Ela sentia seu corpo leve, mas forte, e sua mente descansada. Quando o carro pegou na primeira tentativa, viu aquilo como um bom presságio, e o controle de temperatura ficou estável em agradáveis vinte e dois graus.
Ela se sentia preparada para encarar o comandante e convencê-lo de que tinha um caso nas mãos para investigar.
Então, chegou à esquina da Quinta Avenida com a Rua Quarenta e Sete e caiu em um engarrafamento. O tráfego de terra estava parado, os veículos aéreos ficavam circulando como urubus e ninguém estava dando a mínima para as leis contra poluição sonora. Buzinas, gritos, xingamentos e urros subiam pelo ar e ecoavam. No instante em que ela parou, seu controle de temperatura subiu direto para a marca dos trinta e cinco graus.
Clarke saltou do carro enfurecida e se enfiou na confusão.
As carrocinhas com comestíveis tiravam vantagem da situação, e deslizavam através e sobre o nó que se formara, fazendo grandes negócios com a venda de pedaços de fruta congelada e café. Ela não se deu ao trabalho de exibir o distintivo para um dos vendedores ambulantes para lembrá-lo de que vendas fora da calçada não eram permitidas por lei. Em vez disso, chegou junto de um deles, comprou uma lata de Pepsi e perguntou que diabos estava acontecendo.
— É uma passeata de partidários da Família Livre. — Com os olhos correndo de um lado para outro em busca de mais clientes, ele enfiou as fichas de crédito em um recipiente próprio. — Estão protestando contra a cultura do consumo em excesso. Centenas deles estão espalhados ao longo da Quinta Avenida, como uma fita comprida. Estão cantando. Quer um brioche de trigo para acompanhar a Pepsi? Estão fresquinhos.
— Não.
— Vou ficar aqui por mais um tempinho — avisou ele, enquanto entrava em sua carrocinha para circular pelo tráfego parado.
— Filho-da-mãe... — Clarke avaliou o cenário. Estava bloqueada por todos os lados, por veículos que tentavam passar. Parecia que sinos badalavam em seus ouvidos, e o calor dentro do carro transformava-o em uma fornalha.
Entrou novamente no veículo, deu um soco no painel de controle e conseguiu que a temperatura baixasse de repente até o nível de refrescantes quinze graus. Acima dela, um dirigível para turistas passava lentamente. Cheio de gente com os olhos arregalados.
Mesmo sem levar muita fé no seu carro, Clarke apertou o botão para colocá-lo na vertical e ligou a sirene. O barulho era alto, mas não era páreo para a cacofonia de ruídos. Mesmo assim, ela conseguiu subir, aos trancos e barrancos. Suas rodas deixaram de atingir o teto do carro da frente por centímetros, mas continuou, tossindo e engasgando, a caminho dos céus.
— Sua próxima parada vai ser em uma pilha de lixo para reciclagem, eu juro! — resmungou ela para o carro, enquanto ligava o comunicador. — Peabody, que diabos está acontecendo?
— Senhora... — Peabody apareceu na tela, com os olhos imperturbáveis e os lábios sem expressão. — Imagino que a senhora já notou o engarrafamento provocado pelo protesto na Quinta Avenida.
— Esse protesto não foi anunciado. Sei muito bem que esta passeata não estava nos avisos da polícia para esta manhã. Eles não podem ter conseguido uma autorização para sair.
— Os partidários da Família Livre não pedem autorizações, senhora — e pigarreou enquanto Clarke rugia. — Sugiro que a senhora vá para oeste, pois terá melhor sorte vindo pela Sétima Avenida. O tráfego está pesado por lá, mas está se movendo. Se der uma olhada no sistema que informa o fluxo de carros no seu painel...
— Tá... Como se isto estivesse funcionando nessa lata velha. Ligue para o setor de manutenção e avise-os que vou fazer picadinho deles. Depois, entre em contato com o comandante e avise que talvez eu me atrase um pouco para a reunião com ele. — Enquanto falava, Clarke lutava quase corpo a corpo com o carro, que dava mergulhos repentinos e fazia com que pedestres e outros motoristas olhassem para cima, apavorados. — Diga-lhe que, se eu não despencar em cima de alguém, devo chegar aí daqui a vinte minutos.
Ela evitou, por pouco, a colisão com a ponta de um cartaz holográfico que apregoava as delícias de um avião particular. Ela e o Jet Star seguiram em direções opostas, com diferentes graus de sucesso. Clarke bateu no meio-fio ao aterrissar na Sétima Avenida, e deu razão ao executivo engravatado que acionou os skates aéreos antes de ser atingido por ela, e ficou lhe atirando um monte de desaforos.
Mas eu nem cheguei a encostar nele, ou encostei?, perguntou-se.
