AVISOS: Esse capítulo, assim como todos os outros, contém assuntos sensíveis como morte e violência explícita.
Definitivamente aquele ato seria muito mais perigoso há quase um mês atrás, mas as coisas escalaram tão rápido que literalmente qualquer um faria o mesmo que Minghao e se arrumaria com pressa para ir atrás de Junhui, depois do rapaz praticamente desaparecer.
Ainda estava morrendo de raiva do agiota e, honestamente, não fazia ideia de qual seria sua reação ao encontrá-lo cara a cara de novo, mas não conseguia suprimir a curiosidade sobre o que aconteceu depois que ele desmaiou. Não fazia ideia do potencial do rapaz, mas ele havia se mostrado um criminoso muito competente quando sumiu com as provas do crime e o cadáver de Kim Mingyu sem deixar nada além de uma simples pétala de girassol — e agora entendia como levaram mais de 10 anos para que as autoridades encontrassem o homem.
Hesitou um pouco, mas de repente percebeu que tudo o que estava acontecendo em sua vida era por causa de suas fugas e mentiras. Não fugiria de Wen Junhui. Não mentiria sobre querer saber o que ele fez com o corpo do fotógrafo. Se ele fosse lhe matar, talvez isso parasse sua onda de maldades e livrasse a cara de seus amigos, então não estava com medo. Faria o que precisava ser feito.
Pegou um táxi e disse o endereço do acastanhado, que acabou gravando na cabeça por não poder salvá-lo no celular ou escrevê-lo em lugar algum. Suas mãos estavam começando a ficar suadas e seus pés batiam no tapete do piso ritmadamente, evidenciando sua ansiedade, mas logo o veículo parou na frente do condomínio. Entregou algumas notas para o motorista e desceu, parando na frente do local.
O portão eletrônico estava aberto e isso fez Minghao questionar a segurança do ambiente, mas logo se esgueirou para dentro e se abaixou perto da guarita do vigia, esperando um novo momento de distração para correr na direção do elevador. Entrou e pressionou o décimo andar nos botões, respirando fundo.
A caixa metálica tremeu quando chegou no andar desejado e as portas se separaram, dando espaço para o rapaz sair e chegar no corredor. Seu dedo trêmulo pressionou a campainha e ele esperou, sem resposta.
— Wen Junhui, sou eu! — Gritou, fazendo careta ao soar mais alto do que deveria.
Se seus cálculos estavam certos, meia hora se passou desde que ele chegou no local, o tempo total que passou apertando a campainha e chamando o nome do mais velho na frente de sua porta. Por um momento se sentiu burro de imaginar que um agiota que recém-matou uma pessoa teria tempo de ficar em casa dando mole, mas também não se culpava por ter tentado.
Havia se sentado no chão e estava brincando com seus dedos, entediado, já que não tinha mais um celular com internet — deu a sorte de conseguir um telefone flip descartável e dar seu número provisório para Jihoon, que quase teve uma síncope ao descobrir sobre Mingyu mas prometeu que não diria nada a ninguém até que tudo se resolvesse. Não sabia até quando teria que esperar, e isso lhe fez querer ir embora.
De repente a porta se abriu e fez o chinês dar um pulo, ficando em pé num movimento só e encarando a figura que sairia pela porta. Ajeitando a blusa e limpando o canto da boca, Joshua saiu de dentro do apartamento com os cabelos bagunçados. Ele fez contato visual com o ruivo e congelou por um momento, mas andou com pressa até o elevador depois de olhar o outro de cima a baixo e fechou a porta o mais rápido possível, deixando o outro confuso.
— Veio me ver?
Deu outro pulo de susto quando ouviu a voz repentina de Junhui, mas logo já estava avançando na direção do mais velho. Fechou a porta com um chute e prensou o outro contra a parede pelo pescoço, o enforcando enquanto encarava o fundo de seus olhos.
— Cadê o Mingyu? — Perguntou, recebendo uma risadinha como resposta. — Me diz agora!
— No México, quem sabe. — Junhui debochou, fazendo o aperto em seu pescoço se intensificar e um som estranho e sufocado escapar de seus lábios.
— Aonde ele está?! — Insistiu na pergunta, sentindo suas unhas cravarem na pele alheia.
— E-Eu te fiz um favor...! — Riu sem fôlego, com lágrimas se acumulando nos olhos. — C-Com ele fora da jogada, ninguém mais v-vai saber do seu passado sujo... — Grunhiu, ainda sorrindo. — Seungcheol t-tem seus próprios problemas, a-acabou.
Minghao estava disposto a fazer mais perguntas, mas de repente seu telefone tocou no bolso. Se viu forçado a soltar o acastanhado no chão e assistiu com satisfação seu corpo tombar no chão de joelhos, uma fina linha de saliva pingando no chão enquanto a boca aberta do outro puxava o ar com pressa, antes de atender a ligação.
