Nas semanas seguintes, eu atravesso o globo, de Bogotá a Budapeste e a Bali, ajudando homens e mulheres e crianças fadados a futuros de mediocridade, opressão e péssimos cortes de cabelos. Vá, tire sarro se quiser. Mas você não tem idéia do impacto que um mau corte de cabelo tem no futuro de uma pessoa.
Não tenho de aparecer em carne e osso para ajudar a maioria deles e não tenho de ficar repetindo a materialização ao ar livre que usei com Amanda Drake ou Darren Stafford. Não é uma boa idéia ter muitos humanos falando a respeito de um anjo da guarda que aparece na sua frente. Antes que você possa se dar conta, minha fotografia estaria estampada em todos os jornais e na mídia eletrônica e eu estaria sendo agendado para participar de entrevistas nos programas de Larry King e Oprah, o que, de fato, iria deixar Jerry bem puto. A Oprah nunca o convidou para seu programa.
Em algumas ocasiões, de qualquer forma, sou forçado a interagir com meus humanos como se fosse um deles, oferecendo palavras de encorajamento ou amigáveis sugestões ou às vezes um tapinha na parte de trás da cabeça. O que realmente não funcionou muito bem com aquele marido abusivo de Munique. E isso explica por que tive de chamar Engenhosidade, de novo, para consertar meu rosto.
Ainda estou pegando o jeito da coisa.
Se você passou a maior parte das últimas centenas de anos ficando farto e amargurado entre criaturas inferiores que assiduamente insistem cm agir como bundonas, mudar sua atitude em relação a elas não é algo que acontece da noite para o dia. Mas estou tentando trabalhar com meus humanos, ensinando-os a como reconduzir suas vidas aos trilhos para que fiquem felizes, o que, em contrapartida, também me deixa feliz. Acho que estou começando a entendê-los um pouco melhor, embora ainda esteja um pouco aquém da curva desejável quando se trata de Sara. Realmente, ainda não estou mais próximo de compreender seu destino do que estava antes. Na verdade, sinto como se estivesse mais longe ainda de encontrar as respostas. É como se, por ficar mais próximo dela, eu perdesse a capacidade de ver as coisas com clareza.
— Bom dia — diz Sara, recostada de lado, olhando para mim de seu travesseiro.
É domingo de manhã e estamos no quarto dela, o qual tem uma conformação semelhante à do meu, mas é muito mais quente e convidativo. Paredes de um vermelho intenso. Cama de tons de terra. Nenhum espelho no teto. — Sabe que você nunca acorda com uma sombra? — ela comenta. — O quê? — pergunto, pensando que seja o começo de algum tipo de conversa filosófica sobre arquétipos e psicologia junguiana.
— Uma sombra — ela diz. — A barba dos homens continua a crescer durante a noite, então, mesmo que se barbeiem antes de dormir, eles acordam com uma sombra. — Sara passa levemente os dedos no meu rosto. — Sua pele está tão lisinha como antes de pegar no sono.
Esse é outro problema de namorar uma mulher mortal. Ela percebe coisas a meu respeito que ninguém mais notaria. Como o fato de que eu não tenho nenhum cheiro corporal.
outra.
Ou que eu nunca tenho de cortar as unhas. Ou que não preciso me barbear.
— Fiz depilação a laser — digo, porque é a única resposta que me ocorre. — Isso é ruim — ela fala. — Eu gosto de uma aparência selvagem, vez ou
Anotação pessoal: tenho de pedir a Engenhosidade que me instale alguns folículos faciais.
— Então, o que você queria ser quando criança? — Sara pergunta, des- lizando o dedo pelo meu peito. —Eu? — digo.
— Não — ela ironiza. — O outro sujeito com quem estou dormindo. — Por que você quer saber como eu era quando criança? — pergunto. — Apenas curiosidade — ela diz, seu longo, delicado dedo circulando ao redor de meu umbigo. Se eu tivesse sido um menino, aquilo que ela estava fazendo me deixaria esquecer tudo sobre subir em árvores e jogar bola. Então, seu dedo começa a traçar outra parte de minha anatomia. — Queria determinar as sinas de todos os seres humanos do planeta — deixo escapar.
— Sério? — ela diz, sua mão deslizando para trás, em minha cintura, enquanto ela apoia o queixo em meu peito e me olha. — Isso não é muita ambição para um moleque?
Simplesmente encolho os ombros. Não há necessidade de dizer a ela que Ambição é uma mulher.
— Então, muito bem — ela diz, jogando uma perna sobre minhas cadeiras e subindo em cima de mim, seus lábios contra meus ouvidos. — Se você está tão interessado nas sinas das pessoas por que não começa com a minha?
