Eles lhe ofereceram comida e água assim que anoiteceu e continuaram a cavalgar por toda a noite sob a luz da lua e estrelas, era um cenário de tirar o fôlego, mas tudo o que vinha a sua mente era Jaehaerys. Ela estava ansiosa acima de todos os sentimentos que lhe vinham com os recentes desdobramentos... O último lugar em que ela esperava reencontrar seu sobrinho era como um Khal de um Khalaasar Dothraki.
Quando o dia amanheceu ela pode ver o acampamento surgindo no horizonte abaixo do monte em que eles se encontravam naquele momento, eles ainda estavam no Mar Dothraki, e a cada segundo em que se aproximavam ele ficava maior e maior, muito mais do que ela se lembrava do Khalaasar de Drogo que tinha 40.000 homens sem contar os idosos, mulheres e crianças. O que ela vi em comparação era duas talvez três vezes o Khalaasar de seu falecido marido.
Dany franziu o cenho ao ver os campos perto do rio a alguns quilômetros do acampamento. Alguns pareciam arados e outros cheios de plantações?... Os Dothraki não cultivavam, essa era a razão para eles saquearem as cidades em primeiro lugar, eles sempre roubaram comida, esse era o jeito Dothraki... Pelo que ela sabia aquele povo viveu assim por 400 anos.
E então eles alcançaram o acampamento...Estava claro naquele instante que tinha muita diferença entre os Dotrhaki que conheceu em seu passado e aquelas pessoas...
A primeira coisa que ela notou foi a ausência de escravos... Sempre foi algo que a incomodava imensamente, em todo lugar que os Dothraki se encontravam no passado, eles estavam cercado por milhares escravos por todos os lados, não importava onde, se nos acampamentos ou em sua cidade sagrada, ela se lembrou de Sor Jorah lhe explicando que aquele era o modo de vida daquele povo, invadindo cidades, saqueando tudo o que podiam e escravizando todos aqueles que não padeceram por suas armas. Mas... não havia um escravo sequer por mais que ela procurasse por todos os lados.
Outra coisa que chamou sua atenção foi que ao longe, numa área aberta um pouco mais alta que o acampamento, Dany pode ver centenas de guerreiros treinando um estilo de cavalgada estranha... Eles formavam uma linha de 15 guerreiros lado a lado e disparavam a toda velocidade em linha reta ainda em formação, até determinado ponto e davam meia volta, retornando ao início da mesma forma, com um estilo de organização e disciplina que lembrava os Imaculados... Porém o que mais chamou sua atenção foi que eles estavam empunhando lanças ao invés dos tão característicos arakhs, eles cavalgavam com as lanças em direção ao chão a frente dos cavalos? Ela podia ver cerca de 30 a 40 grupos de guerreiros fazendo a mesma coisa.
Voltando sua atenção para as pessoas ao seu redor, ela encontrou o mesmo olhar estranho dos guerreiros no dia anterior, mas era muito mais explícito nas mulheres e crianças... Ela já tinha visto aquele olha antes, em cada escravo que ela libertou, era admiração, respeito, confiança, amor e ainda adoração e ela entendia o porquê dos libertos olharam para ela daquela maneira, entretanto o povo Dothraki olhar para ela daquele modo não fazia sentido algum, não quando ela conheceu o olhar daquele povo antes... Drogo poderia ter algum tipo de fascinação por ela e sua aparência mas o restante de seu Khalaasar a considerava uma estrangeira, sempre com olhos julgadores, acusadores, desconfiados e cheios de desprezo...
Mas naquele momento, eles lhe olhavam como se confiassem suas vidas a ela sem pensar duas vezes...
"(Chegamos.)" Bako disse quando eles pararam na entrada da maior tenda do acampamento interrompendo suas divagações interiores e somente naquele momento ela percebeu que eram só eles dois e os cavalos ali. "(Espere aqui.)"
Ela assentiu e esperou quando o homem entrou na tenda, olhando ao redor ainda abismada com todas aquelas diferenças.
"(Filha da lua?)"
Uma voz infantil soou atrás dela e ao se virar, encontrou uma menina de 5 talvez 6, com aparência típica daquele povo, um pouco tímida mas com aquele olhar como se ela fosse algum tipo de divindade... Era de certo modo opressor.