Estava aproveitando o momento de alívio para dar uma respirada quando seu comunicador avisou, com som estridente:
— Todas as unidades! Todas as unidades! Sigam para a Sétima Avenida, terraço do Edifício Tattler, na esquina com a Rua Quarenta e Dois. Código 1217! Atendam ao chamado de imediato! Mulher ainda não identificada, pode estar armada!
Código 1217, pensou Clarke . Ameaça de suicídio. Mas que diabos estava acontecendo?
— Emergência, aqui fala a tenente Clarke Griffin. Meu tempo estimado para chegada ao local é de cinco minutos.
Tornando a ligar a sirene, ela acionou a marcha de posição vertical do carro, mais uma vez.
O Edifício Tattler, sede do tablóide mais popular do país, era muito brilhante e novo. Os prédios que ficavam naquele lugar haviam sido arrasados nos anos 30 do século vinte e um pelo Programa de Embelezamento Urbano, que era apenas um eufemismo para a deterioração total da infra-estrutura e o frenesi de obras que foram a praga da cidade de Nova York durante aquele período.
Ele se elevava como uma lança prateada de aço, era circundado por passarelas aéreas e passagens deslizantes e rebrilhava como o restaurante ao ar livre que se espalhava em volta, na calçada.
Clarke estacionou em fila dupla, pegou seu kit de trabalho e foi forçando a passagem entre a multidão que se acotovelava na calçada. Ao exibir o distintivo para o guarda de segurança, notou que ele soltou o ar, aliviado.
— Graças a Deus! Ela está lá em cima, mantendo todos a distância com um spray antiassalto. Atingiu Bill bem nos olhos quando ele tentou agarrá-la.
— Quem é ela? — quis saber Clarke , enquanto andava a passos largos em direção ao hall dos elevadores internos.
— Cerise Devane. Ela é a dona dessa porcaria de lugar!
— Devane? — Clarke a conhecia vagamente. Cerise Devane, presidente da Tattler Enterprises, uma daquelas pessoas privilegiadas e influentes que freqüentavam os mesmos círculos sociais de Lexa .
— Quer dizer que Cerise Devane está no terraço do prédio, ameaçando saltar? Que significa isso, algum tipo de golpe publicitário para aumentar as vendas do jornal dela?
— Para mim, parece bem real — e soprou o ar das bochechas.
— Ela está peladona, ainda por cima. Isso é tudo o que eu sei — explicou o guarda enquanto o elevador subia. — Foi o assistente dela que deu o alarme. Frank Rabbit é o seu nome. A senhora pode conseguir mais informações com ele, se já tiver recobrado a consciência. O cara teve um chilique e desmaiou quando ela pulou a mureta e ficou do lado de fora do prédio, sobre a saliência. Foi o que ouvi falar.
— Já chamaram um psiquiatra?
— Alguém chamou o psiquiatra da empresa. Ele está lá em cima agora, e um especialista em tentativas de suicídio já está a caminho. Os bombeiros estão chegando... e o resgate aéreo também já foi chamado. O problema é que está tudo parado. Tem um engarrafamento-monstro na Quinta Avenida.
— É... Eu que o diga...
As portas se abriram no terraço e Clarke deu de cara com uma brisa leve e refrescante que não conseguira penetrar pelas paredes de edifícios gigantescos que desciam até os vales profundos representados pelas ruas. Deu uma olhada em toda a volta.
A sala de Cerise estava instalada no terraço. Bem no meio dele, para usar de precisão. Paredes inclinadas, todas de vidro tratado, formavam uma espécie de pináculo de cristal que permitia à presidente da companhia uma visão de trezentos e sessenta graus da cidade e das pessoas que ela adorava expor em seu jornal.
Através do vidro, Clarke podia ver os objetos de arte, a decoração e os equipamentos designados para formar um escritório altamente sofisticado. Sobre o sofá em forma de "U", um homem estava estirado, com uma compressa sobre a testa.
— Se aquele é Frank Rabbit, diga a ele para se recompor e vir até aqui fora, a fim de me informar dos detalhes. E leve qualquer pessoa que não seja essencial para fora deste terraço. E mande abrir um espaço na calçada entulhada de gente. Se ela pular, não precisa esmagar os manés que estão olhando pra cima.
— Não tenho homens em quantidade suficiente para isso — começou o guarda.
— Traga Rabbit até aqui, agora! — repetiu ela, e ligou para a Central de Polícia. — Peabody, aconteceu uma situação imprevista.
— Já soube. Do quê está precisando com mais urgência?