Meia hora depois, estamos na cozinha usando roupões, tomando café e comendo restos de macarrão da rede Nick's. Sara come desse jeito todo o tempo. Jamais cozinha. Nem sequer se importa em esquentar as sobras no forno, servindo-se diretamente das caixinhas ou recipientes originais - comida chinesa, macarrão, omeletes. Até mesmo sopa. Ela não tem pratos, o que explica o fato de eu estar comendo espaguete a marinara com almôndegas em uma caneca para viagem da Starbucks.
— Então, o que é que você queria ser quando crescesse? — pergunto. Estou tentando entender Sara, na esperança de que ela revele algo que acenda alguma luz sobre seu destino. E me dê um lampejo de seu futuro.
— Quando eu era pequena, queria ser uma cigana.
— Uma cigana? — repito, não muito seguro de como aquilo poderia me ajudar.
— Eu queria vagar pelos campos, encenando para as pessoas — ela diz. — Queria entretê-las e fazer com que dessem risada e vender a elas garrafas de água que elas pensariam ser de poções mágicas.
— Então, você queria fazer as pessoas de bobas — eu comento. — Depois, quis ser uma freira — ela conta. — Por que uma freira?
— Acho que para compensar o fato de querer ter sido uma cigana. Faz sentido.
— Depois eu quis ser uma vaqueira, uma estrela do rock, uma dentista, uma dondoca, uma barista, uma puta, uma cantora de bar, uma passeadora de cães, uma líder de torcida, uma trapezista, uma motorista de táxi, uma paleontologista e uma caçadora de recompensas.
Demais para aprender algo sobre Sara através de seu passado. — Por que você entrou no ramo de imóveis? — perguntei.
— Acho que foi por acaso... tropecei nisso — ela admite. — Mas há algo de gratificante no ato de ajudar alguém a encontrar um lugar que possa chamar de lar. É como auxiliar as pessoas a realizar seus sonhos. Muito bem, agora estamos chegando a algum lugar. Com certeza, somente o fato de Sara possuir certas qualidades nobres não explica por que as pessoas têm aquele tipo de reação diante dela. Seu efeito não é necessariamente um reflexo do que ela é, mas do que está destinada a se tornar.
É ao mesmo tempo excitante e desconcertante estar assim tão perto dela e ainda não ter idéia de quem ela é ou para onde está se dirigindo. Quando você está acostumado a ler o futuro de oitenta e três por cento da população do mundo e sabe como as coisas vão se desenrolar, leva um pouco de tempo para se acostumar a não ser capaz de ler a pessoa por quem está apaixonado. Ela é como uma tela de televisão em branco. Tudo o que consigo ver é um reflexo opaco do presente.
Acho que eu deveria estar preocupado com o fato de Destino ter conhecimento de meu interesse por Sara, considerando que agora sou culpado de várias acusações de interferência. Quando muito, alterei de propósito as sinas de mais de duzentos mortais. Não é exatamente um número significativo no grande cenário cósmico, e a maioria deles apenas voltou a seus caminhos originais, mas quando você calcula o impacto que esses mais ou menos duzentos humanos terão em outros com que entram em contato, os números podem, presumivelmente, aumentar de maneira exponencial. Como uma espécie de praga, eu só estou espalhando a esperança em vez da doença.
Mas estou nas alturas com essa coisa de ajudar as pessoas. Eu me sinto revigorado. Inviolável. Invencível. O que não é lá uma grande coisa, considerando-se que sou imortal. Além do mais, não vejo Destino há mais de um mês. Talvez ela tenha me esquecido e decidiu deixar que eu me divertisse. — Você acredita em destino — Sara pergunta.
Sentir espaguete e almôndegas querendo sair pelo seu nariz não é tão divertido como possa parecer.
— Destino? — eu digo, tossindo.
— Você sabe, a trajetória inevitável que determina sua vida.
— Isso é o fado — eu corrijo, removendo um pedaço de almôndega
— É mesmo? — ela pergunta. — Tem certeza disso? — Absoluta.
— Então o que é destino?
Explico a diferença para ela, sem entrar em detalhes muito técnicos ou retratar destino como uma puta, o que não é fácil.
— Trata-se, principalmente, de uma questão de escolha — eu digo. — Com o fado não existe nenhuma. Seu futuro é determinado por uma força que é alheia à sua escolha. Com o destino, você está mais envolvida no processo de tomar a decisão.
— Então, o destino é melhor — ela conclui.
— Bem, eu não iria tão longe a ponto de dizer isso... — E o fado é foda.
Essa conversa não está indo para uma direção favorável a mim.
— O fado é apenas mal compreendido — justifico. O que não é intei- ramente correto. Eu realmente sou foda. Mas estou trabalhando para mudar isso.
— Por que você quer saber se eu acredito em destino? — digo, tentando afastar a conversa dos meus defeitos.
— Não sei — ela diz, pegando um pedaço de pizza e falando com a boca cheia. — Eu apenas tenho essa sensação de que você e eu estávamos destinados a nos encontrar.
