Por um momento, fez-se absoluto silêncio na biblioteca.
Então, enquanto lady Swan começava a dizer: "Isto é ilegal! Isto é ilegal!", sir James punha-se rapidamente em pé.
— O senhor nada mais é do que um caçador de fortunas! — gritou ele. — Como ousa tomar vantagem de uma jovem que estava cavalgando sozinha, sem ninguém para protegê-la? O senhor devia ser levado à forca!
Ele despejava as palavras violentamente sobre o conde, que apenas o olhava, aparentemente insensível diante de toda aquela fúria.
— Caçador de fortuna, eu? — perguntou ele, afinal. — De que fortuna o senhor está falando?
Sir James lembrou-se então, um pouco tarde demais, de que Isabella não devia saber nada sobre o testamento de sua bisavó. Inseguro ele olhou para lady Swan.
Para encobrir-lhe o erro, Victória tornou a repetir, quase freneticamente: — É ilegal! É claro que é ilegal! Eu o levarei à barra dos tribunais e o
acusarei de forçar uma jovem inexperiente a desposá-lo sem o consentimento de seu pai!
O conde sorriu de forma sarcástica e respondeu friamente:
— Creio que teria uma certa dificuldade em provar seu ponto de vista, lady Swan. Além do mais, qualquer pessoa consideraria um condado que remonta ao século XV muito mais importante que o título de sir James, por mais atraente que a senhora possa achá-lo!
Ele enfatizara as palavras "a senhora" propositadamente, e isso foi o suficiente para que Victória percebesse que o conde estava a par da posição que sir James Leith ocupava em sua vida.
Por um momento, ela ficou desconcertada demais para responder, e o conde continuou, no mesmo tom de voz que usara anteriormente:
— Eu me defenderei contra qualquer causa que a senhora julgar de seu direito levantar contra a minha pessoa e a de minha esposa na Câmara dos Lordes.
Foi então que lady Swan se deu conta de que definitivamente estava derrotada.
Mal contendo sua fúria, ela caminhou para a porta.
Quando já a havia alcançado, sir James, cujos olhos lançavam faíscas de ódio para o conde, disse:
— Eu gostaria de desafiá-lo para um duelo por causa disso, conde Cullen, mas ouso dizer, em vista do estado em que se encontra o lugar onde o senhor vive, que lhe seria difícil até mesmo encontrar as pistolas!
— Se não deixar minha casa imediatamente — ameaçou-o o conde —, eu o atirarei pela janela!
A forma como ele dissera aquilo, sem erguer a voz, foi eficaz o suficiente para fazer com que sir James desse um passo para trás.
Então, murmurando uma praga, ele seguiu lady Swan para fora da biblioteca, batendo a porta atrás de si.
Com a autoconfiança renovada, o conde simplesmente se voltou para o balcão, mas, por um momento, Isabella não ousou mover-se.
Então, com dificuldade, ela se levantou, para vê-lo olhando-a, com um sorriso nos lábios,
Feliz como nunca ao ver tal expressão em seu rosto, Isabella desceu correndo os degraus, saltando os últimos três para cair nos braços do conde.
Ele a apertou forte de encontro a si, enquanto ela exclamava alegremente:
— Você me salvou! Oh, foi tudo tão maravilhoso! Você... acreditou em mim!
Enquanto falava, as lágrimas desciam-lhe pelo rosto, mas seus olhos brilhavam de felicidade.
O conde apertou-a ainda mais.
Então ele a beijou vorazmente e com toda ansiedade, como se temesse perdê-la.
Enquanto a beijava, Isabella percebeu que ele a erguia e carregava escada acima, e nada mais tinha importância, porque estavam juntos.
— Eu amo você! — murmurou ela. — Eu amo muito você!
— Eu também amo você, minha querida, mas Deus sabe que...
Ele foi interrompido no que estava prestes a dizer quando Jacob chamou-os, do pé da escada. Isabella rapidamente desceu dos braços do conde, enquanto ouvia seu fiel cavalariço dizer:
— Eles se foram, Srta. Isabella. Mas eu descobri o que pretendiam fazer... ela e aquele tal de sir James!
— Eles... realmente se foram? — perguntou Isabella, enxugando com as costas da mão as últimas lágrimas que teimavam em descer-lhe pelo rosto.
— Partiram parecendo querer explodir de tanta raiva! — disse
Jacob, todo satisfeito. — Laurent me disse o que eles pretendiam fazer, assim, só para o caso de haver mais algum problema, eu tirei isto aqui de uma bolsa que estava na carruagem.