"(Filha da lua?)" A garotinha disse de novo e ela lhe lançou um olhar interrogativo se perguntando o que aquilo deveria supostamente significar.
Ela estava prestes a responder mas escutou algum movimento atrás de si e observou um sorriso aberto aparecer no rosto da menina quando ela viu o que quer que estivesse atrás dela.
"Daenerys?" Ela sabia exatamente a quem pertencia aquela voz antes mesmo dela se virar.
Ali estava ele, seu único parente vivo que aparentemente era mesmo um Khal Dothraki e do maior Khalaasar que ela já viu e pelo sorriso genuíno em seus lábios, ele estava feliz por vê-la novamente e aquilo de certa forma aqueceu seu coração.
"Jae!" A menina gritou e correu para ele, se lançando em seus braços. "(Ela é a filha da lua?)"
"(Oi Mara.)" Seu sobrinho riu de seu entusiasmo. "(Eu não sei, o que você acha? Ela parece filha da lua?)" a menina rolou os olhos e desceu de seus braços.
"(Sim, ela é igual você.)" Exclamou o óbvio sem entender que seu sobrinho estava brincando com ela, Dany só não entendia a parte de 'filha da lua'.
"(Eu acho que você está certa então.)" Mara arregalou os olhos antes de sorrir e saiu correndo até um grupo de crianças mais ao longe que olhavam para ela e o outro Targaryen com curiosidade. "Daenerys, é bom ver você de novo." Ele a cumprimentou atraindo sua atenção. "Acredito que você tem algumas dúvidas." Dany levantou uma sobrancelha como se dissesse 'você acha?' e ele riu levemente. "Por favor, vamos entrar e responderei a todas as suas perguntas."
Ela assentiu e ele a guiou para dentro da tenda, encontrando uma grande cama com cobertas e peles claras com um baú em sua frente, uma espécie de banheira grande o suficiente para duas pessoas em outro canto, cheia e ela supôs que ainda estava muito quente pelo vapor que saia da banheira, e ali mais perto da entrada, uma mesa de seis cadeiras com o café da manhã servido com uma variedade de bolos, vinhos e carnes e foi para a mesma mesa que seu sobrinho a guiou e puxou a cadeira na cabeceira para ela se sentar antes de assumir o lugar ao seu lado.
"Bako me informou que vocês passaram toda a noite cavalgando, acreditou que esteja com fome, por favor fique à vontade." Dany assentiu novamente e alcançou um copo de vinho e um pedaço de bolo que aparentava estar apetitoso enquanto o rapaz se serviu de um pedaço de carne. "Pode pegar a carne também, te garanto que nenhuma delas é carne de cavalo." Disse com uma careta.
Ela se esqueceu que seu sobrinho estranhamente simplesmente sabia das coisas e principalmente, coisas a respeito dela sem a necessidade que ela as compartilhasse, como por exemplo o que havia acabado de acontecer, como ele sabia que ela não gostava de carne de cavalo? Ela se sentiu tentada a perguntar mas no momento ela tinha outras questões mais importantes em mente. Depois de alguns minutos comendo em silêncio ela limpou a garganta atraindo sua atenção.
"Vá em frente, faça suas perguntas." Ele a incentivou.
"Você nunca me disse que era um Khal Dothraki." Começou por sua dúvida principal e ele riu levemente.
"Bom, você nunca me perguntou." Ela rolou os olhos.
Aquela seria uma longa conversa...
"Ok, como você se tornou um Khal?" ele desviou o olhar por um instante pensativo.
"Acho que devo começar dizendo que eu preciso deles."
"Pelo o que eu me lembro você não tinha interesse no trono de ferro ou em governar." Acusou com uma sobrancelha arqueada.
"E eu disse a verdade, eu preciso deles para outra coisa."
"E o que seria isso?" Ele suspirou apertando a ponta do nariz enquanto pensava.