— Alô?
— O Soonyoung tá dormindo no meu sofá e sangrou em um dos meus cobertores.
— Quê? — Arregalou os olhos. — Como assim? O Soonyoung, na sua casa?
— Ele tomou um tiro e descobriu que tem um policial novo na área. Outros três traficantes locais foram presos. Tá osso. — Jihoon disse, parecendo entediado no outro lado da linha. — Resolvi que quero me tornar uma pessoa melhor e resolvi fazer essa caridade, já que o aluguel dele são 15.720,80 ienes e maconha grátis.
— Isso é bom...? Eu sempre jurei que você tentaria acabar com o Soonyoung se estivessem no mesmo ambiente, é meio surreal saber que vocês estão morando juntos.
— Nem eu tô acreditando, mas acho que é hora de seguir em frente. Ele me livrou da cadeia e sumiu da minha vida quando eu pedi, não tenho mais motivo pra ter raiva dele. — Admitiu, ficando em silêncio por alguns segundos. — Esse é o pior. — Ambos riram. — Eu também fiz amizade com o seu secretário. Achei que, sei lá, ele ia ficar desconfiado, achando que eu ia transar com o Soonyoung enquanto ele não tivesse aqui, mas no final das contas nós dois dividimos um beck juntos ontem e ele é bem maneiro. Acho que ele foi com a minha cara, ou só finge muito bem.
— Ele é tranquilo, relaxa. Aposto que vocês vão se dar muito mais ao longo do tempo.
— Tomara, já não basta eu odiar um. — Jihoon murmurou, parecendo se lembrar de um detalhe importante. — Olha, o Soonyoung disse que quem deu um tiro nele foi um tal de Seungcheol. O cara também é policial. — O nome fez Minghao engolir em seco. — Então vê se fica longe, ok? Não quero que você seja preso por transar.
— Eu vou, relaxa. Tenho que desligar.
— Tchau.
Quando voltou a atenção para o traficante, percebeu que ele ficou sentado o tempo inteiro prestando atenção na conversa e o encarando. Suspirou e massageou as têmporas, fechando o telefone e mordendo o lábio inferior.
— Olha, acabei de descobrir que uma pessoa próxima foi baleada pelo Seungcheol em Kabukicho, e que tem mais um policial na área. Três pessoas foram presas. — Engoliu em seco, coçando a nuca. — Bem... Toma cuidado.
— Você quem precisa, eu já sei me cuidar. — Junhui piscou. — Que tal você ir? Eu já limpei sua barra, sabe como foi difícil limpar tudo? Me retribui indo embora, tô cansadão.
Sem retrucar, Minghao saiu do apartamento do agiota e entrou no elevador, respirando fundo enquanto esfregava o rosto; todos os encontros com Wen Junhui eram estressantes ao extremo, mesmo quando o rapaz nem estava fazendo nada. Mesmo que estivessem em bons termos, ele ainda era um psicopata e basicamente era a razão de sua vida estar arruinada, então não eram os simples favores que o rapaz estava lhe fazendo que iam apagar o passado.
Resolveu voltar andando para organizar os pensamentos e suspirou, já sentindo sua mente lhe torturar. Odiava Mingyu com todas as suas forças, mas desde que o rapaz morreu o mais novo se viu pensando nos bons momentos que tiveram e no quão duro foi com ele.
O fotógrafo era um completo canalha e isso era inegável, mas no final das contas, ambos eram bem parecidos. Minghao estava sofrendo as consequências de ter deixado terceiros se aproveitarem de sua fragilidade da mesma forma que Mingyu acabou morto por deixar que seus sentimentos fossem usados em prol da maldade. Ele não era flor que se cheire e merecia a solidão na qual se enfiou, mas ele era uma das maiores vítimas de toda aquela trama e não merecia aquele fim.
As lágrimas pinicaram seus olhos e o ruivo mordeu o lábio inferior com força, deixando-as rolar sem tentar impedir; chorar era algo que havia feito muito naqueles dois dias que se passaram. Estava distraído quando de repente foi puxado pela manga da camisa, sendo prensado em um carro. Gemeu de dor, arregalando os olhos quando sua visão se focou.
Com a boca cortada e um roxo no olho, Seungcheol estava deplorável. Seus olhos estavam com olheiras fundas e haviam curativos por todo o seu rosto, fruto da discussão com seu parceiro de equipe. Seus lábios tremeram e se abriram em um sorriso perturbador.