— Venha até aqui, envie uma unidade de dispersão de multidões para afastar todas aquelas pessoas da calçada. Traga todos os dados disponíveis sobre Cerise Devane. Veja se Whittle consegue acessar os dados dos tele-links dela, tanto os pessoais quanto os de casa e os portáteis, nas últimas vinte e quatro horas. E agite isso tudo bem depressa!
— Já fui! — respondeu Peabody, desligando.
Clarke se virou e viu o guarda amparando um homem e trazendo-o na direção dela. Só faltava carregá-lo no colo. A gravata de Rabbit estava afrouxada, seu cabelo estiloso estava todo embolado e espetado. Suas mãos, maravilhosamente bem tratadas, tremiam.
— Diga-me exatamente o que aconteceu! — ordenou ela. — Fale depressa e seja bem claro. Quando acabar de me contar e eu o liberar, pode desmaiar à vontade.
— Ela simplesmente... simplesmente foi para o lado de fora da sala... — Sua voz ficava aguda e perdia o tom a todo momento, e ele se apoiava com força no braço do guarda, que continuava a ampará-lo. — Parecia tão feliz! Estava quase dançando. Ela... Ela arrancara toda a roupa. Tirara tudo!
Clarke levantou uma sobrancelha. No momento, Rabbit parecia mais chocado pelo surto exibicionista de sua chefe do que pela possibilidade de sua morte.
— O que a levou a fazer isso?
— Não sei. Juro, não faço a mínima idéia! Ela mandou que eu chegasse mais cedo hoje, às oito horas. Estava chateada por causa de um dos processos. Somos processados o tempo todo. Ela estava fumando, tomando café sem parar e andando de um lado para outro. De repente, mandou que eu fosse avisar ao Departamento Legal para manter os processos em banho-maria e avisou que ia tirar alguns minutos para relaxar e se recompor.
Parou, cobriu o rosto com as mãos e continuou:
— Quinze minutos depois, ela saiu de sua sala, sorrindo e... e nua! Eu me senti tão atordoado com aquilo que simplesmente fiquei ali, sentado. Simplesmente sentado. — Seus dentes começaram a bater uns contra os outros. — Eu jamais a vira sequer sem os sapatos!
— Estar pelada não é o maior problema dela no momento. — Clarke apontou para fora da mureta. — Ela falou com você, disse alguma coisa?
— Eu... bem, eu estava tão atordoado, entende, que falei alguma coisa do tipo "senhorita Devane, o que está fazendo? Há algo errado?", e ela simplesmente riu. Disse que tudo estava perfeito. Falou que já resolvera todos os problemas e tudo estava maravilhoso. Avisou que ia apenas ficar sentada por alguns minutos na saliência externa e depois ia pular. Achei que ela estava brincando, e fiquei tão nervoso que dei uma risadinha.
Seus olhos pareceram aterrorizados enquanto contava o resto.
— Eu ri, e então vi quando ela foi até a mureta, na ponta do terraço. Meu Deus! Ela simplesmente saltou para fora! Pensei que ela tinha pulado para a morte e corri até lá. Lá estava ela, sentada na saliência do prédio, balançando as pernas e cantarolando. Pedi insistentemente que ela voltasse, antes que perdesse o equilíbrio. Ela apenas riu e jogou um pouco do spray em meus olhos, disse que acabara de encontrar o seu ponto de equilíbrio e me mandou sair dali, como um bom menino.
— Ela recebeu alguma chamada ou ligou para alguém?
— Não. — Ele passou a mão pela boca. — Qualquer chamada para ela passaria pela minha mesa. Ela vai pular, pode ter certeza. Ela se debruçou por completo quando eu estava olhando, quase despencou naquela hora. E disse que seria uma viagem maravilhosa. Ela vai pular...
— Vamos ver... Fique por perto. — Clarke se virou. O psiquiatra da companhia era fácil de reconhecer. Vestia um jaleco branco que ia até os joelhos e usava uma calça preta estreita nos tornozelos. Seus reconfortantes cabelos brancos estavam presos em uma trança bem-feita, e ele estava debruçado na mureta do terraço, com uma postura que transmitia ansiedade.
Enquanto se aproximava dele, Clarke começou a xingar baixinho ao ouvir o barulho dos helicópteros acima dela, e a seguir amaldiçoou a mídia, mais uma vez, ao avistar a primeira van de reportagens aéreas. Canal 75, naturalmente, refletiu. Costia Furst era a primeira a colocar o pé na pista assim que ouvia o tiro de largada.
O psiquiatra se colocou mais ereto e alisou a trancinha para aparecer diante das câmeras. Clarke decidiu que ia detestá-lo.
— Doutor? — ela exibiu-lhe o distintivo e notou a indisfarçável empolgação em seus olhos. Tudo o que Clarke conseguiu pensar foi que uma companhia com o tamanho e a força da Tattler deveria ter condições de contratar um profissional melhor.
