Capítulo 01

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Bufei ao ouvir o telefone badalar estridente em meus ouvidos. Não passava das nove da manhã. Para mim, praticamente madrugada.

Tratava-se de um velho hábito, sobretudo aos finais de semana: ninguém estava autorizado a me acordar tão cedo. Eu inclusive havia pendurado um aviso na porta do quarto para Dulce e Maite desde que perdi meu último emprego.

O que fazia realmente bastante tempo, portanto a folha estava encardida e engordurada. O rabisco, já não tão nítido, dizia o seguinte: "Nunca me acorde antes das 11, beijinhos". Evidentemente aquela pessoa ao telefone ainda não havia tomado conhecimento disso.

Permaneci no aguardo durante alguns segundos, com a tola esperança de que Dulce levantasse da cama e atirasse o telefone contra a parede, em fúria. Como aquela gente rica da TV faz com o despertador. Imagine só se a cada manhã que eu me irritasse com o relógio eu o estilhaçasse em pedaços... Isso jamais caberia em meu orçamento.

Não que muita coisa coubesse em meu orçamento...

Na verdade, não tenho meios financeiros para fazer um orçamento de nada.

Ainda!, vale ressaltar.

Levando em consideração todos os adendos acima, achei que seria melhor continuar com aquele simpático telefone sobre a mesinha da sala. Telefone este que, nesta manhã, me serviu como despertador. Versátil; duas funções a preço de uma. Em se tratando desse negócio de economizar qualquer coisa para mim é lucro.

Eu gostava inclusive de economizar energia. No entanto, para minha decepção, Dulce pôs um travesseiro na cabeça e soltou um sutil grunhido de impaciência. Deduzi seu significado. Muito provavelmente se tratava de algo do tipo: "Erga suas nádegas, sua infeliz. Não vai querer que eu acorde agora e dedique o dia a esfregar na sua cara o quanto você é imprestável, vai?"

Levantei da cama. O que já era um grande começo. Passando vagarosamente pelo espelho, percebi que meus cabelos brigavam entre si, formando uma rebelião contra a minha beleza já pouquíssimo notável. Cheguei a tempo de tirar o fone do gancho e gemer um "alô". Percebi, em seguida, o quanto aquilo fora obsceno, como um urro de prazer e cansaço depois de uma noitada de sexo. Consequentemente percebi também que era exatamente aquilo que eu gostaria que pensassem sobre mim, já que nem sexo eu andava praticando.

- Bom dia, Annie! - cacarejaram em meu ouvido.

Era minha mãe.

Fiz uma careta, afastando o fone. Quando o coloquei de volta na orelha, ela me dizia o seguinte:

- ...ficar desempregada pra sempre, não é?

- Bom dia - decidida a ignorá-la, respondi placidamente, respirando fundo. Coisa boa não podia ser.

- O que acha? Hein? Daquela vaga na confeitaria do James.

Ah, o James, refleti por alguns segundos. O esquisitão da escola. Era basicamente resumido a: 1 óculos de lentes bem espessas; suspensórios segurando uma calça xadrez que terminava no meio das canelas; 1 topete encharcado de gel e 1 cérebro que dava uma surra em três do meu. Sim, ele era exatamente esse tipo clássico de personagem.

Naquela época, o que tinha de inteligente tinha também de esquisito. Mas agora... Bem, agora era ainda pior, só que sem o aparelho nos dentes. E rico.

Lembro que ele havia me pedido em casamento no baile de primavera. Acabávamos de completar dezesseis anos. Eu, numa tentativa de consolá-lo, disse que era uma proposta tentadora e que eu certamente aceitaria assim que ele fosse independente e tivesse um negócio próprio para que conseguíssemos sustentar os nossos cinco filhos.

James balançou a cabeça, feliz, e aceitou.

Bastante compreensivo. Compreensivo e de ótima memória. Não é que um dia desses o desmiolado me sugeriu que eu reavaliasse a proposta? Saí apavorada, esmagando cookies entre os dedos travados de pânico. Nem havia lembrado de pagar. Era mais um motivo para nunca mais voltar ali.

- Eu acho que posso tentar algo melhor - arrisquei, meio indecisa - James é um pouco... ahn... desprovido de maturidade emocional. Ele só usa o cérebro para cálculos matemáticos. Talvez se torne um psicopata futuramente. Isso se já não for. Desconfio muito que seja. Com certeza é.

- Ele só vai ser seu patrão. Já conversei com ele - mamãe contra-argumentou.

O que é deveras humilhante, pensei, desmotivada.

- Mãe, eu realmente acho que...

- Giovanna, você não está em posição de recusar nada - ela pontuou, agressiva. Eu revirei os olhos.

Eu absolutamente detestava perceber que eu não tinha razão. Admiti-lo para outra pessoa já eram outros quinhentos. Eu nunca admitia nada para outra pessoa, pelo menos não quando eu quem estava em desvantagem.

E, bem, de fato, minha situação era bastante desvantajosa. Para conseguir algum emprego - qualquer emprego - no mínimo, eu tinha que fechar os olhos e os ouvidos. Às vezes, a única coisa que eu deveria arriscar abrir era a blusa e mostrar o decote. E depois seguir em frente. Enquanto nada realmente novo acontecia, eu esperava deitada na minha cama de solteiro num apartamento compartilhado com minhas amigas.

Pareço bastante juvenil para uma mulher adulta, sim?

De fato.

Mas é apenas uma fase.

- Preciso pensar, acho que tenho um tempo livre.

- É claro que você tem todo o seu tempo livre! - mamãe acusou, grasnando em voz alta. Em seguida, com um tom zombeteiro, acrescentou: - E ainda tenta me enganar me atendendo com essa voz arrastada, como se tivesse transado a noite inteira. Anahi... Coitadinha de você.

Oitavo PecadoWhere stories live. Discover now