Eu tinha 18 anos quando cheguei a Londres. Janeiro de 2009. A cidade era tudo o que eu imaginava: cinza, agitada e cheia de possibilidades. Eu, por outro lado, tinha um jeito mais tranquilo de ver as coisas. Não era introvertido, mas também não me esforçava para ser o centro das atenções. Minha vida, até ali, era feita de pequenos gestos: café quente pela manhã, alguns livros, poucos amigos, e a sensação de que estava começando algo importante, mas ainda não sabia o quê.
Eu estava fazendo intercâmbio e tinha passado a primeira semana tentando me ajustar — aprendendo a lidar com o clima frio, os sotaques diferentes e os pratos sem graça que os ingleses chamam de comida. A vida era normal, sem surpresas, sem grandes aventuras. Tudo parecia... confortável, até demais.
Meus colegas de quarto não entendem isso. Especialmente Alessandro, um italiano expansivo que acha que a vida só vale a pena quando está acontecendo em voz alta. "Você precisa sair mais, viver mais, cara!", ele me disse na última sexta-feira, enquanto colocava uma camisa estampada e um perfume doce demais. Eu só ri e balancei a cabeça.
Eu gosto do silêncio. Ele não cobra nada de mim.
Mas naquela noite... não sei por que aceitei ir. Talvez cansaço. Talvez curiosidade. Ou talvez porque, lá no fundo, uma parte de mim já sabia que algo estava prestes a mudar.
Fomos para uma festa num apartamento em Camden. Luzes piscando, música alta, gente que eu nunca tinha visto e que provavelmente nunca mais veria. Fiquei num canto por um bom tempo, observando as conversas, os risos, os copos se enchendo e se esvaziando.
Foi então que a vi.
Helena.
Estava em cima de uma mesa, dançando sem se importar com nada ou com ninguém. Sua energia era contagiante, mas havia algo nela que não parecia se encaixar naquele cenário. Ela não estava ali para se divertir apenas; estava ali para viver. Cada movimento, cada risada, parecia uma afirmação de que ela era livre, de que nada a detinha.
Eu não sabia o que me atraía mais: a maneira como ela parecia dominar o espaço ou o fato de que, enquanto todos se entregavam à festa, ela parecia ser dona de um mistério que ninguém mais entendia.
E eu, como sempre, observei de longe.