se inicia uma parte importante da história da minha família e isto é significativo para mim, porque, embora isto provavelmente seja precoce de se dizer, um dia eu quero que você faça parte dessa história também. Quero que saiba que você é uma das coisas mais sérias da minha vida no momento e que o fato de eu precisar me manter longe por algum tempo não significa absolutamente nada. Eu quero você, Samantha. Vou continuar querendo. – ela completou e parecia querer continuar, mas travou.
Engoli o nó que se formou em minha garganta, com o qual era difícil de lidar em meio às borboletas em minha barriga, que tratei de trancafia-las em qualquer lugar dentro de mim, para poder levar aquela conversa maduramente, e respirei fundo antes de falar.
- Me explique o que está acontecendo, por favor... – pedi, com a voz soando fraquinha e eu não me julguei por isso. – Eu fiquei tão perdida hoje de manhã.
- Eu entendo. – Deena falou, sentando-se mais perto de mim e colocou a mão em meu rosto com tanto carinho sendo exprimido em seu gesto e seu olhar que fez-me sentir vontade de chorar, mas não de tristeza e sim de felicidade por tê-la. – Eu queria ter falado com você logo cedo, antes de tudo, mas você não me ligou.
- Eu sei, eu sei... – falei, colocando a minha mão sobre a dela, dando-lhe um beijo carinhoso, enquanto aproveitada a sensação de ter sua pele tocando a minha. – Eu acordei atrasada e achei que poderia falar com você na faculdade no final das contas. – disse-lhe, unindo as sobrancelhas, sentindo-me agora um pouco culpada pelos meus próprios sentimentos.
- Perdoe-me por não ter ligado mesmo assim, eu deveria ter insistido.
- Sh. A culpa não é sua. – afirmei, dando-lhe outro beijo na mão. – Pode me contar o que é tudo isso? – Perguntei pacientemente.
A mulher mais velha afirmou com a cabeça e tirou o celular de dentro do bolso do sobretudo que usava, colocando-o em cima da mesa.
- Eu estava em um processo de negociação com uma empreiteira inglesa que quer lançar um empreendimento imobiliário comercial em Londres, desde o ano passado. – Ela começou a explicar. – Ontem, fui para o escritório, depois que lhe deixei em casa, para uma reunião com o empreendedor. Não achei que fossemos fechar negócio, porque eles só reúnem para pedir que eu abaixe o preço, mas dessa vez, eles pararam de tentar negociar valores e fecharam o negócio. O terreno em Londres já está todo preparado para o início das obras e eles só estavam esperando fechar o negócio comigo para que começassem as obras com o meu projeto. Eu preciso estar lá nos seis primeiros meses, pelo menos, para orientar a parte mais importante da construção, depois, enviarei algum arquiteto do escritório e voltarei para cá, que é o meu lar. Não é nada permanente e faz parte do meu trabalho... – ela concluiu, com alguma incerteza na voz e eu sorri para ela.
- Seis meses? – Perguntei e ela concordou com a cabeça. Levei a mão ao rosto da mulher que me devorava com o olhar e deslizei o polegar do canto de sua boca até seu queixo, contornando-o. – Acho que posso aguentar seis meses. – falei sorrindo. – Posso aguentar o tempo que for necessário por este motivo. É o seu trabalho, é a sua paixão, a qual eu, inclusive, compartilho. Eu posso esperar por você pelo tempo que for.
- Você, em breve, terá seus períodos longe de casa em nome da profissão também. – ela disse. – Obrigada por entender... – ela agradeceu, dando-me um sorriso sincero.
- Não precisa agradecer. E não se preocupe, eu prometo que vou me comportar. – eu disse, usando um tom brincalhão, para acabar com o tom sério demais da conversa.
- Você não precisa prometer nada. Eu confio em você, promessas são dispensáveis. – ela disse e eu suspirei, envergonhada.
Deena destravou o celular e começou a procurar por alguma coisa.
- Quando você vai? – perguntei, observando-a abrir algum email.
- Em um mês, no máximo. Eu iria antes, mas eles precisam mudar o projeto que foi aprovado pelo governo britânico pelo meu e demora um pouco porque tem uma série de questões e o projeto precisa ser aprovado. – ela explicou, procurando ainda por algo no celular.
