Distortia

Von DiegoLanza9

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Esta obra faz parte de um projeto do grupo Em Um Mês Um Conto, cuja meta é um conto inédito e dividido em tr... Mehr

PARTE 2
PARTE 3 - Final

PARTE 1

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Von DiegoLanza9

Dos meus sonhos aleatórios, eu me lembro: — do brilho prateado de uma sobrancelha arqueada; — do ranger de uma pesada porta de madeira se abrindo para um salão com luzes tremeluzentes; — de gotas de esperma caindo sob o som de gemidos e sussurros; — de uma chuva de pedaços de metal, enquanto feixes de luz me cegam; — uma capa vermelha esvoaçando perigosamente; — da água avermelhada de uma banheira já fria dentro de um banheiro de azulejos portugueses, escuros e melancólicos,

O cheiro esverdeado, da mata desgrenhada, atacou-lhe em ondas nauseantes e quentes. A cabeça doía, pontadas pulsantes pelas laterais, próximo as têmporas, e na parte da frente, entre as sobrancelhas grossas. Segurou-a, massageando, tentando fazer aquela sensação pungente e aguda passar. Respirava pesadamente. Sentou-se, arqueando as costas doídas, descolando-as da roupa banhada em suor e pondo o queixo entre as pernas. Arrastaram-se alguns minutos até que adrenalina corroeu suas veias com a força de um instinto.

Perigo.

Medo.

Se pôs em pé o mais rápido que pode, olhando ao redor, a dor submergindo como fundo frente a preocupação que agora figurava na sua consciência.

Roxo e preto. Cabelos ruivos. Voz arranhada de cigarros. Dinatra?

Camboja.

A mão tocou a pistola preta amarrada ao coldre. Observou que vestia luvas que deixavam a ponta dos dedos de fora e uma roupa de camuflagem, abafada com seu suor.

O que deveria fazer?

Fora mandado ali por um motivo. O mesmo motivo que lhe despertara adrenalina. Mas qual era?

Uma espécime que parecia um misto de borboleta com mariposa passou batendo asas próximas de seu pescoço, num voo rasante rápido e frenético.

Pousou em uma árvore próxima.

Ele se pôs a andar.

Cruzou a clareira que estava e adentrou pela vegetação cerrada.

Com as mãos ia abrindo espaço para passar. Caminhou pelo que pareceu uma hora, angustiadamente esverdeada; até que encontrou, no chão, demarcações como uma estrada. Correndo em paralelo a ela, uma fileira de árvores com troncos mais magros, permitindo vislumbres do horizonte ao fundo.

Mar e céu fundiam-se sem emenda, e no espaço luminosamente ensolarado, velas tostadas das barcaças deslizavam na água em grupos vermelhos, de lona em picos, salpicados com brilhos amarelos. Havia névoa, também, repousando próximo a margem das águas com a terra, perto do princípio daquela floresta.

Ker... Kemer... Khmer...

Um grito interrompeu seu auto murmúrio. Outro grito e mais novos seguiram-se aquele, logo eram centenas, gritos apavorados, gritos desesperados.

Ele seguiu a direção das vozes, correndo destrambelhado por entre a mata, atenção se dividindo entre a localização dos gritos e as raízes rizomárticas no chão. Armou-se em punho com a pistola escura, uma superfície black piano inarranhada. cano longo finalizando em uma abertura anormalmente grande. Os gritos continuaram e agora estampidos fortes e ritmados acompanhavam aquela sinfonia de horror. Antes mesmo de chegar próximo a origem das vozes assustadas, ele sentiu aquele cheiro forte, pungente, enferrujado e viscoso. Mal alcançou a fronteira de mato que resguardava o local onde pessoas gritavam desesterrorizadas e já visualizou o vermelho banhar o verde em sua sanguinolência.

Estava numa vila. Casas pegavam fogo. O cheiro de carne humana defumando vinha da fumaça fodendo com os ares. Ele viu mulheres correndo nuas, enquanto homens fardados, como ele, corriam atrás delas, alguns com as calças caindo. Corpos de crianças estavam empilhados a um canto, e alguém acendia uma fogueira sobre eles. Um grupo de homens também vestidos de camuflagem empunhava metralhadoras, todas em disparos ininterruptos contra o que certamente antes eram corpos humanos, agora uma massa ininteligível, músculos, intestinos, cérebro e muito sangue misturados com o lama do chão. E os disparos não cessavam.