"Honestamente, você não acreditaria em mim se eu te dissesse, eu mesmo não acredito as vezes." Ele murmurou balançando a cabeça. "Mas não se preocupe que não tem nada que envolva aquele trono horroroso, eu te asseguro isso." Ele disse com uma careta como se a simples hipótese de chegar perto do Trono de ferro fosse a pior coisa do mundo. "Minha palavra continua a mesma, não tenho interesse em governar, eu realmente não nasci para isso, não sou capaz de cuidar nem de mim mesmo que dirá de outros, além disso eu continuo achando que a política e os jogos de manipulações, falsidades e bajulações que compõem esse meio, nojentos e abomináveis e não desejo contaminar minha alma me envolvendo com isso."
Ele falava sobre aquilo parecendo ter tanto conhecimento de causa que ela suspeito que ele já esteve envolvido com governar e lidar com a política que ele tanto condenava... Sem contar que mesmo não parecendo que ele falava dela explicitamente, Dany sentiu que talvez seu sobrinho também a julgasse daquela maneira porque afinal, era nesse meio que ela se envolvia mais e mais a cada ano e buscava fazer parte completamente. Era de certo modo opressor saber que Jaehaerys não era a favor de suas escolhas de vida.
"Você não vai me contar o porquê precisa dos Dothraki?" Ela perguntou frustrada.
"Realmente faz diferença pra você?" O rapaz disse como se a estivesse avaliando. "Quero dizer, eu já deixei claro que não tem nada a ver com o Trono de Ferro, Westeros é o último lugar em que eu colocaria meus pés, então não represento nenhuma ameaça a sua busca pelo trono, por que você quer tanto saber?"
"Eu..." Ela parou com uma carranca irritada por não saber a reposta para a pergunta dele e sua relutância em responder. "É tão difícil pra você responder?" Ele suspirou também parecendo um pouco irritado.
"Eu já vi que não vamos a lugar algum com essa discussão sem sentido." Ele pegou sua taça e a encheu com vinho novamente. "Eu sei que você está aqui porque Drogon está ferido demais para te levar de volta para Meereen, por causa do ataque das harpias no fosso de combate." Não era possível que ele já soubesse disso e com tantos detalhes, ainda mais sobre o estado de Drogon sendo que só ela viu como ele se encontrava. "Posso pedir a Bako para juntar alguns homens e te levar de volta, se você desejar, os deuses sabem que eles fariam qualquer coisa por você, afinal você também é uma filha da lua." Eu murmurou sarcástico e balançou a cabeça rindo sem humor e ela franziu o cenho, era a terceira vez que aquilo era usado para se referir a ela sem que ela entendesse o significado.
"O que 'Filha da Lua' significa?"
"Alguns anos atrás depois da morte de Khal Drogo algumas das viúvas do Dosh Khaleen tiveram uma visão e começaram a espalhar uma profecia entre os o povo Dothraki." Sua voz era monótona como se aquilo não tivesse nenhuma importância. "Segundo a profecia delas, o Deus Cavalo enviou dois 'filhos da lua'..." Ele fez aspas com os dedos. "Especificamente, um homem e uma mulher, para salva-los da morte e destruição." Ele bufou e rolou os olhos. "Elas também disseram que eles teriam cabelos da cor da lua e montariam bestas maiores que elefantes." Ela arregalou os olhos com aquilo, claramente a profecia falava a respeito deles e aparentemente todo o povo acreditava naquilo, somente pelos olhares que viu em todos eles, ela poderia disse isso. "Foi assim que eu me tornei um Khal Dothraki, eu estava passando no meio do Khalassar de Khal Moro, já que eles estavam no caminho de Volantis, cerca de dois anos depois que essa besteira começou a circular entre eles e por mais absurdo que pareça, o vento tirou o meu capuz e assim que viram o meu cabelo, começaram a me chamar de Filho da Lua sem parar." Ele bebeu um pouco do vinho na taça antes de continuar. "Eu realmente tentei me livrar deles mas eles me levaram até Vaes Dothrak e me apresentaram as viúvas do Dosh Khaleen que confirmaram que eu era um dos 'Filhos da Lua', estranhamente na época outros seis Kalassares estavam na cidade também e todos os Khals, juntamente com Khal Moro, desistiram de seus postos e me declararam o único Khal entre eles."
"Você não acredita na profecia." Ela disse como uma afirmação e não uma pergunta.