— Tenente, acredito que estou conseguindo alguns progressos com a paciente.
— Mas ela ainda está na saliência do prédio, não está? — apontou Clarke , e ficou ao lado dele, debruçando-se também. — Cerise? — chamou ela.
— Mais companhia?
Magra e bonita, com uma pele que tinha um tom rosado e pernas bem-torneadas que balançavam alegremente, Cerise olhou para cima. Seus cabelos eram pretos como carvão, com ondulações bem-cuidadas que tremulavam na brisa. Tinha um rosto astuto, inteligente e penetrantes olhos verdes. Só que, naquele momento, os olhos pareciam distantes e sonhadores.
— Ora... Você é a Clarke , não é? Clarke Griffin, a famosa noiva. Seu casamento foi lindo, por sinal. Realmente foi o evento social mais importante do ano. Mobilizamos milhares de unidades para fazer a cobertura.
— Que bom para vocês...
— Sabe de uma coisa, fiquei com os departamentos de busca e pesquisa tentando de mil formas conseguir o itinerário da lua-de-mel de vocês. Acho que só mesmo Lexa teria conseguido fugir tão completamente da mídia — e balançou o dedo indicador como quem está dando uma bronca, de brincadeira, e seus seios joviais balançaram junto. — Vocês deviam ter compartilhado a viagem com a gente, pelo menos um pouquinho. O público estava louco para saber.
Deu uma gargalhada ao dizer isso, resvalou para a frente e quase perdeu o equilíbrio, dizendo:
— Opa... Ainda não... Estamos todos morrendo de vontade de saber... Está muito divertido isso aqui, não quero que acabe tão depressa. — Ajeitando o corpo e ficando com as costas retas, acenou para os helicópteros da mídia. — Normalmente eu odeio o pessoal da mídia em vídeo. Não consigo descobrir por quê, no momento. Amo vocês todos! — gritou, abrindo os braços.
— Que bonito, Cerise! Agora, por que não volta aqui para cima por um minuto? Vou lhe passar algumas informações sobre a lua-de-mel. Com exclusividade.
— Hã-hã... — Cerise fez que não com a cabeça e sorriu de forma astuta. A recusa foi em tom de brincadeira novamente, acompanhada de uma risadinha. — Por que não vem você aqui para fora e se junta a mim? Você pode descer comigo. Pode acreditar, é o máximo!
— Olhe, senhorita Devane — começou o psiquiatra — , todos têm seus momentos de desespero. Eu a compreendo, estou com a senhorita. Sou capaz de ouvir os seus pesares.
— Ah, enfia os meus pesares! — e Cerise desvencilhou-se dele com um gesto. — Estou conversando com Clarke . Venha até aqui, querida, mas não chegue muito perto! — e balançou a lata de spray, dando risadinhas. — Venha fazer parte dessa festa!
— Tenente, eu recomendo que a senhora não...
— Cale a boca e vá procurar a minha assistente! — ordenou-lhe Clarke enquanto passava uma perna por cima da mureta de aço que circundava o terraço e se esticava devagar, até alcançar a saliência.
O vento não parecia assim tão agradável quando a pessoa estava com as pernas balançando a setenta andares da rua, sentada em uma saliência de metal com apenas sessenta centímetros de largura. Ali o ar fustigava-lhe o rosto e formava redemoinhos à sua volta, ajudado pelo efeito das hélices dos helicópteros e vans aéreas. Ele batia nas roupas e chicoteava a pele. Clarke ordenou a seu coração que parasse de pular descompassado e grudou as costas na parede do prédio.
— Não é lindo? — suspirou Cerise. — Eu adoraria poder tomar um pouco de vinho agora; e quanto a você? Não, vinho não... Uma imensa taça de champanhe. Aquela da reserva de Lexa , safra de A7, cairia muito bem no momento.
— Acho que temos uma caixa fechada em casa. Vamos até lá para abri-la.
Cerise riu, virou a cabeça e tornou a dar um sorriso amplo. E foi aquele sorriso, Clarke percebeu, enquanto seu coração voltava a disparar, que ela vira no rosto de um rapaz pendurado em uma forca improvisada.
— Eu já estou bêbada de tanta felicidade! — explicou Cerise.
— Se está tão feliz, por que está sentada nua na saliência estreita de um prédio, pensando em dar o último salto de sua vida?
— Porque é isso que está me deixando feliz! Não sei como é que você não consegue compreender... — Cerise levantou o rosto para o céu e fechou os olhos. Clarke se arriscou e se aproximou alguns centímetros dela. — Não sei por que ninguém consegue compreender. É tão lindo! Tão emocionante! É... é tudo!
— Cerise, se você cair, não vai ser nada. Tudo vai ter acabado!
