Cap 74
Por Maya
A Alana sempre foi parte da minha vida,uma parte complicada,uma história mal resolvida e que me machucava muito. Foi um grande alívio poder desabafar,colocar para fora todos os sentimentos que escondi por anos e fazer as pazes,perdoar e ser perdoada. Agora sinto que posso seguir meu caminho em paz.
Uma das razões que me fez voltar a Baviera foi a minha irmã,foi a vontade de colocar um ponto final nessa rivalidade ou então romper de vez as ligações com ela. Outra foi meu pai, foi a ânsia por respostas,para saber a razão por ele me odiar tanto e,agora que já sei,não tenho mais o porquê me aproximar dele. Já o Colin,bem,nossa história está resolvida há meses,não acho que podemos superar tudo o que foi dito e ficar juntos,não depois de tantas demonstrações de afeto dele a Alana. Por tanto,não existe mais nada que me prenda aqui.
Voltei para casa decidida a tomar um rumo,a pegar minhas coisas e ir para o meu lugar no mundo,a minha tão amada mansão Richter em Paris,na França.
Tirei as malas do closet,me sentei no chão e comecei a dobrar minhas roupas. Quero levar o máximo de coisas que puder,a maioria das minhas roupas,acessórios e jóias,depois peço para alguém enviar o resto. Também tenho que pegar os portfólios no ateliê,pedir para as costureiras terminarem os vestidos que ainda não estão prontos e enviar os que já estão.
Terminei uma mala,peguei outra e já estava na metade quando ouvi alguém batendo na porta do quarto. Ia me levantar para abrir mas nem precisei,minha mãe me encontrou antes e ficou chocada com o que viu.
Catharina : o que é isso,Maya? O que significa todas essas malas? - ela questiona surpresa.
Maya : eu resolvi voltar para Paris. Não tenho mais nada que me prenda aqui e nunca gostei desse lugar - explico.
Catharina : e decidiu assim do nada? Está fazendo as malas e depois? Ia embora sem falar nada como fez ontem no baile? O que está acontecendo com você,Maya? - ela me enche de questionamentos,está preocupada e brava.
Maya : eu planejava contar mais tarde,depois de conversar com as costureiras e comprar a passagem - respondo.
Catharina : por que decidiu ir embora? O que aconteceu? - ela insiste.
Maya : eu aprendi que não posso curar uma ferida ficando no mesmo lugar que me feri - falo sem entrar em detalhes,não acho que consigo conversar sobre minha paternidade,o Guzman,o Colin e a Alana agora,estou agitada e abalada demais.
Catharina : o Guzman fez alguma coisa com você? Ele esteve aqui mais cedo,disse que vocês discutiram e que precisa se desculpar - ela conta.
Maya : nós discutimos sim mas não è por isso que vou embora. Eu preciso voltar para casa e viver a minha vida,preciso sair desse lugar - desabafo.
Catharina : eu entendo que você esteja triste e confusa por tudo o vem acontecendo…
Maya : mãe,eu sei o que estou fazendo. Pela primeira vez desde que acordei consigo ver as coisas com clareza,consigo tomar minhas decisões baseadas no que preciso,no que sei e no que sinto ao invés de saber tudo pelos olhos de outras pessoas - explico.
Catharina : mas,minha boneca…
Maya : mãe,por favor,não complica as coisas. Eu juro que pensei muito antes de decidir,sei o que estou fazendo e preciso desse tempo - interrompo antes que ela tente me convencer a ficar.
Catharina : você não pode esperar o divórcio sair? Eu vou ficar mais segura se você não estiver sozinha - ela cede.
Maya : não dá,eu tenho que passar um tempo sozinha e sei que vai ser melhor assim. Vou ficar bem. Prometo - respondo da forma mais sincera que consigo agora.
Catharina : e suas crises de ansiedade? Você não precisa passar por isso sozinha,boneca - ela insiste,está preocupada.
Maya : passei seis meses sem ter uma crise, elas só voltaram quando eu voltei pra cá e sei me virar caso tenha uma. Você não precisa se preocupar - garanto.
Catharina : eu sou sua mãe,Maya. Sempre vou me preocupar com você - ela declara com ternura e firmeza.
Maya : eu não estou bem aqui,mãe. Preciso ir embora,tenho que seguir minha vida e sei que você vai para Paris assim que o divórcio sair, sei que a tia Camille e o Victor também vão, não vou ficar sozinha por muito tempo - tento tranquilizá-la.