Só então perceberam que ele segurava uma folha de papel dobrada, enquanto falava. O conde desceu até ele, seguido de Isabella, e apanhou o papel.
Ao desdobrá-lo, viu, surpreso, que era uma licença especial de casamento, assinada pelo arcebispo de Canterbury.
Jacob explicou:
— O cocheiro me disse, milorde, que pretendiam parar na primeira igreja que encontrassem pelo caminho, para casar a Srta. Isabella com sir James! Que sujeito, aquele! Nunca consegui confiar muito nele!
— Nem eu — concordou o conde. — Foi muito inteligente da sua parte, Jacob, conseguir este documento.
Novamente o conde baixou o olhar até a folha de papel que tinha nas mãos, e então seus olhos cintilaram.
— Pelo que eu sei — disse ele, lentamente —, a Srta. Isabella, como você a chama, é bastante habilidosa com a pena, portanto não lhe será muito difícil mudar o nome do noivo!
Isabella ficou quase sem fôlego ao ouvir aquilo.
— Você está querendo dizer... oh, vamos, diga-me. Em que está pensando?
— Eu estou pensando — respondeu o conde, sorrindo — que Jacob deveria ir até a vila, dizer ao vigário que eu o convoquei a vir até aqui esta noite, por volta das sete horas.
Isabella olhava-o fixamente, e então seu rosto ficou radiante.
— Será um casamento bastante simples, minha querida — continuou o conde. — Mas, quanto antes você for minha, melhor! Além do que, detesto contar mentiras!
— Tem certeza de que é isso mesmo que quer fazer?
— Creio que é importante que estejamos casados antes que sua madrasta e seu revoltante amigo pensem em alguma outra forma de levá-la embora.
Isabella estremeceu, e o conde acrescentou rapidamente:
— Mas, quando você for minha esposa de verdade, não haverá nada que eles possam fazer para nos separar.
Ele passou o braço ao redor dos ombros de Isabella, num gesto protetor, enquanto falava, e Jacob, sorrindo, dirigiu-se à porta.
Quando ele já ia saindo, Isabella disse, como se a idéia lhe tivesse ocorrido de repente:
— Espere, espere, Jacob! Quero que ajude o conde um momento! Jacob voltou-se, e o conde olhou-a, surpreso.
Isabella dirigiu-se à biblioteca e apanhou o que havia deixado sobre a escrivaninha, voltando para junto deles.
Com o quadro estava o pedaço de papel sobre o qual escrevera a tradução da inscrição latina.
— Tenho algo a lhe mostrar na capela — disse ela ao conde. — Por favor... deixe Jacob acompanhar-nos.
— Mas é claro, se é o que você quer — respondeu ele.
Carregando consigo a pintura, Isabella foi na frente, atravessando o hall e descendo uma escadaria que ligava a ala principal da casa à ala oeste. !
Quando chegaram à capela, que ela já visitara no dia anterior, o sol ainda entrava pelas janelas de vidros coloridos.
Embora muitas das vidraças estivessem quebradas e abertas, a capela estava banhada por uma luz dourada, que os impedia de ver a poeira e a deterioração geral daquele lugar.
Isabella rapidamente atravessou o pequeno corredor central e subiu os degraus do altar.
Então, segurando a pintura com uma mão, ela entregou a tradução para o conde.
— Por favor — disse ela —, pode ler em voz alta?
— Farei qualquer coisa que me pedir — replicou o conde.
A forma como ele dissera aquilo e o amor que havia em seus olhos fizeram o coração de Isabella bater mais rápido em seu peito.
Ela esperou enquanto o conde lia com sua voz grave: "De joelhos imploramos a Ti...
Isabella tocou-lhe o braço para interrompê-lo, e explicou: — Se nos ajoelhássemos aqui neste degrau, em frente ao altar da comunhão, veríamos o Santíssimo Sacramento, se ele estivesse sobre o altar.
O conde e Jacob ouviam-na atentamente. Então, como se soubesse o que ela queria, o conde leu as linhas seguintes:
"Que proteja aquilo que tanto amamos. E que olhos malignos jamais possam ver O que a Deus pertence". Terminada a leitura, o conde olhou para Isabella, esperando que ela continuasse a explicação.
— Leia o que vem em seguida, mais abaixo — pediu ela. — São Judas, V 1, 2 — leu o conde.
— O santuário deve ficar a cinco pés do altar — continuou Isabella. O conde olhou para baixo, e assentiu.