- Um projeto precisa de que para ser aprovado? – perguntei curiosa.
- No caso de Londres, precisa respeitar o coeficiente básico de aproveitamento do terreno, o índice de permeabilidade do solo, eficiência energética do edifício e uma série de outros fatores. – ela explicou mais uma vez e virou a tela do celular para mim, mostrando-me a imagem do que eu entendi ser o seu projeto.
- U A U. – falei pausadamente, dando destaque a cada sílaba, exatamente do jeito que soou na minha mente quando vi a imagem do edifício que Deena havia projetado. Mantive a boca aberta, porque simplesmente não conseguia fechá-la.
- Gostou? – Deena perguntou, observando-me com atenção, provavelmente para estudar a minha reação. – Se chamará "O Torso".
Permaneci calada, alternando o olhar entre Deena e a imagem do projeto do edifício. Eu não conseguia encontrar palavras para descrever o que eu achava daquela edificação. Era esplêndida, incrível, genial, inquietante, simétrica e assimétrica ao mesmo tempo era...era como Deena.
- Às vezes esqueço quem você é e tudo o que você representa para a arquitetura e sou tomada assim de surpresa, quase todas as vezes que vejo algo que você fez ou fará. – falei com sinceridade, a única coisa que eu conseguia expressar com coerência.
Deena deu um sorriso que permeou entre timidez e gratidão, dando-me um beijo carinhoso na bochecha e depois nos lábios. Meus lábios desejaram mais e também os dela desejaram os meus, levando-nos para um breve momento de beijo que terminou com o afastamento provocado pela mulher mais velha. Percebi algum incômodo vindo dela e uma interrogação enorme surgiu em minha cabeça.
- O que houve? – a indaguei, colocando uma mecha de seu cabelo para trás da orelha. O suspiro que o gesto que fiz causou-me ao estômago foi inesperado e fez com que minha mão tremesse enquanto ainda encostava na pele da mulher linda a minha frente.
- Não acho uma boa ideia nos beijarmos calorosamente aqui. – ela respondeu simplesmente, como se houvesse acabado de falar algo muito natural.
- O que? Como assim? - levantei as sobrancelhas, questionando-a com certo alarde.
- Por que esse susto todo, Samantha Fraser? – Deena perguntou-me, deslizando o dedo indicador da minha testa até a ponta do meu nariz, como desenhasse em mim, as minhas próprias linhas.
- Por que você não acha uma boa ideia dos beijarmos aqui? Por que é uma igreja? Você acha que o que fazemos é pecado? – Perguntei mais coisas do que queria, ao mesmo tempo, deixando escapar minha exasperação.
Deena riu, como se minhas perguntas tivessem sido idiotas, o que só me fez ficar com mais dúvidas ainda. Quando percebeu minha inquietação, colou seus olhos aos meus e segurou minhas mãos novamente.
- Não, eu não acho que o que fazemos é pecado, tampouco errado ou abominação. – ela começou, dando um beijo carinhoso em meus lábios. – Mas estamos em um lugar onde as pessoas acham. Um lugar sagrado para as pessoas que acham. E não é porque eu não acho o mesmo que eles, que vou desrespeitar a crença deles. Você não concorda? – Ela concluiu, puxando minhas mãos até seus lábios e as beijou, uma de cada vez.
- Você está certa... – concordei, vendo a situação por um ângulo diferente agora.
Estar com Deena era uma série recorrente de aprendizados. Ela tinha tanto a ensinar e a dizer a respeito de tudo... Deena era como o universo, cheio de tudo e com tudo a contribuir. Então, perdida no significado do que Deena era, estalou-me à mente uma ideia que amaldiçoei-me por não ter tido antes e pelos próximos segundos, enquanto Deena levava-me para o recinto onde estávamos anteriormente e me falava mais alguma coisa para a qual eu não havia conseguido dar atenção, preocupei-me em pensar em alguma forma de convidá-la sem que fosse óbvio o que eu queria fazer.
- Vamos? – Deena falou, assim que abriu a porta e a claridade na luz solar adentrou o ambiente. A mulher mais velha esperou que eu passasse pela porta, depois que peguei o guarda chuva vermelho e a fechou, trancando-a em seguida.