Catharina : ninguém nunca consegue te fazer mudar de ideia,não é? - minha mãe pergunta com um misto de tristeza,preocupação e orgulho.
Maya : sou teimosa como uma Richter - falo com orgulho e faço ela sorrir de lado.
Catharina : eu te ajudo a fazer as malas e a organizar as coisas mas quero que me conte o que aconteceu entre você e o Guzman - ela propõe.
Maya : está me chantageando? - questiono com humor.
Catharina : eu sou sua mãe,sei que você não está bem e não vou te deixar ir para Paris,pra longe de mim,sem ter certeza absoluta que está fazendo isso por você,só por você - ela fala com firmeza e coloca ênfase no final da frase.
Respiro fundo,chamo ela para se sentar ao meu lado e conto tudo sobre a noite com o Guzman,a briga com o Colin e a reconciliação com a Alana,a única coisa que não revelo é que ouvi sua conversa com o Victor e que sei que o Tobias não è meu pai.
Ainda estou magoada com minha mãe,muito triste e chateada por todas as mentiras dela, mas confio na dona Catharina mais do que em mim mesma e,agora que estou mais calma e pensando com mais clareza,sei que se ela não me contou a verdade é porque acredita que essa era a única forma de me proteger e porque tem suas razões. Ela é minha melhor amiga,é minha pessoa preferida em todo o mundo e não posso ir embora sem falar com ela,sem dar satisfações.
Minha cabeça e meu coração estão fora de controle,cada um defendendo o que acredita, lutando pelo que acha certo,só tem uma coisa que eles concordam: eu preciso me afastar de tudo e todos,preciso priorizar minha saúde e focar em mim.
Agora não existe mais aliança,não tenho mais um namorado,não tenho mais um amante ou quase namorado,não estou mais brigada com minha irmã e meu pai não è quem pensei que era,posso ir embora com a consciência limpa e sabendo que fiz o que è certo pra mim.
Minha mãe me ajudou a fazer as malas,minha tia me ajudou a organizar as entregas dos vestidos e ficou encarregada de supervisionar as coistireias,o Victor vai enviar o resto das minhas coisas ainda nesta semana e comprei uma passagem para amanhã no fim da manhã.
Quando terminei de organizar tudo já era de noite,meu celular estava com vinte ligações perdidas do Guzman e quinze mensagens pedindo para conversarmos,sorte que ele parou me perturbar quando percebeu que não vou responder.
Tomei um longo banho de banheira com meus sais preferidos para relaxar,tomei os remédios que a psiquiatra receitou,passei meus cremes e coloquei uma lingerie rosa com aplicações de renda branca. O sutiã è tipo cropped,bem recortado e realça os seios e a parte de baixo è um shortinho no mesmo tecido e cor,curto e soltinho. Me deitei na cama e coloquei Grey's Anatomy na Netflix.
Tentei assistir alguns episódios mas não pude me concentrar,não consegui prestar atenção porque minha cabeça está rodando com tudo o que descobri hoje. Eu estou inquieta e muito ansiosa.
Descobri o caso da minha mãe com o Victor quando tinha doze anos. Era meu aniversário e eu queria mostrar o vestido que tinha feito para usar na festa,fui procurar minha mãe e vi ela aos beijos com o mordomo no escritório da casa na Suíça. Na hora eu fiquei chocada, nunca tinha visto minha mãe beijando alguém e ela era casada,mas depois,quando estava na festa,vi as trocas de olhares deles,o clima alegre e os sorrisos de lado. Eu não podia estragar a felicidade dela e decidi não contar nada pra ninguém.
Flagrei os dois muitas outras vezes,sempre com beijos no meio do dia,encontros na calada da noite e presentes misteriosos que nunca tinham o nome de quem mandou. Mas eu sabia,eu sempre soube e,apesar de adorar o Victor,apoiar o relacionamento dos dois,eu nunca imaginei que ele poderia ser meu pai.
Me sinto tão burra agora,tão ingênua. É tão fácil me enganar,tão fácil que minha mãe fez isso a vida toda e eu nem desconfiei,o Colin fez isso quando me pediu perdão e eu aceitei, o Guzman fez quando não me contou que a mulher que ele ama è a Alana e eu ainda dormi com ele e,pior,alguém muito próximo tentou me matar,me envenenou embaixo do meu nariz e até agora eu não sei quem foi. Se não sou burra então sou a pessoa mais azarada de todos os tempos.