— O número um — disse ela — deve indicar o primeiro túmulo imediatamente sob os degraus do altar.
Ela apontou para baixo enquanto falava.
Ambos os homens olharam para a enorme pedra que ela indicava.
Era um túmulo sem nome, talvez de um criado ou de um pároco, que morrera em 1661, e cuja lápide fazia parte do piso da capela.
Quebrando o silêncio que se fizera, o conde exclamou: — Não estou entendendo!
— Eu explico. Na minha opinião, e estou bem certa de que é isso mesmo, sob esta pedra vamos encontrar o que os padres impediram de cair nas mãos de seus perseguidores.
O conde olhou, atônito. Então, disse:
— A capela, juntamente com a casa que havia aqui, foram construídas no reinado de Maria Tudor.
— Foi o que pensei — disse Isabella. — A rainha Maria, tendo sido uma católica fervorosa, perseguiu os protestantes. Porém, quando sua irmã Elisabete subiu ao trono, sendo protestante, foi sua vez de perseguir os católicos!
Ela viu a expressão de esperança e excitação que surgiu nos olhos do conde. Ele voltou-se para falar com Jacob, mas este já estava saindo da capela.
— Eu sei o que o senhor quer, milorde — disse ele —, e vou buscar! O conde voltou-se novamente para encarar Isabella.
— Será que é possível que esteja certa?
Enquanto falava, ele reparou que o sol transformara os vastos cabelos de Isabella em uma auréola dourada. Ninguém poderia ser mais bela, nem mais espiritual.
"Ela mais parece um anjo", pensou ele.
Isabella fora até ele quando se encontrava no maior desespero e lhe dera esperança e fé no futuro.
Houvesse ou não o tesouro que ela acreditava existir na capela, o conde sabia que jamais seria um ser completo sem
Isabella.
— Não importa o que eu tenha de fazer, por mais difícil ou degradante que seja — disse ele para si mesmo —, vou mantê-la ao meu lado, e nunca a deixarei partir.
Como se soubesse em que ele pensava, Isabella estendeu a mão para o conde.
— Estou rezando para São Judas — disse ela suavemente —, que é o santo patrono das causas perdidas. Não creio que ele vá nos decepcionar.
O conde ergueu-lhe a mão e beijou-a gentilmente. Estavam ambos sob a luz do sol, abraçados, dizendo silenciosas preces. „,
Não demorou mais do que uns poucos minutos para que ouvissem Jacob correndo em direção a eles.
Ele entrou na capela carregando as ferramentas necessárias para que pudessem levantar a pedra.
Sem dizer nenhuma palavra, Jacob estendeu ao conde um pé-de-cabra, e, juntos, tentaram levantar a pedra que Isabella indicara.
Estavam todos em silêncio. Apenas Jacob e o conde, retesando cada músculo de seus corpos, esforçavam-se para mover o que ali estava intocado havia mais de dois séculos.
Então, quando finalmente conseguiram empurrar a pedra para um lado, Isabella conteve a respiração.
Como se achasse que era um direito que só cabia ao conde, Jacob estendeu-lhe uma pá, e ele começou a cavar.
— Dois pés de profundidade — sussurrou Isabella, quase sem respirar. A terra escura era retirada de dentro do solo rapidamente, até que, ao
cavar mais fundo, o conde sentiu que batera em algo duro.
Ele pôs a pá de lado e ajoelhou-se, removendo a terra com as mãos, até poder agarrar o que ali estava enterrado.
A Isabella pareceu transcorrer uma eternidade até que o conde puxasse para fora alguma coisa.
Primeiro veio a terra e em seguida, o que deviam ser os restos de algum tecido com o qual o objeto havia sido coberto.
Sob os raios do sol que brilhava através da janela, todos puderam ver que se tratava de um cálice, todo trabalhado em ouro e cravejado de pedras preciosas.
Eram rubis enormes, esmeraldas, diamantes e pérolas, que já haviam perdido o brilho original.
Isabella notou que o conde olhava para aquele objeto como se não pudesse acreditar em seus olhos.
Afinal, cuidadosamente, ele pôs o cálice sobre um degrau do altar e enfiou a mão no buraco novamente.
Ao fazê-lo, Jacob disse:
— Acho melhor eu ir buscar o vigário, milorde. Na volta, chamarei Emmet e Jasper para que me ajudem a limpar um pouco este lugar.