"Não, essa besteira parece só mais uma versão de outras profecias que os servos do Senhor da Luz pregam por aí." O homem ainda parecia entediado. "Você se lembra que eu disse morei nas ruas até uma sacerdotisa vermelha me encontrar?" Ela assentiu. "Ela também tem uma profecia dessas."
"Eu me lembro que você disse algo sobre heróis renascidos ou algo assim." Ele sorriu satisfeito com isso.
"Sim, é basicamente mais do mesmo." Ele abanou o ar com desdém. "Segundo Kinvara, a sacerdotisa vermelha que me encontrou, o Senhor da Luz mostrou a ela nas chamas, muitos anos antes de nós dois nascermos, que eu e você somos o príncipe e princesa que foram prometidos em uma profecia de mais de 8.000 anos atrás." Mais uma vez ela arregalou os olhos. "Segundo ela nós dois junto somos o renascimento de um herói chamado Azor Ahai, você deve conhecer as histórias sobre isso."
"Sim, as histórias dizem que ele tentou forjar uma espada perfeita, durante cem dias, para matar alguma coisa e que em sua última tentativa ele cravou a espada no coração de sua esposa, e assim a espada era capaz de se incendiar sozinha, ou algo assim." Dany comentou pensativa, se lembrando da vez que Viserys lhe contou aquela história quando eles eram crianças.
"Esse mesmo, a profecia fala que ele não conseguiu vencer a tal guerra mas que ele voltaria para enfrentar o que quer que ele estivesse lutando..." Ele parou com uma expressão concentrada. "Eu realmente não me atentei ao detalhes, de qualquer forma, nós dois supostamente devemos lutar contra esse inimigo dele." Deu de ombros. "Também existe outra profecia como essa na história da nossa própria casa."
"Sério?" Ela realmente parecia ainda mais surpresa e estranhamente animada com aquilo.
"Sim, como eu estou te dizendo é somente outra versão da mesma bobagem." Jaehaerys disse ainda entediado olhando para o líquido carmesim em sua taça. "Eu encontrei um livro valiriano raro e extremamente velho no Templo do Senhor da Luz em Volantis, admito que fiquei curioso e comecei a ler, a maioria do que estava escrito ali não tinha o menor sentido para mim por conta do valiriano ser muito antigo, mas consegui entender que existia um suposto herói que foi um dos fundadores de Valíria, que eu suspeito ser o mesmo Azor Ahai só que com outro nome..." Ele parou tentando se recordar. "Acho que era Eldric, O Caçador de Sombras. Pelo que eu entendi esse herói que não cumpriu o seu dever e um dia retornaria." Ele olhou para ela com a sobrancelha arqueada como se acabasse de provar um ponto. "A partir daí fica muito confuso, por que tem horas que parecia falar de duas pessoas e outras de somente uma, Kinvara me contou que antes daquele livro chegar até ela, ele esteve em posse de Jaehaerys Targaryen, seu avô e meu bisavô, e que uma bruxa de Asshai lhe disse que esse herói nasceria da linhagem do Príncipe Aerys e da Princesa Rhaella, por isso ele os forçou a se casarem."
"E mesmo com todas essas profecias você ainda não acredita?" Ela não conseguia entender o porquê dele continuar negando aquilo.
"Ela podem ser muito bem verdadeiras." Ele parou e sorriu sem humor. "A parte sobre os cabelos banhados pela lua da profecia das viúvas, realmente é criativa, admito, mas eu prefiro me manter no que eu acredito e faz sentido para mim, ao invés de ficar inflando o meu ego com essas bobagens que no fim do dia não significam muita coisa de qualquer modo.
"Ainda assim, isso não explica por que você precisa dos Dothraki."
"Se você quer tanto saber, eu vou fazer melhor, eu vou te mostrar, mas não é só isso que vou te mostrar, te digo logo, você vai ver tudo e te asseguro que não é bonito." Seu sobrinho disse sério e tenso.
"Tudo o quê?"
"Essa noite você saberá." Ele disse se levantando. "Por favor, tire o dia para descansar, vou pedir para alguém vir lhe auxiliar com o que precisar e trazer roupas para você, assim que o sol se pôr, iremos para um lugar onde você saberá da verdade, acho que você merece saber." Finalizou e saiu a deixando ali perdida em pensamentos.