Isso é tão difícil e irracional. As pessoas me fazem mal,mentem pra mim e,ao invés de perder a confiança nelas,eu perco em mim, começo a questionar minhas decisões,pensar se estou sendo enganada por mais alguém e, se estou,quem è essa pessoa. Parece que é a minha vida que está errada,que è o meu julgamento que está prejudicado.
Será que minha mãe e o Victor eram amantes antes dela se casar? Será que ele nunca quis me assumir? Será que o Colin nunca gostou de mim de verdade? Será que o Guzman realmente sentiu prazer comigo ou só passou o tempo todo imaginando a Alana no meu lugar? São tantas dúvidas,tantas aflições e eu não tenho coragem de revelar nenhuma delas,não acho que consigo sofrer mais uma decepção e continuar sã.
Alguém bate na porta e me arranca dos meus devaneios. Ela não espera resposta e entra logo em seguida,me encara com curiosidade e ternura.
Camille : você me contou o que aconteceu ontem a noite e nesta manhã,foi sincera o tempo todo e não falou nada sobre ir para Paris. O que aconteceu nesse meio tempo, Maya? O que de tão ruim aconteceu para te levar a tomar uma decisão tão radical? - ela pergunta com preocupação.
Confesso que não fico surpresa com a sua pergunta,já estava esperando ela a muito tempo,mas fico surpresa com a vontade que tenho de falar com ela,de desabafar não para saber a verdade mas para ter alguém que me aconselhe,que me dê colo.
Minha tia sempre foi uma ótima confidente,é minha segunda mãe e esteve ao meu lado em situações em que minha mãe não teve forças para me proteger. Ela lutou por mim,encarou o Tobias e,por ela,por sua coragem,eu não fiquei a vida toda presa em Baviera.
Maya : fecha a porta - peço e ela acata de imediato.
Camille : sua mãe está no quarto,ela não vai nos interromper - ela garante e vem se sentar na minha cama.
Maya : e o Victor? - questiono.
Camille : já se recolheu - ela responde meio desconfiada.
Maya : você saiu depois que conversamos e eu fui atrás da minha mãe para contar que já tinha voltado. Ela ainda estava discutindo com o Victor e eu acabei escutando uma coisa que me deixou muito perturbada - me esforço para me explicar,tento encontrar um jeito de falar e opto por contar desde o início.
Camille : Maya,a Catharina te ama mais do que qualquer outra coisa no mundo,ela é a mãe mais dedicada e amorosa que já vi em toda minha vida. Tenho certeza que,se ela disse algo que te magoou,foi porque estava preocupada - ela argumenta.
Maya : ela e o Victor estavam falando sobre eu ter passado a noite com o Guzman. Ele estava alterado,parecia preocupado com a minha virgindade e com minha imagem,falou de um jeito tão grosseiro com ela que eu só não entrei na sala porque ele disse uma coisa que me paralisou no lugar - continuo.
Camille : o que ele falou? - ela questiona com curiosidade e preocupação.
Maya : ele me chamou de filha - conto por fim.
Camille : só isso? Deve ter sido uma forma de falar,da boca para fora…
Maya : minha mãe repreendeu ele,mandou o Victor falar baixo porque não queria que eu soubesse de tudo - explico.
Camille : de tudo o que? - ela pergunta com receio,tem medo do que vou falar e me deixa mais desconfiada sobre o que ela sabe.
Maya : que o Tobias não è meu pai biológico, que eles mentiram pra mim a vida toda e que meu pai de verdade estava ao meu lado esse tempo todo,servindo cafezinho e cuidando da casa - respondo com raiva,com indignação.
Muitos sentimentos passam pelo rosto da tia Camille. Primeiro ela fica em choque,depois assustada,aí seu olhar fica mais ameno e ela parece ter pena de alguém,só não sei se é de mim,da minha mãe ou do Victor.
Camille : então é verdade - ela sussurra pra si mesma.
Maya : você sabia disso? - questiono brava e me afasto do seu toque.
Camille : eu nunca tive certeza,a Catharina só contou para nossa mãe. Eu desconfiei,sabia do caso dela com o Victor,da paixão deles e do desprezo dela pelo Tobias…
Maya : então por que ela não se separou? - pergunto angustiada.
Camille : foi uma época complicada. A Alana estava tão abalada que era de dar dó e sua mãe queria protegê-la. Nossa família estava sofrendo ameaças porque meu pai colocou em votação uma lei que protegia mulheres que sofriam violência sexual,uma lei que ia acabar com muitos bordéis,com a fonte de dinheiro de muita gente poderosa…
Maya : então ela não contou para não abalar a imagem da família,porque ter uma filha com o mordomo seria um escândalo - constato.