E, sem esperar resposta, Jacob partiu. Ele já havia saído quando o conde retirou da terra escura um pote também de ouro e igualmente ornamentado com pedras preciosas. Colocando-o ao lado do cálice, ele pôs-se de pé.
— Você estava certa, minha querida! — exclamou ele. — Tudo de valioso que havia na capela deve estar escondido aqui. Só mesmo você poderia ter sido esperta o suficiente para descobri-lo!
— Isso tudo esperou por você durante todos estes anos — disse Isabella —, para que pudesse ser usado quando realmente fosse necessário... Não somente por você, mas pelas gerações que o seguirão.
O conde passou o braço ao redor dela.
— Nossos filhos e netos verão a casa como ela deve ser — disse ele suavemente.
O conde soltou um profundo suspiro, como se um pesado fardo tivesse sido retirado de seus ombros.
Então, olhando-a bem fundo, certos de que queriam um ao outro, ajoelharam-se lado a lado, em frente ao altar.
Cerca de três horas mais tarde, Isabella saía de seu quarto para ir encontrar-se com o conde.
Enquanto descia, pensava que ninguém poderia ter um casamento mais original e maravilhoso, sabendo que Deus os abençoara, confirmando seu mais ardente sonho.
Isabella estivera muito ocupada desde que haviam deixado a capela. O conde dissera:
— Vamos deixar o tesouro onde está até amanhã. Mais importante do que qualquer outra coisa no momento é que você se torne minha esposa.
E assim, ele a levou até seu quarto e colocou a licença especial sobre a mesa, para que a alterasse.
Meia hora mais tarde, Isabella começara a preocupar-se com sua aparência como noiva.
A princípio, desejara ter algo mais bonito para usar como vestido de casamento do que o vestido de gaze que trouxera, Para sua surpresa, no entanto, o conde lhe levara um vestido belíssimo, todo enfeitado com laços e de tecido fino como um véu, que havia sido usado por todas as noivas Cullen durante gerações.
Além disso, levara também uma caixa de couro, onde estava guardada
uma tiara de diamantes, que obviamente havia sido incluída no inventário, bem como todas as demais jóias destinadas ao futuro Conde Cullen.
Eram jóias valiosas e também de grande valor sentimental, que o conde sabiamente relutaria em vender, apesar de sua triste situação.
O conde colocara no dedo de Isabella uma aliança de casamento que pertencia à família desde os tempos de Charles II, e lhe dera um conjunto de colar, brinco e pulseira, todo de brilhantes.
Isabella o vira no retrato da condessa, que fora uma das mais belas mulheres na corte da rainha.
Quando finalmente ficou pronta, mal podia acreditar que não estava sonhando.
Naquele momento, descendo as escadas, não tinha dúvidas de que o conde era o herói de seus sonhos, e ainda mais maravilhoso do que imaginara ser possível.
— Eu o amo! — disse ela para si mesma e apressou-se, porque queria certificar-se mais uma vez de que ele era real.
Ao vê-lo, porém, ao pé da escada, à sua espera, Isabella não pôde deixar de admirá-lo novamente.
O conde estava usando roupas de noite, seu casaco comprido recoberto de condecorações e uma comenda presa ao pescoço por uma fita vermelha.
Ele não falou nada ao vê-la. Simplesmente olhou-a, com tal expressão apaixonada que confirmou para Isabella que só o que importava era que estivessem juntos.
Ainda em silêncio, o conde tomou-lhe a mão, e assim caminharam, calma e lentamente, ao longo do corredor que conduzia à capela.
O vigário da paróquia da vila, que também desempenhava o papel de capelão do Conde Cullen, por tradição, já os esperava.
Quando entraram na capela, o primeiro pensamento de Isabella foi que só mesmo Jacob poderia tê-la transformado tão rapidamente.
O sol havia muito que se escondera no horizonte, mas o céu ainda brilhava lá fora.
O altar estava banhado pela luz de muitas velas, cujo fulgor não deixava ver nenhum vestígio algum de poeira ou da degradação existente na capela.
Emmet e Jasper deviam ter apanhado todas as flores do jardim para enfeitar a capela.
A pedra fora devolvida ao seu lugar, e havia um tapete vermelho
cobrindo-a, que chegava quase até a porta da capela.
Quando Isabella e o conde se ajoelharam em frente ao altar, fizeram-no sobre riquezas suficientes para fazê-los sentirem-se iguais.
Ao mesmo tempo, Isabella sabia que agora poderiam reformar toda a casa e deixá-la em ordem novamente. Poderiam ainda voltar a dar assistência aos diversos asilos de velhos e pensões da vila, como os antigos condes já o tinham feito.