— Não, não, não... — Abriu os olhos novamente, e eles estavam vidrados. — Isso é apenas o começo, não entende? Ah, todos nós somos tão cegos!
— O que quer que esteja errado, pode ser consertado. Garanto que sim. — Com todo o cuidado, Clarke colocou a mão no braço de Cerise. Não o apertou, pois não queria arriscar. — A sobrevivência é o que conta. Você pode modificar as coisas, pode torná-las melhor, mas tem que sobreviver para alcançar isso.
— Você sabe o trabalho que isso dá? E de que adianta quando há tanto prazer logo ali, à espera de nós. Eu me sinto tão bem... Não faça isso! — rindo, Cerise apontou o spray para o rosto de Clarke . — Não estrague tudo agora. Estou me divertindo à beça.
— Tem gente que está muito preocupada neste instante com você, Cerise. Você tem uma família, que a ama muito. — Clarke fazia força para se lembrar dela. Será que havia algum filho, um marido, pais? — Se fizer isso, Cerise, você vai magoá-los.
— Só até eles compreenderem. Está chegando o tempo em que todos vão poder compreender. Tudo vai ficar melhor então. Tudo vai ser lindo! — Olhou para Clarke bem nos olhos, com um ar sonhador e aquele sorriso feliz e aterrorizante nos lábios. — Venha comigo! — e agarrou a mão de Clarke , com toda a força. — Vai ser maravilhoso. Tudo o que tem a fazer é se soltar...
Um suor frio começou a serpentear pelas costas de Clarke . A mão da mulher parecia um torno, e se Clarke começasse a lutar para se soltar, poderia ser o fim de ambas. Forçou-se a não oferecer resistência, tentou ignorar o vento que rodopiava em volta dela e o zumbido das vans aéreas documentando cada movimento.
— Eu não quero morrer, Cerise — disse Clarke , com toda a calma — E nem você. Suicídio é só para os covardes.
— Não, é para os exploradores. De qualquer modo, você é que sabe... — Cerise deu um tapinha na mão de Clarke , largou-a e deu uma gargalhada forte na direção do vento. — Ah, meu Deus, estou tão feliz! — disse novamente e, abrindo os braços totalmente, inclinou-se para a frente e se lançou no espaço.
Por instinto, Clarke tentou agarrá-la. Quase perdeu o equilíbrio quando as pontas dos dedos tocaram o quadril de Cerise. Atirou-se para o lado e lutou contra a corrente de ar que a puxava, convidando-a a seguir Cerise. A gravidade trabalhou depressa e sem pena. Clarke olhou para baixo, para aquele rosto que sorria de modo selvagem, até que ele se transformou em um borrão.
— Meu Deus! Meu Deus! — Tonta com a reação, ela forçou a cabeça para trás e fechou os olhos. Berros e gritos de desespero explodiram em volta dela, e ela sentiu o deslocamento de ar de uma van com repórteres que se aproximavam para um close de seu rosto.
— Tenente!... Griffin!
A voz parecia um zumbido de abelha em seus ouvidos, e Clarke simplesmente balançou a cabeça.
No terraço, Peabody olhava para baixo e lutava contra o enjôo que lhe subia até a garganta. Tudo o que conseguia ver agora era que Clarke estava paralisada, presa na saliência do prédio, branca como um lençol, e um movimento em falso a lançaria atrás da mulher que tentara salvar. Respirando fundo, Peabody ensaiou mentalmente o tom de voz para que saísse com um jeito determinado e profissional.
— Tenente Griffin, preciso que venha até aqui. Exijo um relato completo do que acaba de ocorrer!
— Sim, estou ouvindo!... — disse Clarke , com a voz cansada. Mantendo o rosto reto, olhando para a frente, ela apalpou por trás das costas até alcançar a borda da mureta. Quando uma mão se enganchou na dela, conseguiu se colocar em pé. Virando as costas para o abismo, ela olhou de frente para Peabody, e viu o medo que havia em seus olhos. — A última vez em que pensei em pular de um lugar alto foi quando tinha oito anos. — Embora suas pernas estivessem trêmulas, ela conseguiu lançá-las por cima da mureta e pulou no terraço. — Não vou descer por aquele caminho.
— Nossa, Griffin! — Esquecendo-se de si mesma por um instante, Peabody deu um abraço apertado em Clarke . — Você me deu um tremendo susto! Achei que ela ia carregar você, quando se jogou.
— Eu também. Mas ela não fez isso. Agora se controle, Peabody. A mídia vai ter um dia e tanto!
— Desculpe... — Peabody se afastou de Clarke e ficou ligeiramente corada. — Desculpe.