Embora esse seja um pensamento atraente, não é provável. Imortais não podem invadir os radares uns dos outros. E definitivamente não podemos aparecer nos caminhos dos mortais.
— E eu fiquei amiga dessa mulher que conheci no Central Park e co- meçamos a conversar sobre fado e destino — conta Sara.— Eu acho que ela meio que ficou impressionada comigo.
— Mulher? — pergunto, curioso. — Que mulher?
— O nome dela é Dalila — informa Sara. — Uma ruiva estonteante. Cor- po fantástico. Guarda-roupa monocromático. Vive no SoHo. Vamos almoçar juntas na semana que vem.
Não admira que eu não tenha visto Destino com freqüência ultimamente. Ela tem andado por aí com a minha namorada enquanto eu estou dando um jeito nas sinas dos viciados em drogas, professores fracassados e políticos profissionais.
Destino está quebrando a Regra #1. Não que eu possa... olha quem está falando...
— O que mais ela disse? — perguntei.
Aparentemente, Destino anda exaltando as virtudes do feminismo, o poder do celibato, os benefícios da autogratificação. Eu quase posso ouvir sua risada gutural e subitamente me pergunto se ela não estará nos observando agora mesmo.
A maior parte do tempo, quando Destino está nas proximidades, eu posso senti-la. Somos uma espécie de gêmeos idênticos, exceto pelo fato de não sermos nada parecidos e que ocasionalmente fazemos sexo. Mas Sara me distrai tanto que é possível que eu não tenha percebido Destino nos observando.
Sinto um calafrio de indignação e dou uma olhada pelo apartamento de Sara, procurando alguma coisa vermelha situada visivelmente fora do lugar, mas tudo o que enxergo são tons de terra. O quarto de Sara, por outro lado, tem mais vermelho do que os olhos de Vício.
— De qualquer forma, como você sabe tanto sobre fado e destino? — Sara pergunta.
— Apenas um hobby — digo, levantando-me e andando em direção ao quarto.
— Hobby esquisito — ela comenta.
Paro na entrada do quarto, olho ao redor, sabendo que Destino não está ali, mas incapaz de me livrar da sensação de que ela está nas proximidades me vigiando. Ou talvez eu esteja paranóico. De qualquer forma, estendo meus dois dedos médios, levanto os braços e gesticulo enfaticamente, depois ponho a língua bem para fora e solto um consistente ruído de peido com a boca. — O que você está fazendo? — Sara pergunta, da cozinha.
— Nada — eu digo, voltando para ela. — Apenas procurando Destino.
— Bem, então você está olhando no lugar errado — ela afirma, se inclinando sobre a mesa da cozinha, seu roupão parcialmente aberto, revelando uma parte de seu seio esquerdo.
— O destino está esperando por você aqui mesmo.
Tenho de admitir, Sara parece muito tentadora parcialmente nua entre uma variedade de recipientes descartáveis e canecas de plástico. Mas Destino colocou um obstáculo maior do que eu posso imaginar em minha contínua procura de felicidade com Sara, o que significa que vou precisar de certa ajuda. Sei que Preguiça e Gula estariam mais do que inclinados a oferecer seus serviços, mas o que tenho em mente não é exatamente uma dupla dessas, formada por um glutão com intolerância à lactose e um maconheiro narcoléptico.
Não posso acreditar que estou prestes a dizer isso, mas... — Não posso — digo.— Tenho de ir trabalhar.
— Mas é domingo — retruca Sara, com a decepção nublando seu rosto e fazendo com que eu me sinta com Culpa. — Eu pensei que a gente ia passar o dia junto.
— Eu sei — digo. — Mas tenho de encontrar com um cliente, para falar sobre futuros, no cenário internacional.
Embora não seja verdade, não é também uma mentira deslavada. Mas não posso dizer a Sara que estou deixando o país para rastrear Morte.
Ela se afasta da mesa, sem se preocupar em fechar o roupão, e desliza com minha direção.
— Tem certeza de que não pode ligar dizendo que está doente? — pergunta, pressionando seu corpo contra o meu.
Tento pensar em beisebol ou em um animal atropelado ou em Átila, o Huno, de tanga. Qualquer coisa que possa tirar minha mente do corpo quente e nu, de Sara.
— Quem dera eu pudesse — digo. — Mas tenho de ir.
— Quando você vai voltar? — ela pergunta, colocando seus braços em volta de mim e me abraçando forte, sua respiração fazendo cócegas no meu ouvido.
— Assim que for possível — digo. E isso não é mentira.
Ela se afasta e olha para mim, seu rosto é um requintado trabalho de arte que posso imaginar perfeitamente, em detalhes, quando fecho meus olhos.
-Promete vir me seguir mais tarde? — ela quer saber. Como se eu tivesse de prometer.