O frio não estava tão intenso naquele dia, apesar da chuva que caíra antes, e não havia mais neve, o que era muito incomum para aquele período do ano. O cheiro da terra misturada com a grama molhada subia, impregnando o ar. Inspirei profundamente, deixando com que aquele cheiro percorresse meus pulmões e veias e mente e alma.
- Petrichor! – Deena falou, parando ao meu lado. A olhei, interrogando-a com o olhar, já que não fazia ideia do que ela estava falando. – O cheiro da terra após a chuva. Petrichor. – Ela explicou, repetindo a palavra, dessa vez mais devagar.
- Você sempre tem uma palavra para tudo? – perguntei, tentando recordar de todas as palavras desconhecidas que eu já havia escutado ela falar.
Deena deu um sorriso meio de lado, cheio de humor, como se dissesse "sim", mas apenas deu de ombros. É claro que ela sempre tinha uma palavra para tudo, eu tinha certeza, principalmente depois de ter descoberto, durante a viagem de ida para New York, que Deena fala mais línguas do que minhas mãos tinham dedos para contar.
- Para os gregos, é sinal de bom presságio. – ela disse, caminhando pela calçada, lado a lado comigo. – Eles acreditam que todo casal de namorados ou amigos ou até mesmo familiares, que sentem este cheiro juntos, tem um futuro bonito juntos. Existem relatos até mesmo de homens que passavam semanas na frente da casa de suas noivas, apenas para que quando caísse uma chuva, eles sentissem o cheiro da terra, depois que a chuva passasse, juntos.
- Será que é verdade? – perguntei, realmente curiosa quanto ao assunto, atravessando o Harvard Yard ao lado de Deena.
- Se a crença grega é verdade, como saberemos? – Deena respondeu-me, dando um sorriso e olhou novamente para frente, para caminhar seguramente e não despertar suspeitas nas pessoas que caminhavam por ali também. – Mas as pessoas realmente acreditam nisso por lá.
- E você, acredita nisso? – perguntei, sendo mais objetiva em minha pergunta.
Paramos à frente do carro de Deena, que o destravou, mas parou e virou-se para mim.
- Eu acredito no amor e acredito no esforço. Permanecer com a pessoa que amamos é uma questão de esforço mútuo. Se não há esforço mútuo em uma relação, não há credo ou crença que mantenha o amor. – ela disse, fazendo-me sorrir. – E todos os meus esforços estão com você, meu amor. – concluiu e quase levantou a mão, mas percebi que se conteve.
- E todos os meus estão com você. – lhe respondi, da mesma maneira, com toda sinceridade do meu coração.
- Eu sei que sim... – Deena respondeu, com o olhar fixo no meu, o que me fez perder a força nos joelhos e quase cair, mas apoiei o guarda chuva vermelho no chão e mantive-me de pé. – Infelizmente preciso voltar, mas lhe deixarei no alojamento.
- Não precisa, eu volto andando. Preciso comprar algumas coisas no caminho. – leia-se "não quero incomodar, o alojamento fica muito perto".
- Tem certeza? – ela perguntou, abrindo a porta de seu BMW.
- Absoluta. – respondi-lhe. – Mas antes... – chamei sua atenção, tocando em sua mão rapidamente. – Quero lhe convidar a ir a um lugar comigo. – A mulher mais velha continuou me olhando, esperando que eu concluísse. – Você tem esse final de semana livre? – perguntei, um tanto envergonhada.
Deena me puxou pelo sobretudo, até que eu estivesse, junto com ela, encoberta, por um dos lados da rua pela porta do carro aberta. Suas duas mãos encostaram meu rosto com urgência e nossos lábios precisaram de apenas um toque para encaixarem-se em um beijo mordaz. A boca de Deena era urgente e acompanhava o ritmo das batidas desesperadas do meu coração, que faltava pular do peito diante daquela situação. Nossas línguas encontravam-se em um desejo intenso de ir além, mas de repente, Deena cortou aquele beijo perigoso, dando-me vários beijos curtos nos lábios. Seus olhos encaixaram-se aos meus como se nossas íris fossem pares perfeitos uma da outra.
- Para você eu tenho tempo até quando não tenho, Samantha Fraser. Todos os meus dias são seus. Para sempre. – Deena disse com a boca o que eu já havia visto no momento em que seus olhos encaixaram-se aos meus.
"Todos os meus dias são seus. Para sempre."