O conde pôs a aliança que pertencera a sua mãe no dedo de Isabella, e eles se ajoelharam enquanto o capelão os abençoava.
Isabella, de todo o coração, queria dedicar sua vida ao marido e aos filhos, por isso, pediu a Deus que eles sempre a amassem.
Também seria eternamente grata a São Judas, por tê-la salvado de casar-se com um homem a quem tanto odiava.
— Obrigada, muito obrigada — disse ela baixinho. Daquele dia em diante, São Judas seria um santo especial, não somente para ela, como também para o conde e seus filhos. Quando puseram-se em pé, o conde tomou-lhe as mãos e beijou-lhe os lábios.
— Minha esposa! — exclamou ele docemente.
A convite do conde, o vigário os acompanhou até a sala de estar, onde bebeu um copo de vinho à saúde dos noivos, e então voltou para a vila.
Tão logo se viram sozinhos, o conde disse:
— Estamos casados há um bom tempo, minha querida, e eu ainda não a beijei! Isabella ergueu os lábios, oferecendo-os, sorrindo ainda com a brincadeira.
— Beije-me então — pediu ela. — Eu não sabia, até a noite passada, que um beijo podia ser tão... maravilhoso.
O conde beijou-a então, e da sentiu seu corpo em harmonia com o dele, como se fosse impossível separá-los, dali para a frente.
Quando afinal se afastaram, Jacob entrou e disse1: — O jantar está servido, milady!
Isabella corou imediatamente, pois era a primeira vez que era tratada como uma condessa.
Dirigiram-se para a sala de jantar de mãos dadas e descobriram que Jacob estivera muito ocupado preparando-lhes uma surpresa.
A mesa fora decorada com flores brancas, e a comida era simples, mas divina.
— Amanhã — disse o conde — poderemos começar a pensar em quantas pessoas precisaremos na casa para nos servir.
Isabella riu.
— Acho melhor deixar isso por conta de Jacob. Ele vai gostar de cuidar dos negócios domésticos, enquanto nós cuidaremos de redecorar os quartos e as salas da casa.
O conde estendeu a mão e Isabella prontamente a segurou.
— Por enquanto — disse ele — não consigo pensar em nada, a não ser no quanto eu a amo!
— Como é bom ouvir isso! — respondeu ela, sorrindo. — Ao mesmo tempo, existem tantas coisas que podemos fazer juntos! Uma delas, por exemplo, é ampliar seu zoológico.
— Eu bem que já tinha pensado nisso! — admitiu o conde.
— Nós vamos transformá-lo no melhor zoo particular do país! — prometeu Isabella.
Ela fez uma pausa, e, olhando timidamente para seu marido, disse:
— Talvez possamos até mesmo... encontrar pessoalmente alguns animais para trazermos para cá...
— Você está dizendo... que gostaria de viajar por outros países? — Oh, seria tão maravilhoso se pudéssemos fazê-lo!
— Pois então nós o faremos — disse ele. — Mas primeiro temos de transformar isto em um bom lugar para se voltar, e nos certificarmos de que as pessoas que vierem para cá não vão sofrer mais, como tem acontecido desde que deixei a casa aos cuidados de Aro.
— Não pense mais nele! Não devemos ficar falando sobre isso! O conde sorriu, antes de dizer calmamente:
— Talvez, de alguma forma estranha e contraditória, tenha sido por causa dele que você entrou em minha vida.
— Isso é verdade — concordou Isabella —, pois, se eu não tivesse visto a tenda armada e o tigre sendo conduzido de volta à sua jaula, teria apenas olhado para a casa a distância e continuado meu caminho.
— Foi o destino — replicou o conde. — Quando você entrou na tenda, eu achei que não só era a mulher mais bela que já vira, mas também senti instintivamente dentro do meu ser que você significaria algo de muito especial para mim.
— Eu senti o mesmo — disse Isabella —, mas não consegui expressá-lo em palavras. Só sabia... que não queria mais deixá-lo.
Os dedos do conde pressionaram levemente os dela.
— Isso é algo que você nunca mais terá de fazer. Seus olhares se encontraram e, depois de um momento, ele continuou:
— Venha, meu amor. Quero estar mais próximo de você do que podemos ficar aqui, e ninguém se surpreenderá se formos para a cama cedo.
Isabella riu.
Subiram as escadas com os braços ao redor um do outro.
