Prólogo

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Ele começou sua nova vida despertando, sentindo o ar rançoso e empoeirado adentrar profundamente em seus pulmões.

Estava frio, e a penumbra que cobria o ambiente era quase palpável. O ruído metálico que se repetia entre pequenas pausas era melódico, combinando com os pequenos feixes de luz que lhe acertavam as pálpebras de tempos em tempos. Finalmente, entendeu que estava em movimento, sentando no banco do que parecia ser um vagão de trem.

Apenas alguns momentos após despertar conseguiu recobrar totalmente sua consciência. O ambiente lhe parecia familiar, mas ao mesmo tempo não conseguia recordar de nada de antes do seu despertar – nem mesmo de seu próprio nome.

O terror lhe acertou em cheio, fazendo com que o garoto se levantasse. Uma pontada pareceu acertar sua cabeça, fazendo seus ouvidos zunirem e o derrubando no chão. Pequenas baratas caminhavam ao seu redor em meio às embalagens plásticas e sujeira acumulada. Tossindo, o garoto começou a chorar.

Abrindo lentamente seus olhos, embaçados por conta das lágrimas, percebeu que sua visão já havia se acostumado quase totalmente à escuridão. Acalmando-se gradativamente, ele se levantou sem muito esforço. O trem se movia devagar, mas era preciso segurar-se nos balaústres para que não se desequilibrasse e acabasse caindo mais uma vez.

Sentindo-se perdido, meteu as mãos nos bolsos de sua calça a procura de algo que pudesse lhe ajudar; nada. Confuso e com medo ele não sabia o que esperar. Sua respiração estava irregular e sentiu que seu peito explodiria para fora do corpo a qualquer momento. Sempre que tentava se lembrar de alguma coisa sua cabeça doía. Sem saber nem mesmo a sua própria identidade, naquele momento ele não era ninguém. 

O trem diminuía sua velocidade mais uma vez, e uma luz fraca e ofuscante começou a surgir do lado de fora do veículo. Ele havia chegado em uma estação, igualmente deserta e suja. Alguns momentos depois do vagão parar, as portas se abriram num rangido sólido e violento. Sem pensar duas vezes, ele saiu e, imediatamente depois, o trem fechou suas portas com o mesmo baque de antes e seguiu pelo caminho no qual veio, curiosamente mais veloz do que antes.

O clima fora do trem estava mais ameno, e ele sentiu-se estranhamente refrescado por não precisar mais inalar os grãos de poeira. Caminhando lentamente, seus passos silenciosos não pareciam existir perante a imensidão que era aquela estação. O azulejo branco presente no chão e nas paredes estavam encardidos, e alguns deles estavam faltando ou quebrados. Televisões antigas e provavelmente quebradas estavam suspensas em colunas que sustentavam o lugar, mesmo que pichadas e com um odor muito forte de urina.

Mais adiante, próximas ao final da estação, uma escada rolante dupla parecia levar para a superfície. Elas estavam desligadas, o que obrigou o garoto a subir por si só; o que não era um grande problema. Ele estava se sentindo revigorado e disposto, talvez porque tinha acabado de acordar, mesmo que em um lugar no qual não sabia onde era. Mas mesmo cheio de energia ainda estava hesitante sobre onde estava. Não era exatamente esse o mundo no qual ele se lembrava. 

Enquanto subia as escadas percebeu que a estação não tinha uma parte superior. Estava completamente destruída. Pedras e escombros atrapalhavam sua passagem nos últimos degraus, mas ele conseguiu atravessar e ir para o lado de fora. Olhando ao seu redor observou que a cidade estava completamente tomada pela vegetação: prédios altíssimos coloridos pelo musgo e pelas ervas daninhas, bueiros e postes de luz com diferentes tipos de cipós e arbustos e até mesmo automóveis que viraram ninhos de pássaros e formigueiros.