Ele empunhou sua pistola, dedo no espaço oval onde seria um gatilho em uma arma comum e atirou na cabeça dos homens. Em poucos segundos o barulho daqueles tiros cessou, metralhadoras penderam dos dedos frouxos e despencaram ao chão, seguidos dos corpos que antes as empunhavam, agora degolados. Das cabeças, nenhum sinal.

Mal pode se virar quando recebeu uma coronhada na cabeça, seu sangue envermelhecendo os olhos e pingado pela boca, manchando sua barba cerrada. A cena escureceu por completo e seu corpo esparramou-se ao chão.

Lembro do cheiro forte de almíscar que dominava todo o ambiente, e de sentir os lençóis de seda farfalhando sob meu corpo nu. Mãos habilidosas dedilhavam por entre minhas pernas, e eu gemi e gemi e gem-

Ao abrir os olhos, deparou-se com uma lareira acesa, o que deixava o ambiente com uma quentura agradável. Estava deitado em cima de um divã verde musgo. Suas roupas agora eram escuras, e usava um casaco estilo sobretudo, de um tecido mole e agradável de vestir. Lembrava vagamente de uma floresta, de tiros, de intestinos e sangue. Procurou pelo ferimento na cabeça. Nada.

Levantou-se tocando o corpo, sem sinal de arma.

Olhou a sala ao seu redor e notou que ela tinha mais quatro poltronas da mesma tonalidade do divã.

É uma sala de chá; passou por sua cabeça. Não sabia como tinha chegado a essa conclusão, mas tinha certeza que estava certo.

A porta da sala se abre e uma jovem anormalmente branca, envolta em um vestido oriental, os olhos puxados ligeiramente maquiados e de cabelos muito escuros e presos num coque, lhe direciona um sorriso que não alcança seus olhos.

— Boa noite. O Senhor lhe aguarda na Biblioteca.

Ela saiu tão rapidamente quanto entrou. Ele tentou segui-la, mas ao sair da sala de chás já não encontrava nenhum vestígio da presença da jovem. Se viu em uma sala ampla, rodeada de portas e no meio uma enorme escada de marfim.

Que diabos, onde ele estava? E como acharia a biblioteca? Eram muitas portas. Tentou abrir algumas, todas trancadas. Suspirou e continuou a epopeia das maçanetas, uma delas se abriu para um banheiro de azulejos portugueses. Nada ali. Fechou-a, tentou as demais e não teve sucesso. Encarou a escada e pôs um pé sobre ela. Depois outro, e outro. E foi subindo.

Os passos não se faziam ouvir naqueles degraus. Tudo era extremamente silencioso. Tão quieto que ele conseguia escutar um zumbido constante em seu ouvido direito, que parecia se intensificar mais a cada passo.

Depois do centésimo degrau, alcançou o topo. Estava de frente a portas duplas, bem grande, de madeira avermelhada escura e brilhante. Estavam entreabertas. Antes mesmo de tentar entreolhar pela abertura ouviu uma voz dizendo,

— Entre.

Não havia muito o que fazer, entrou. A pesada porta de madeira se abriu para um salão com luzes tremeluzentes. Um ambiente amplo, cercado de estantes de mogno que iam do chão ao teto, alimentadas com tantos livros quanto possível em seus vãos. Havia outra lareira, emoldurada de ouro. As poltronas aqui eram vermelho escarlate, e havia outro divã. Sentado numa das poltronas estava um homem com roupas muito parecidas com as suas. Ele tinha cabelos cinza-prateados e olhos de uma tonalidade indefinida, como se fossem furta-cor. Mesmo de coloração indefinida, seu olhar era intenso e penetrante, como de quem é capaz de desnudar qualquer alma apenas observando daquela forma inquisitória, o brilho de sua sobrancelha prateada refletindo a luz do fogo. De um jeito estranho, aquela presença despertava comichões ventre abaixo.

— Sente-se, meu jovem.

Sua voz era grave, aveludada e com notas de acidez.

— Quem é você?

— Me chamo Erik.

Permaneceram se encarando, Erik sentado e ele parado pouco depois da porta.

— Você sabe como se chama?

Sua respiração parou por alguns segundos. Não conseguia lembrar de um nome.

— Sente-se e eu lhe explicarei tudo. 

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