— Tudo bem. Obrigada. — Clarke olhou para o lugar onde o psiquiatra estava debruçado, sobre a mureta, com uma das mãos no coração, posando para as atarefadas câmeras. — Babaca! — murmurou, e enfiou as mãos dentro dos bolsos. Ela precisava de apenas um minuto, só mais um minuto para se refazer. — Eu não consegui impedi-la, Peabody. Não consegui achar o botão certo para apertar.
— Às vezes não há um botão.
— Há um botão que foi apertado para colocá-la naquele estado — disse Clarke , baixinho. — Deve haver um para ser desligado.
— Sinto muito, Griffin. Você a conhecia.
— Na verdade, não. Era apenas uma dessas pessoas que passam por uma das esquinas da sua vida — e tentou deixar o assunto de lado, tinha que deixá-lo de lado. A morte, embora fosse um fim, sempre deixava responsabilidades para trás. — Vamos ver o que temos aqui. Conseguiu achar o Whittle ?
— Afirmativo. Ele entrou nos tele-links dela, lá da sala dele mesmo, e disse que ia analisá-los pessoalmente. Eu baixei os arquivos sobre a vítima, mas não tive tempo de imprimi-los.
As duas foram caminhando na direção do escritório. Através do vidro, dava para ver Rabbit sentado, com a cabeça entre os joelhos.
— Faça-me um favor, Peabody. Passe aquele trapo humano para um policial, para um depoimento formal. Não quero lidar com ele neste momento. Vamos ver se conseguimos descobrir que diabos ela estava fazendo que acendeu essa luzinha suicida dentro dela.
Peabody entrou, obrigou Rabbit a se levantar e o entregou a outro policial em segundos. Com eficiência implacável, despachou todo mundo, limpou a sala e trancou as portas externas.
— O escritório é todo nosso, senhora.
— Já não mandei que você parasse de me chamar de senhora?
— Sim, senhora — respondeu Peabody com um sorriso que, esperava, ia ajudar a levantar o astral, que estava pesado.
— Tem uma pessoa metida a engraçadinha dentro do seu uniforme, sabia? — Clarke soltou o ar com força. — Ligue o gravador, Peabody.
— Já está ligado.
— Tudo bem, aqui está ela. Chegou cedo, está puta da vida. Rabbit avisou que ela ia se ferrar por causa de um processo. Consiga dados sobre isso. — Enquanto falava, Clarke vagueava pela sala, absor vendo os detalhes. Havia esculturas em bronze. A maioria era de figuras mitológicas. Eram peças com muito estilo. Um carpete azul, bem espesso, para combinar com o céu, a mesa em tons rosados com um brilho de espelho. Equipamento de escritório elegante, moderno e pintado no mesmo tom pastel. Uma imensa urna de cobre explodia com flores exóticas, e Clarke notou um par de pequenas árvores plantadas em potes.
— Cruzou a sala em direção ao computador, pegou o cartão-mestre em seu kit de trabalho e exigiu o relatório da última vez em que ele fora usado.
Último uso, 08:10 da manhã, chamada relacionada com o arquivo 3732-L, do Departamento Legal, Custler versus Tattler Enterprises.
Esse devia ser o tal processo que a deixara tão puta da vida — concluiu Clarke . — Bate com a declaração de Rabbit. — Olhou para o cinzeiro de mármore que estava com meia dúzia de guimbas de cigarro. Usando pinças, ela pegou uma delas e a examinou. — Tabaco caribenho com filtro trançado. Muito caro. Guarde como prova.
— Você acha que o tabaco pode estar turbinado com alguma coisa?
— Ela estava turbinada com alguma coisa. Seus olhos me pareceram estranhos. — Clarke sabia que não poderia esquecê-los por muito, muito tempo. — Vamos torcer para que tenha sobrado o bastante aqui para um exame toxicológico. Pegue uma amostra daquele restinho de café também.
Clarke não tinha esperanças, porém, de que eles fossem encontrar de fato o que estavam procurando no tabaco nem no café. Não havia traço algum de drogas químicas em nenhum dos outros suicídios.
— Os olhos dela me pareceram muito estranhos — repetiu. — E aquele sorriso... Já vi um sorriso como aquele antes, Peabody. Mais de duas vezes agora.
Enquanto enchia o saco plástico com as provas, Peabody olhou para Clarke .
— Você acha que este suicídio tem ligação com os outros?
— Acho que Cerise Devane era uma mulher bem-sucedida e ambiciosa. Vamos seguir os procedimentos normais para casos como este, mas sou capaz de apostar que não vamos encontrar motivos para suicídio. Ela mandou Rabbit sair — continuou Clarke , andando pelo escritório.
Chateada com o barulho constante que vinha de cima, olhou para o alto e fez uma cara azeda para a van aérea que continuava rondando o local. — Veja se consegue encontrar os protetores de privacidade desta sala e ative-os. Estou cheia desses babacas!