Percebendo que seu quarto estava às escuras, Isabella logo deduziu que dormiria, a partir daquela noite, no quarto do conde, que, agora também era o seu.
Aquele cômodo também estava precisando de pintura, novas cortinas e outro tapete.
Ainda assim, à luz das velas, era um lugar impressionante, com sua enorme cama de quatro pilastras e o veludo vermelho caindo sobre o colchão.
Novamente, fora Jacob quem providenciara as flores que perfumavam o quarto com sua deliciosa fragrância.
Isabella foi até a janela, para afastar as cortinas.
As estrelas cintilavam como diamantes no céu, e o luar mais tarde invadiu o quarto com sua luz prateada.
Isabella moveu-se um pouco mais para perto do conde e pousou os lábios sobre o ombro dele.
— Eu te amo! — ela cochichou.
— Tem certeza disso? — perguntou ele. — Eu não a machuquei nem assustei, querida?
— Sinto-me como se você tivesse me levado pelos portões do paraíso! Nào sabia que poderia experimentar tamanho êxtase e continuar viva ainda!
O conde soltou um gostoso suspiro.
— Eu te adoro! — disse ele. — Como é possível que eu tenha tido tamanha sorte em te encontrar no exato momento em que mais precisava de você? Estava tão desesperado, quase desejava que uma bala me matasse!
Isabella gentilmente o repreendeu, levando os dedos aos lábios dele: — Como pode dizer algo tão... duro e tão errado?
— Você mudou tudo — continuou o conde. — Só em sonho ou num conto de fadas nós poderíamos nos conhecer por meio de um circo!
— Um circo de amor! — exclamou Isabella, risonha. — Você o organizou porque amava seus animais. Então, quando foi gentil comigo e me convidou para ficar aqui, naquela noite, creio que, embora nós ainda não soubéssemos, também foi por amor!
O conde abraçou-a mais forte, e assim, Isabella prosseguiu:
— Eu queria ajudá-lo. Tinha certeza de que devia haver algo na casa que não estivesse vinculado ao testamento, e que iria permitir-lhe viver como
você merecia. Foi o amor que me fez rezar a São Judas.
Os lábios do conde estavam sobre a fronte dela, beijando lhe docemente a pele macia.
— Foi o amor que a conduziu ao tesouro que está enterrado na capela — disse ele —, e foi o amor também que me deu um tesouro maior, que me pertencerá para toda a eternidade, que nunca vou perder c que ninguém poderá roubar de mim!
— Sou sua — disse Isabella. — Já não temo mais ser forçada a me casar com alguém como sir James Leith!
— Esqueça-o! — pediu o conde. — Mais uma vez por obra do destino, ele foi o responsável por sua fuga e trouxe-a até mim.
Isabella deu uma pequena risada.
— É verdade! A vida é mesmo um circo, e, a seu modo, muito excitante!
— Isso é o que você é — emendou o conde delicadamente. — Você me excita a ponto de eu quase enlouquecer! Ao mesmo tempo, minha preciosidade, eu te adoro! Você é a pessoa que eu sempre quis por esposa, mas pensava que nunca fosse encontrar.
Isabella escondeu o rosto no peito dele.
Então, com a voz baixa a ponto de ele mal ouvi-la, disse:
— Eu não sabia... que fazer amor era tão maravilhoso. Você acha que... já me deu um bebê?
O conde sorriu.
— Talvez sim, talvez não, mas, é claro, sempre podemos tentar novamente, para ter certeza!
E mais uma vez seus lábios cobriram os dela.
Sentindo que uma emoção louca crescia dentro dela, Isabella levantou a cabeça para beijá-lo mais apaixonadamente, sabendo que aquilo o excitava.
"Eu te amo! Eu te amo"! Ela queria dizer, mas o conde a estava levando em um raio de luar para os mais altos céus.
As estrelas estavam agora em volta deles, e, à medida que Isabella via crescer seu arrebatamento, era como se elas tomassem conta de sua mente, corpo e coração.
Atravessara o perigo, o desastre e o medo para, afinal, encontrar o conde. Agora estava a salvo, nos braços do homem que amava.
— Eu te quero tanto — disse o conde com a voz rouca. — Vamos, entregue-se a mim, meu amor. Quero saber que a tenho completamente.
— Eu sou sua... totalmente sua — sussurrou Isabella. — Por favor...me ame.
Então,enquanto ele a levava aos céus, Isabella teve certeza de que o amor deles vinhade Deus era parte de Deus, e seria deles por toda a eternidade.