Camille : eu não sei,Maya. Sua mãe estava distante nessa época,quase ninguém sabia o que acontecia dentro daquela mansão e ela estava tão abatida que eu não fiz perguntas, só apoiei no que pude - minha tia se apressa em se explicar.
Maya : tem alguma coisa muito errada nisso tudo,desde minha mãe ter aceitado se casar até ter uma filha com outro homem. Ela não é assim,tia - expresso minha opinião atrás de qualquer pista do que possa ter acontecido de verdade.
Camille : eu também nunca consegui engolir esse casamento,o Tobias é tudo o que sua mãe sempre odiou - ela comenta.
Maya : acho que tem mais caveiras nesse armário - declaro com convicção.
Camille : e por que não fala com ela? Por que não coloca ela e o Victor contra a parede? - ela pergunta com curiosidade.
Maya : porque eu só quero ir embora daqui e não vou conseguir se minha mãe começar a pensar que estou agindo por impulso,que não estou pensando direito - respondo.
Camille : e está? Você teve um dia cheio de decepções amorosas,descobriu que seu pai não é seu pai,que seu mordomo é seu pai e fez as pazes com a Alana…
Maya : não foi ruim ter feito as pazes com a Alana - interrompo sua fala.
Camille : não é ruim mas é estressante,exigiu muito autocontrole,trouxe de volta mágoas antigas e...perdoar não é fácil,Maya - minha tia explica.
Maya : eu não sei como estou tão calma,não tenho ideia do porque não estou no meio de um surto agora. Acho que deve ser por causa dos remédios ou eu já enlouqueci de vez - respondo sua pergunta inicial.
Camille : bom,eu tenho outra teoria - ela fala com preocupação.
Maya : que eu já provei todos os tipos de decepções que existem e nada mais me abala? - sugiro.
Camille : você está fugindo,está com medo de encarar sua mãe,o Guzman,o Colin e o Tobias então resolveu ir embora,escolheu o caminho mais fácil - ela declara com tanta convicção que me abala,toca na ferida.
Maya : esse não è o caminho mais fácil,tia. Eu estou enlouquecendo com as dúvidas e todas essas novidades,com tudo o que ouvi e presenciei hoje - confesso.
Camille : então fica,Maya. Conversa com sua mãe,coloca ela e o Victor contra a parede e tira todas as suas dúvidas,chama o Colin e o Guzman para conversar e grita,xinga eles,só coloca a raiva pra fora - ela aconselha.
Maya : não dá,eu não posso me descontrolar, não posso desabar porque não consigo mais me levantar,estou exausta e preciso de um tempo pra mim - desabafo e sinto meus olhos ardendo devido às lágrimas.
Camille : Maya,você está pagando um preço muito alto por ter passado tanto tempo fingindo estar no controle quando,na verdade, estava completamente perdida. Você precisa falar quando alguém te machuca,tem que tirar esse peso dos seus ombros,um peso que não é seu,não è sua responsabilidade - ela me encoraja a encarar meus demônios.
Maya : eu vou fazer isso,vou falar com minha mãe e perguntar tudo o que preciso mas não posso fazer isso agora,quero estar tranquila quando acontecer,quero ter pelo menos um pouco de equilíbrio,entende? - explico com sinceridade.
Camille : è claro que entendo,você passou por muita coisa e concordo que precisa de um tempo para cuidar de si mesma,mas pensa bem,Maya. Você gosta de liberdade,gosta de sentir que è dona de si mesma,mas não pode amar a liberdade e reprimir o que sente. Essa mágoa e essas dúvidas vão te perseguir até você colocar tudo para fora - ela declara com ternura e,apesar de saber que suas palavras são verdadeiras,que ela só quer meu bem,eu não estou pronta para ficar,não quero ficar.
As lágrimas rolando pelo meu rosto são um lembrete de que tudo dentro de mim está desabando,que meu coração ainda está em pedaços e meu psicológico está frágil como um cristal. Eu preciso sair daqui,tenho que ir embora de Baviera ou vou acabar morrendo nesse lugar.
Minha tia não fala mais nada,ela já deu sua opinião e seus conselhos,eu já escutei tudo e agora está na hora de me amparar,de me dar colo e ficar quietinha.
Ao contrário do que normalmente faço,não dou permissão para minha mente viajar por lembranças,não deixo meu coração gritar ou meus instintos dominarem,só abafo tudo e fico calada,quieta e chorosa no colo da minha tia.