Mas que merda aconteceu aqui? Pensou, enquanto caminhava pelo que um dia foi uma calçada para pedestres. Fora a flora que parecia tomar de volta o que um dia foi seu, não havia mais nenhuma única alma viva em todo seu campo de visão. Ele tentava manter a calma, mas o desespero estava nítido em seu rosto. Entrelaçando suas mãos uma na outra, percebeu que sua tremedeira diminui, e mesmo sendo uma coisa boba ele não conseguiu evitar de esboçar um pequeno sorriso.

Olhando para o alto viu que o céu estava acinzentado, o que não era comum para um lugar sem civilização e totalmente tomado pela natureza. Algo não estava certo... Dando mais uma olhada ao redor, percebeu que só haviam musgos, fungos e arbustos no chão e nas construções, nenhuma árvore ou flor parecia ter nascido. A mesma coisa acontecia com os animais, haviam apenas pequenos insetos como formigas e moscas – ele havia visto até mesmo baratas dentro do trem –, mas nenhum animal de pequeno, médio ou grande porte parecia viver aqui, mesmo com um ambiente propenso para abrigar até mesmo um elefante. 

Para tentar espairecer respirou fundo, armazenando uma grande quantidade de oxigênio em seus pulmões. Foi quando percebeu que o ar não estava tão puro quanto ele pensava. O odor de enxofre e carbono começou a queimar lentamente os seus pulmões, fazendo-o tossir. O garoto havia entendido apenas agora o motivo da coloração estranha do céu; não se tratava de nuvens de chuva, era poluição pura.

Em sua cabeça aquilo não fazia sentido. A falta de ar lentamente o enfraquecia, e com a visão cada vez mais turva ele foi obrigado a parar. Apoiando-se em uma caixa de correio, pequena e enferrujada, ele tentava não desmaiar. Sua respiração estava irregular, e conseguia sentir a arritmia mesmo não colocando a mão em seu peitoral. Seu senso de realidade se dissipava e, como se levado pela correnteza de um rio, estava lentamente aceitando que aquele era o seu fim.

Com seus olhos já semicerrados ouviu um som distante, mas ainda assim audível, do que parecia ser um motor de carro. Já devo estar alucinando, pensou, esboçando um sorriso com o canto de sua boca. Um pouco mais adiante, na mesma rua na qual estava, um borrão preto vinha em sua direção. Com sua visão parcialmente comprometida, não conseguia distinguir do que se tratava. O som de aproximava cada vez mais dos ouvidos do garoto, ficando sempre mais nítido do que antes. 

Foi quando ele perdeu suas forças e desabou no chão, próximo ao meio-fio. Com o veículo perto o suficiente, ele se convenceu de que era mesmo um carro, mas ainda não sabia se era fruto de sua imaginação ou se aquilo era mesmo real. De qualquer forma, achava estranho os anjos prepararem sua entrada no paraíso dentro de um carro. Mais precisamente, dentro de uma minivan. 

Dois homens saíram do veículo portando armas que o garoto nunca havia visto antes. Estavam presas por cordas que eram suspensas em seus pescoços. Eles vinham em sua direção, e o som das armas batendo enquanto caminhavam ecoava na cabeça do garoto, como se estivessem querendo avisar alguma coisa para ele. Era nostálgico, mas mesmo fazendo um esforço absurdo para se lembrar, nem um único resquício de memória veio a tona.

Um dos recém-chegados se ajoelhou na frente do garoto e posicionou os dedos do meio e indicador próximo ao pescoço dele, certificando-se de que ele estava vivo. Quase desacordado, pode perceber que ambos usavam máscaras. Uma delas era metálica e deixava a mostra apenas um olho com uma cicatriz horrenda, e o outro escondia o rosto todo com uma máscara ninja. Foi quando ele se perguntava o porque das máscaras quando, sem mais nem menos, o homem com a cicatriz bateu com a coronha da arma em seu rosto, fazendo-o desmaiar. 

Parece que esses anjos não eram iguais os que existem na bíblia. 

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