Capítulo 1 : Sonho

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Eu me vejo novamente presa dentro de um corpo, caminhando por um bonito e infinito jardim. Mas, no momento em que fui levada como uma brisa de encontro a esse corpo. Senti que havia algo de diferente, de uma forma que não sei explicar ele se move ao meu comando. E Pela primeira vez não há redemoinhos de pensamentos e sentimentos conflitantes ecoando na minha cabeça; há somente meus pensamentos. Em geral, eu sou arrastada para lugares nos quais sons de correntes e choros agonizantes reverberam, e em meio aos gritos ocos suplicantes que ecoam na noite, palavras são pronunciadas como uma prece em um idioma estranho. Mas onde estou não há nenhum sinal de tormento, em vez disso, um silêncio incomum se estende dançando em meios às sombras, me cumprimentando.

Olho para o céu acima de mim e, pelos olhos que não são meus, o que vejo é algo... fascinante. Absorvo cada detalhe, as cores e as formas de luz que salpicam o céu com tonalidades que eu nunca vira. As estrelas parecem estar tão perto, como se em um único esticar de braço eu pudesse tocá-las. Cada estrela exibe um brilho intenso e as cores variam entre prata, violeta, dourado e entre outras cores magníficas. A lua mostra sua face irradiando raios prateados nos quais eu me deleito, e mais adiante reflete nas águas verdes e cintilantes de um lago que permeia o magnífico jardim.

Caminho na direção do lago, sentindo a textura da grama verde da primavera sob os pés. Saboreio o ar noturno carregado com os aromas das flores, serpenteando em volta como uma carícia. Entre todas as variedades de flores que há no jardim, as rosas amarelas, minhas preferidas, se elevam adornando cada canto do lugar. Paro na borda do lago, e observo o rosto refletido na água; fino e delicado, olhos ametistas e cabelos loiros perfeitamente trançados em uma coroa de tranças. Feições que novamente são novas para mim. O corpo é curvilíneo, e traja um belo vestido bordo esvoaçante e sem mangas. A garota deve ter mais ou menos a minha idade.

Eu me afasto da borda e me dirijo ao canteiro de rosas amarelas, mas antes que eu as alcance algo me faz parar. Noto um som diferente vindo de algum lugar em meio às árvores. Ouço atentamente. Um sussurro de uma nota hesitante chega a mim; depois outra e outra, e mais outra, cobrindo o silêncio tranquilo do jardim. À medida que cada nota me envolve como um cobertor se torna mais alta, e o que começou apenas com um tremeluzir de uma nota, agora é uma bela melodia fascinante, doce e carregada de sentimentos. Fecho os olhos e permito que ela me envolva por completo.

Sinto levemente um roçar de dedos, depois algo quente e macio tocando minha alma, instigando cada ponto dela presa dentro desse corpo a ir em busca da fonte que produz essa linda melodia.

Venha, eu estou te esperando... Ouço uma voz sussurrar.

Então de repente eu tenho a sensação de estar me movendo. Abro os olhos e me deparo caminhando por um corredor de pedra vazio, iluminado por candelabros que pendem das paredes. Sigo o som da melodia e viro para esquerda e mais adiante para a direita. Dou voltas e mais voltas pelo labirinto de corredores, sentindo uma corda invisível me guiando. Após eu subir uma escada em espiral, enfim paro diante de enormes portas duplas douradas. As portas de imediato se abrem por vontade própria, revelando um salão preenchido por uma densa multidão.

Assim que entro no salão par de olhos de variadas cores pousam em mim, e o sons de vozes e o tilintar de taças cessam, exceto a inebriante melodia. Os rostos são apenas um borrão conforme a multidão se abre me dando passagem. Reparo nas suas vestimentas nas quais são elegantes. Meus olhos cruzam rapidamente com um par de olhos verdes, e então uma lembrança se desencadeia na minha mente. Cada pequeno fragmento que compõe a lembrança passa na minha cabeça. Visualizo pessoas esboçando sorrisos lascivos, imagens vagas e distorcidas como um espelho embaçado. Mas, a névoa que borra as imagens no meu subconsciente rapidamente começa a se dissipar e vislumbro um homem ajoelhado de olhos fechados murmurando diante de uma garota cujo momento está erguendo uma espada reluzente a ouro. A imagem logo se dissipa e outra emerge. Primeiro aparece um corredor parecido com o que eu caminhei momentos antes, em seguida uma figura de traços femininos passa correndo por ele, há sons de passos pesados e gritos atrás de si.

Mesmo não vendo o rosto da figura, eu sei quem é. Já estive presa dentro daquele corpo, sentindo o medo emanando como uma onda pronta para derrubá-la. Eu sei qual o final trágico que a espera. Porém, algo não se encaixar. Como isto é possível?

Reprimo as lembranças para o fundo da minha mente e me concentro onde estou. Procuro os olhos verdes em meio aos rostos da multidão que me olham com interesse evidente, mas não a encontro.

_ Ai está você _ Diz uma voz gutural atrás de mim.

Antesque eu possa me virar, sinto aquele familiar puxão de garras invisíveis. Omundo gira ao meu redor e a sensação de queda me atinge...

coroa dos sussurrosOnde histórias criam vida. Descubra agora