— Finalmente... finalmente, eu tenho você! — Murmurou entredentes, com lágrimas caindo de seus olhos arregalados; ele já não tinha mais humanidade. — Finalmente te encontrei, Xu Minghao. Eu demorei a te encontrar, mas agora, eu tenho você bem aqui... Eu vou te entregar e você vai se arrepender de ter me atrapalhado!
De repente a mão do homem entrou em sua calça e tirou de lá sua arma policial, fazendo o ruivo arregalar os olhos e começar a tremer. O cano encostou em sua testa e pressionou ali, enquanto o olhar maníaco do outro perfurava o seu.
— Entra no carro. — Ordenou, sem resposta. — Agora! — Gritou, fazendo o outro se encolher.
O homem usou de sua estatura para puxar o corpo magro do escritor com violência e o desencostar da porta, abrindo-a pelo lado do motorista. Começou a forçar o rapaz para dentro do veículo sem o mínimo de cuidado, vendo-o espernear e gritar em resposta. Tomou um chute no peito e, em resposta, socou o rosto do chinês, que gritou de dor.
Minghao parou de espernear de repente quando teve a arma apontada para si de novo e encostou na janela, pálido como se tivesse visto um fantasma. O policial sorriu, ao pensar que era o motivo do medo alheio, mas uma sombra se projetou atrás de si de repente.
Se virou justamente quando Junhui ergueu a enorme pedra com as duas mãos, descendo o objeto com força na cabeça do mais velho. Seu corpo robusto tombou no pavimento da calçada e começou a convulsionar, com sangue escorrendo de seus cabelos sujos enquanto suas pernas chutavam para todas as direções. Seus olhos se reviraram para dentro da órbita e o agiota jogou a pedra melada de sangue na lixeira quando viu que o oficial começou a espumar, sabendo que ele ia morrer em questão de minutos, depois de tomar outro golpe que afundou seu crânio.
Estendendo a mão, Junhui ajudou Minghao a sair do carro, vendo que o rapaz estava em choque. O puxou pelo ombro quando o percebeu encarando o cadáver de Seungcheol caído na calçada, com o sangue escorrendo para dentro de um bueiro boca-de-lobo no acostamento, fazendo o rapaz caminhar consigo de volta. Foi uma boa ideia espiar pela varanda, podendo enxergar o policial no carro seguindo o escritor indiscretamente.
O caminho até o apartamento do mais velho foi silencioso e ele até considerou a ideia do outro estar em completo estado de choque pela morte, mas ao menos ele se movia e respondia aos comandos. O deixou sentado no sofá e voltou com um kit médico, começando a limpar o nariz do rapaz com um pano molhado. Notou que ele estava inquieto, algo comum mas não adequado para o momento.
— Por quê? — O mais novo murmurou baixinho de repente.
— Por que o que?
— Por que você sempre vem me salvar? — Deixou algumas lágrimas rolarem, mas eram de pura confusão. — Achei que quisesse que eu morresse.
Junhui crispou os lábios e riu, usando o mesmo pano molhado para secar as lágrimas do ruivo. Começou a fazer um curativo em seu lábio inferior, pensando exatamente no que responderia ao rapaz.
— Não pense que eu tô tentando me redimir. Eu sou um tralha incorrigível e isso não vai mudar. Você ainda me deve minha grana. — Murmurou, espalhando a pomada na ferida com a ponta do dedo. — Mas apesar de você merecer ser perseguido por mim, você não tem nada a ver com os outros. Não é justo. Nenhum deles tem motivo pra te odiar, e mesmo assim já é a segunda vez que alguém tenta algo contra você. — Riu baixinho, negando com a cabeça. — Pra mim, você ainda é aquele moleque sem futuro que eu conheci. O que você andou aprontando eu não sei, ruivinho, mas o único que tem moral pra te cobrar nessa história sou eu. E eu não vou deixar nada acontecer até eu receber minha grana.
Sabia que Junhui estava sendo honesto quando dizia que não estava sendo bonzinho ou tendo pena de si, já que ainda era um devedor, mas ouvir aquelas palavras reconfortantes fizeram Minghao se debulhar em lágrimas, enterrando o rosto entre as mãos. Sem saber o que fazer, o mais velho apenas envolveu seu corpo num abraço desajeitado.
Ambos ficaram naquela mesma posição até que o ruivo parou de chorar, secando suas lágrimas com a manga da camisa. O mais alto o ergueu e o levou até seu quarto, que era incrivelmente claro e organizado. Ajudou o rapaz a se deitar e então sentou na beirada da cama, abraçando suas pernas.
— Se algum dia você voltar pra China... — Junhui murmurou, chamando a atenção do mais novo. — Deveria provar a sopa do senhor Ubon. Ele tem uma barraquinha agora.
— Com cabelo na sopa? — Minghao perguntou, sorrindo fraquinho.
— Com cabelo na sopa. — Sorriu de volta.