A raposa e o lobo- Inicio

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Era uma vez, uma jovem raposa e um jovem lobo.
Eles se conheceram em uma breve reunião entre suas famílias — encontros formais e frios, cheios de olhares desconfiados — mas, naquele instante, algo mudou.

Desde aquele dia, passaram a se encontrar secretamente em um bosque iluminado por vaga-lumes, um lugar que chamaram de “o nosso lugar”.

Dois anos se passaram. O amor proibido floresceu, escondido sob o luar e o perfume das flores noturnas. Até que, em uma noite calma, a raposa apareceu com o olhar sereno e o coração palpitando.

— Eu... estou esperando um filhote.

O silêncio pesou entre eles. O lobo, tomado por um medo ancestral — o mesmo que corria nas veias de sua espécie — viu o mundo desabar.

— Não... isso não pode acontecer — murmurou, e então, tomado pelo desespero, atacou-a.

A jovem raposa tombou, e o lobo fugiu para muito longe, como se fugisse de si mesmo.

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— Mamãe... por que você nunca termina a história? — perguntou o garoto, deitado em sua cama, os olhos semicerrados de sono.

A mulher sorriu, acariciando seus cabelos.
— Talvez outro dia, filho. Agora você precisa dormir.

Ela se levantou do tapete e, com uma voz suave, murmurou:
— Oyasumi watashi no ai (“boa noite, meu amor”, em japonês).

— Oyasumi, mama (“boa noite, mãe”). — Ele se virou para o lado e adormeceu.

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TOC TOC TOC — três batidas na porta ecoaram no quarto.

— Ei, acorda! O café já está na mesa — chamou a voz feminina, alegre e firme.

— Já estou indo, mãe... — respondeu o garoto, ainda sonolento.

Ele se levantou, arrastando os pés até o banheiro. Parou diante do espelho, observando o próprio reflexo: olhos dourados, cansados, e uma expressão que oscilava entre curiosidade e dúvida.

Depois de lavar o rosto e escovar os dentes, abriu a porta.
— Bom dia — disse, com um sorriso leve.

Desceu as escadas sentindo o cheiro de pão quente e chá de ervas. Cumprimentou sua avó e as tias, que já estavam à mesa, e pegou uma maçã.

— Vai acabar se engasgando, cuidado — advertiu a mais velha, sentada à ponta da mesa.

Era senhora Tomiko, a avó de Fillipe. Apesar da idade avançada, aparentava não ter mais de trinta e cinco anos. Seu rosto irradiava serenidade — um presente de seus poderes Kitsune.

— Eu sei, vó, não se preocupe. É que hoje é o grande dia! — disse ele, vibrante. — Finalmente vou sair dos livros e começar a praticar!

— Nem pense em ir com tanta pressa — interveio Akemi, sua mãe, uma mulher de beleza etérea, com olhos que pareciam conter o próprio luar. — Você ainda não conhece a extensão dos seus poderes. Os elementos da natureza são sensíveis... e perigosamente instáveis. Antes de tudo, precisa descobrir qual é o seu.

Tomiko assentiu com um ar solene.
— Por isso existe o Gensō Shiken. O teste revela o tipo de raposa que você é e o elemento com o qual tem afinidade. É um rito sagrado que existe há mais de trinta mil anos — legado da primeira entre nós. Ela nos ensinou a dominar o caos da natureza e transformá-lo em equilíbrio.

A voz dela soava como um eco antigo.
— Vamos. Chegou a hora.

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O quintal se abria em um círculo de pedras rúnicas, antigas e cobertas de musgo. O vento soprava diferente ali — mais pesado, mais vivo.

— Fillipe, fique no centro — ordenou Tomiko.

O garoto se posicionou sobre a pedra maior, cruzando as pernas e fechando os olhos. Sentia o chão pulsar sob si, como um coração adormecido.

As mulheres começaram a entoar o cântico ancestral. As pedras responderam em uníssono, emitindo feixes de luz prateada. Uma aura surgiu ao redor do garoto, flutuando, dançando como chamas líquidas.

O ar vibrava.

Então — silêncio.

O esperado seria que uma única pedra brilhasse, revelando seu elemento.

Mas todas as pedras acenderam ao mesmo tempo. Uma luz cegante envolveu o círculo. O vento rugiu. E, num estalo, tudo se apagou.

Fillipe abriu os olhos.

O chão estava rachado. O ar cheirava a cinzas.

As pedras estavam partidas, e o quintal em chamas. As vozes haviam desaparecido.

— Vó...? Mãe...? — sussurrou.

Nenhuma resposta. Apenas o crepitar do fogo.

Ele correu, tropeçando entre destroços. Chamou, gritou — até que, ao descer para o porão, viu uma mão sob uma estante caída.

— Mãe! — Ele ergueu o móvel com toda a força. — Mãe, fala comigo!

Akemi abriu os olhos. Um fio de luz ainda pulsava em sua pele, mas se apagava rápido.
— Você está seguro agora... — disse com a voz fraca. — Eles pensam que você morreu. Não vão mais te caçar...

— Quem são eles? Por que fizeram isso com a gente?! — gritou Fillipe, chorando.

— Eles sabem como nos matar... cortaram nossas caudas e as levaram. Usei o que restava da minha força para proteger este lugar. — Ela ofegou, e então sorriu. — Agora... tudo é seu.

As palavras seguintes soaram como um sussurro que o mundo não merecia ouvir:
— Você é o último de nós... um Ten no Kitsune. O portador de todos os elementos. O elo entre o céu e a terra.

Sua pele começou a se ressecar, transformando-se em pó dourado que flutuava no ar. O corpo se desfez, e apenas o brilho de sua essência restou, subindo lentamente até desaparecer.

Fillipe permaneceu ajoelhado, as lágrimas caindo silenciosas. Fechou a porta do porão com um selo, murmurando as palavras que sua mãe o ensinara.

Ao subir, encontrou uma mulher — amiga da família — que o abraçou com força.

Lá fora, o som distante das sirenes se misturava ao vento. Bombeiros e policiais entraram na casa em ruínas, sem entender o que realmente havia acontecido.

Fillipe olhou para o céu, o brilho prateado ainda dançando em seus olhos.

Algo dentro dele havia despertado.

Lytsune- tempestadeStories to obsess over. Discover now