Caio Barreto
Minha parceira está desacreditada, meu relacionamento foi pelos ares, o assassino continnua à solta e até o David - uma quase vítima dele - está desacreditado que eu possa fazer meu trabalho.
Nesse momento, estou dirigindo pelas ruas iluminadas de São Paulo, com um destino certo: o Instituto Médico Legal.
Sobre o banco do carona, está a razão pela qual eu vou até lá: os pertences de Daniel Carneiro, a mais recente e, penso eu, a última vítima do Serial Killer Gay que vem tirando meu sono nos últimos dias.
* * *
Mostro meu distintivo ao guarda e não leva muito tempo até eu ser levado para me encontrar com a legista que fez a autópsia no cadáver.
Ela é bem bonita, tem cabelos crespos num black-power perfeito, os lábios grandes estão tingidos por um batom vermelho no tom certo. O cheiro dela também é muito bom, é semelhante ao perfume que a Sheila usava.
- Detetive Barreto! - ela me estende a mão direita em cumprimento.
- Boa noite! - eu a cumprimento de volta.
- Eu sou a Dra. Amora Leal - ela se apresenta - Achei sua vinda até aqui estranha. Pensei que a polícia já tivesse tido acesso ao meu laudo sobre a morte do rapaz.
- É, nós já tivemos - eu respondo - Mas, preciso ver o corpo. A senhora vai me entender.
Juntos, seguimos até a câmara de refrigeração.
* * *
O local é frio e, não só por isso, me causa arrepios.
A Dra. Amora vai andando em minha frente, seu quadril se movendo como o de uma modelo da Victoria Secrets. Ela é fascinante.
-... Se já recebeu o laudo - diz ela - Qual a razão de vir até aqui, Detetive?
- Isto! - eu falo, mostrando para ela o saco plástico transparente com os pertences do falecido.
- Não se se compreendi! - ela diz, puxando uma das gavetas refrigeradas, onde posso ver o corpo do rapaz, embalado num saco metálico.
- Há a hipótese de que o assassino usa redes sociais para se comunicar com as vítimas - eu digo, enquanto ela começa a abrir o zíper do saco - Aqui está o celular do Daniel Carneiro, mas, está protegido com senha. Levá-lo para um especialista em T.I. tirar essa proteção seria a ideia mais óbvia, só que isso leva tempo. Mas, este aparelho aqui - eu puxo o celular para fora do saco plástico - Funciona com leitura facial.
- Oh, entendo...
A legista abre de vez o saco metálico e deixa à mostra o cadáver.
A pele está pálida, a sutura dos lábios já foi retirada.
Mesmo assim, o rapaz ainda é belo.
- Com licença - digo para a legista, quase como se fosse para o próprio Daniel e, em seguida, aponto o display do celular na direção do rosto dele. Em segundos, a tela é desbloqueada.
Volto o celular para mim e, imediatamente, ligo os dados móveis. Preciso ter acesso aos aplicativos que funcionam com internet.
Algumas mensagens começam a chegar. Algumas curtidas em fotos, mas, eu já sei qual é o meu foco: o aplicativo de encontros gays.
Eu entro no aplicativo e encontro a última conversa. É da noite na qual ele foi assassinado. A última conversa.
Visualizo o chat: cantadas, nudes, um encontro marcado.
Dou uma olhada na foto que o Daniel recebeu e vejo um corpo malhado. Sem tatuagens, talvez não seja o nosso cara.
Depois, dou uma olhada no perfil dele.
Não tem informações relevantes. Nada que possa identificá-lo. Sem contar que, nesse tipo de aplicativo, essas informações podem facilmente serem falsas. Não daria para levar tão à sério assim.
Depois, eu dou uma olhada na foto que o próprio Daniel enviou na conversa e me dou conta do que está acontecendo.
Numa questão de segundos, é como se meu cérebro fosse explodir e, de repente, tudo se conecta.
- Eu conheço essa cara, Detetive!
- Sim! Eu acho que comecei a me tocar do que está acontecendo aqui, Dra.
* * *
Estou em meu apartamento. Olho no relógio e a hora parece não passar.
Apanho meu chiclete de menta. A solidão parece querer fazer sentido agora.
Pego meu celular. Enquanto masco o chiclete, escrevo uma mensagem para o David Rabelo.
Para minha sorte, ele é ágil - essa garotada, de modo geral, é - então, combinamos um encontro.
Enquanto ele não chega, preparo o espaço: coloco uma música calma, preparo um lanche e abro um vinho.
Parece inapropriado, o vinho, mas, eu acho que não é uma má ideia. A gente se solta um pouco mais.
* * *
Quando o interfone toca, com o porteiro me avisando sobre meu visitante, eu altorizo a entrada dele e corro até o espelho que fica no corredor - entre a cozinha e o quarto, numa parede que a Sheila insistiu em pintar de preto - dou uma ajeitada em meus cabelos e na camisa branca meio amassada.
Depois, diminuo o volume do som, que está tocando uma música da Lana Del Rey - Chemtrails Over The Country Club. A campanhia toca.
Vou até lá e abro a porta.
Dou de cara com aquele olhar tímido de sempre, com aquele suéter preto de sempre.
- Oi - eu sorrio, meio sem jeito, meio nervoso.
- Olá! - ele sorri, parece estar mais à vontade que eu.
* * *
Estamos sentados nas poltronas de bambu da varanda.
A garoa volta a dar as caras. O vento gélido justifica o suéter do David - apesar de eu jurar que ele estaria usando-o de qualquer jeito.
Eu tomo vinho. Ele também.
Parecemos íntimos já. De modo geral, nos últimos anos, esse tem sido o contato mais íntimo que tive com um homem.
-... Quando foi que começou? - me questiona o David, olhando direto para o horizonte coberto por luzes amareladas os prédios à frente, além da massa cinzenta de nuvens de chuva e poluição, ele tenta me ignorar de toda a forma.
- Quando foi que comecei o que?
- A sair com homens - ele responde imediatamente - Faz tempo?
- Bom... - essa pergunta me deixou meio constrangido, e não era para ser assim - Faz algum tempo. Na verdade, estive num relacionamento sério com um homem por dois anos.
- Uau, sério?!
- Sim, por que a surpresa?
- O meio gay não é pra esse tipo de coisa! - ele responde - Você sabe, os caras só querem saber de sexo e mais nada. Um namoro de dois anos entre dois caras me parece algo meio fantasioso.
- É, mas não é bem assim, David. Existem muitos caras gays que se amam e que não ficam juntos só por sexo.
- Sei... - ele parece descrente - Se vocês se amavam, então, por que não estão mais juntos?
- Ele morreu! - eu respondo na lata, deixando o rapaz atônito - O nome dele era Mateus. Nós morávamos juntos na época da faculdade. A gente fazia tudo juntos. Só que numa noite ele decidiu ir sozinho a uma festa, estávamos brigados. Nessa festa tinha uma galera meio pesada e ele perdeu o controle. Overdose.
- Poxa vida...
- É... - eu tomo mais um gole de vinho - Eu já tinha conversado com ele sobre tudo aquilo, eu já tinha avisado, tinha tentado evitar de todas as formas possíveis, mas, era da natureza dele, sabe?!
- Como assim?
- Ser rebelde! - outro gole de vinho - Tem coisa que a gente faz, David, que é da nossa natureza. A gente sabe que não é bom, que faz mal, que machuca, mas, ainda assim, a gente faz.
Silêncio.
- Quando foi que você começou, David?
- Quando foi que comecei o que?
- A matar caras por aí!