— Será um prazer! — Peabody saiu em busca do painel de controle. — Acho que avistei Costia Furst em um dos helicópteros. Do jeito que estava debruçada, com metade do corpo para fora, foi sorte estar usando o cinto de segurança, senão ia acabar virando manchete do próprio noticiário.
— Pelo menos ela vai noticiar as coisas do jeito que aconteceram — disse Clarke , quase que para si mesma, e balançou a cabeça com satisfação quando os painéis protetores deslizaram sobre o vidro, deixando-as isoladas dos olhares externos. — Ótimo! Luzes! — ordenou, e fez o ambiente ficar novamente iluminado. — Ela queria relaxar, ficar numa boa para enfrentar o resto do dia.
Clarke deu uma espiada no frigobar, achou refrigerantes, frutas e vinho. Uma das garrafas de vinho fora aberta e depois fechada novamente, a vácuo, e não havia nenhum copo por ali que indicasse que Cerise tivesse começado a beber tão cedo. De qualquer modo, alguns goles não conseguiriam fazê-la ficar com aquele olhar, avaliou.
No banheiro que servia ao escritório, completo e equipado até mesmo com uma banheira de hidromassagem, sauna e tubo de relaxamento, Clarke achou um pequeno armário cheio de tranqüilizantes, calmantes leve s e líquidos revigorantes legalizados. — Era uma grande entusiasta da ajuda química a nossa Cerise — comentou. — Leve tudo para testes!
— Nossa, ela tinha uma farmácia própria! — espantou-se Peabody. — O tubo de relaxamento está marcado para induzir a concentração, e foi usado pela última vez ontem de manhã. Ela não fez a sua viagem zen de hoje...
— Então, o que fez para relaxar? — Clarke entrou em um aposento ao lado que parecia uma pequena sala de estar, completa, com unidades de entretenimento, poltrona reclinável e um andróide exclusivo para serviços ali.
Um lindo conjunto em tom de verde esmaecido estava cuidadosamente dobrado sobre a mesinha. Sapatos no mesmo tom estavam no chão, sob a mesinha. Jóias... uma corrente pesada de ouro, brincos trabalhados artesanalmente e um pequeno relógio-gravador sob a forma de um bracelete. Tudo fora cuidadosamente colocado em uma tigela de vidro.
— Ela se despiu aqui. Por quê? Com que propósito?
— Algumas pessoas conseguem relaxar melhor quando não estão confinadas às roupas — comentou Peabody, e então ficou vermelha quando Clarke lançou-lhe um olhar de estranheza sobre os ombros. — Foi o que ouvi dizer.
— É... Pode ser... Mas isso não combina com ela. Cerise era uma mulher que se comportava de forma correta e apresentável. Seu assistente me contou que jamais a vira tirar nem mesmo os sapatos, e então, de repente, ela deixa de ser uma nudista enrustida? Acho que não...
Seu olhar pousou nos óculos de realidade virtual que estavam sobre um dos braços da poltrona reclinável.
— Talvez ela tenha feito uma pequena viagem, afinal... — murmurou Clarke . — Estava se sentindo esgotada, queria aparar as arestas mentais, para se acalmar. Então, veio até aqui, se esticou na poltrona, programou algo, colocou os óculos e deu um pequeno passeio.
Clarke se sentou na poltrona e pegou os óculos. Óculos de realidade virtual refletiu. Fitzhugh e Mathias também haviam feito viagens virtuais antes de se matarem.
— Vou ver onde ela foi, e quando. Ah, e... Peabody... Se eu de repente demonstrar alguma tendência suicida depois de usar os óculos, ou decidir que é melhor relaxar sem o confinamento das minhas roupas, você tenha a bondade de me nocautear na mesma hora. Isto é uma ordem!
— Que será cumprida sem hesitação, senhora.
— Mas você não deve curtir essa missão... — Clarke levantou a sobrancelha.
— Vou detestar ter que realizá-la — prometeu Peabody, e cruzou as mãos diante do corpo. Dando uma risadinha, Clarke colocou os óculos.
— Repetir última cena — ordenou ela. — Viu? Bem na mosca! Ela usou os óculos às oito e dezessete desta manhã!
— Griffin, já que é assim, talvez você não deva fazer isso. Podemos levar o equipamento e testá-lo sob condições de controle total.
— Você vai ser o meu controle, Peabody. Se eu lhe parecer feliz demais e resolver viver menos tempo, pode me dar uma paulada. Repetir o último programa apresentado! — tornou a ordenar, e se recostou. — Nossa!... — sussurrou ela quando dois rapazes atraentes vieram caminhando em sua direção. Vestidos apenas com tiras estreitas de couro preto, eles tinham a pele oleosa, eram muito musculosos e estavam em estado de excitação total.
O ambiente era agora uma sala branca, basicamente uma imensa cama, e Clarke sentiu a maciez do cetim sob seu corpo despido. Pedaços de gaze caíam do alto e filtravam a suave luz amarelada de um candelabro de cristal cintilante suspenso do teto.
Música, uma melodia baixa e pagã pulsava no ar. Ela estava coberta por uma montanha de travesseiros de penas, e quando tentou se mover, o primeiro dos dois deuses gregos sentou-se com as pernas abertas sobre ela.
— Ei, escute aqui, meu chapa...
— Estou aqui apenas para o seu prazer, mestra — ele cantarolou suavemente e começou a espalhar óleo aromático em seus seios.
Isso não vai acabar bem... pensou ela, enquanto involuntários tremores de prazer surgiam-lhe das entranhas. O óleo foi espalhado sobre a sua barriga, suas coxas e pelas pernas abaixo, até os dedos dos pés.
Dava para ela entender por que uma situação como aquela poderia levar uma mulher a querer se livrar de todas as roupas e sorrir, mas não a desejar tirar a própria vida.
Sai dessa!, ordenou a si mesma e procurou se concentrar em outra coisa. Lembrou do relatório que precisava apresentar ao comandante. Tinha que contar a ele sobre as estranhas manchas no cérebro.
Sentiu dentes que mordiscavam delicadamente seu mamilo, seguidos de uma língua que umedeceu toda a região em volta. Ela arqueou o corpo em reação, mas a mão que estendeu para protestar escorregou em um ombro duro e oleoso.
Então, o segundo garanhão se ajoelhou entre suas pernas e começou a trabalhar nela com a língua.
Ela gozou antes mesmo que tentasse se segurar, sentindo um pequeno espocar de alívio.
Ofegante, arrancou os óculos na mesma hora e viu Peabody diante dela com o queixo caído.
— Não era uma caminhada calma por uma praia deserta — conseguiu informar.
— Deu para perceber — disse Peabody. — O que era, exatamente?
— Dois caras praticamente pelados e uma imensa cama coberta de cetim. — Clarke soltou o ar e jogou os óculos na poltrona. — Quem poderia imaginar que ela costumava relaxar com fantasias sexuais?
— Ah... Tenente. Senhora... Como sua assistente, creio que é minha responsabilidade testar este objeto também. Para um controle mais consistente das provas.
Clarke empurrou a bochecha com a língua, pensativa.
— Peabody, eu não posso permitir que você se sujeite a esse tipo de risco.
— Sou uma policial, senhora. Enfrentar riscos é a minha função. — Clarke se levantou, entregou os óculos para Peabody, e seus olhos começaram a brilhar.
— Guarde a prova, policial!
Decepcionada, Peabody jogou os óculos dentro de um saco plástico e o lacrou, reclamando:
— Que droga, Clarke ! Eles eram bonitos?
— Peabody, pareciam deuses!... — Voltou para a sala principal do escritório e deu mais uma olhada em volta. — Vou mandar os técnicos do laboratório virem até aqui, apesar de achar que eles não vão encontrar nada de estranho. Vou levar o disco que você baixou para a central e entrar em contato com o parente mais próximo, embora a mídia já tenha espalhado as cenas ao vivo para o planeta inteiro.
Pegando o seu kit de trabalho, comentou:
— Eu não me sinto nem um pouco suicida.
— Fico aliviada por ouvir isso, tenente.
Mesmo assim, Clarke franziu a testa ao olhar mais uma vez para os óculos e perguntou:
— Quanto tempo eu levei fazendo aquela experiência...? Cinco minutos?
— Quase vinte — e Peabody deu um sorriso ácido. — O tempo voa quando a gente está fazendo sexo.
— Eu não estava fazendo sexo! — A culpa a fez torcer a aliança no dedo. — Não exatamente... Se houvesse alguma coisa para induzir o usuário a fazer algo, eu teria sentido. Como não senti, acho que estamos em um beco sem saída. Mande o aparelho para análise, mesmo assim.
— Farei isso.
— E espere pelos resultados de Whittle . Talvez ele ache algo interessante nas gravações dos tele-links dela. Vou me submeter agora ao comandante. Quando acabar com tudo por aqui, leve os sacos lacrados para o laboratório, faça um relatório e envie-o para a minha sala. — Clarke foi andando para a porta e lançou um olhar por cima do ombro, completando: — E nada de brincar com as provas, Peabody!
— Estraga-prazeres! — murmurou, ao ver que Clarke já não conseguia ouvi-la.
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Genteee Clarke gosta do perigo mesmo