Vergonha, desgraça, humilhação.
O piloto da Kombi branca não conseguia acreditar.
Justo quando tinha certeza que o havia superado. Justo quando pensou que havia conseguido outro amigo, um amigo de verdade, que de fato se importava, era tudo fake news da pior qualidade! Tipo as notícias de jornal!
Seu plano de vingança pro amigo fake já estava montado - ensinaria o Renanzinho como usar um cinto de segurança. Desse jeito o pai dele fica puto e a criança teria um mau hábito para o resto da vida. Perfeito.
Sobre o Julinho, porém, não tinha o que fazer. Ele estava mudado, tinha perdido peso e havia menos lugar pra pegar - Quer dizer, se quisesse pegar, o que não queria - mas ainda mexia com a sua cabeça.
Como se o pensamento fosse capaz de invocar seu diabinho particular, lá estava o rosto dele novamente na tela do celular "Julinho - Incoming Video Call". A transmissão com o pessoal provavelmente tinha acabado e ele veio lhe tirar o que sobrou de paz do resto do mês.
Passaram-se 08 meses e 14 dias desde as últimas palavras trocadas privativamente. Não que alguém estivesse contando, claro. Por pura coincidência, era o mesmo intervalo temporal dedicado a pensar em sua carreira solo, longe dele e dos outros.
A recordação, no entanto, era como se fosse ontem. Estava tudo trafegando no mais perfeito asfalto, até a chegada da fatídica notícia que mudaria seu trajeto – Julinho iria se mudar pra São Paulo depois da noite do Oscar.
Nem os melhores roteiristas de filmes de desastre poderiam imaginar o que aconteceria no mês seguinte. Vírus chinês. Máscaras no queixo. Distanciamento.
E uma conversa que nunca aconteceu.
Então, porque iria querer conversar com ele agora?
Mas é o que dizem, a curiosidade matou o gato. E provavelmente mataria o Palestrinha também. Sem se dar conta das suas ações, Maurilio atendeu a ligação e esperou pela voz tão conhecida soar em seus ouvidos.
- Fala dodói, quanto tempo.
O apelido combinado à imagem na sua frente traziam calor ao seu corpo inteiro. O primeiro beijo permanecia uma memória tão vivida quanto os toques e os gemidos que vieram em seguida. Mas deveria ceder tão cedo e por tão pouco.
- Que foi , Júlio César? Tenho nada pra falar com você, não.
- Ihh, já disse pra parar de showzinho pra cima de mim. Tu deve ter algo pra falar sim, senão não tinha me atendido.
- Eu estou de showzinho?!Então você é o próprio Rei do Show aparecendo pelado no meio da transmissão!
- Opa, pera lá. Pelado não. Tô de sunguinha poxa.
Pro desespero geral da Nação chamada Maurílio dos Anjos, Julinho tirou a almofada do lugar. E, de fato, havia uma sunga ali. Felizmente. Ou infelizmente. Não estava raciocinando mais.
Em uma tentativa de se recompor, Maurílio só conseguiu visualizar a clássica tática dos filmes de guerra: A melhor defesa é o ataque.
- E posso saber porque estava com tão poucas roupas com meu Instagram aberto? Tá com pensamentos lascivos enquanto olha minhas fotos, Julinho?
- Ate parece neh, lógico que não! Não dessa vez. Isso não vem ao caso agora.
- Então porque está com o corpo todo a mostra, assim, de graça? Você sabia da transmissão, podia ter se vestido.
- Fico muito contente por estar preocupado com a minha imagem, mas... se me permite um minutinho de sinceridade, o negocio é o seguinte. Eu estava com ciúmes, ta certo? Você arranjou aquele amigo seu lá e ignorou as minhas mensagens. Achei que aparecer assim chamaria sua atenção.
A expressão do outro lado da tela demonstrava uma vulnerabilidade rara.
Agora que tinha mencionado, durante a transmissão Julinho se mostrou ciumento e magoado com alguma coisa. Pensava que era a falta da rinha de galo, mas, na verdade, estava sentido sua falta?
- Foi por issso aquele seu surtinho sobre eu estar com cara de gente procurando transa?
- Pode ter sido e pode não ter sido. Você esta todo com cara de gente procurando transa. Nesse exato momento, inclusive. Ou acha que não percebi seu olhar na minha sunguinha?
- Ah não. Sai pra lá Don Juan. Eu não vou cair nessa de novo. Você me beijou. Me tocou. Literamente, me fudeu. E além disso tudo dividiu o guarda chuva comigo na noite do Oscar. Qualquer um sabe que esse é o ápice dos romances japoneses. E então, do nada, decidiu que ia embora?
- Ih, que drama. Começou o falatório. Eu te falei que tava sendo perseguido por agiotas. Quer me ver morto é?
- Não. Eu só queria um convite. Queria que me chamasse pra ir junto.
Julinho abriu a boca para falar alguma coisa, mas parou no meio do caminho. O palestrinha pode ver seu piloto favorito processando a informação nova. Como quem pisa no freio bruscamente e precisa verificar se estava tudo em ordem ainda.
Meio receoso, a conversa deu continuidade em um tom mais baixo.
- Eu... Não sabia que podia fazer isso. Ou que você queria ir junto comigo. Me ignorou esse todo por conta de algo assim? Era só ter falado, Maurilio, Puta que pariu!
- Falar? O que eu mais faço é falar. Mas quem disse que você escuta? Como te disse antes, você não cria vinculo, Julinho. Eu crio. A gente não dá certo. Não adianta forçar.
Se antes havia alguma esperança de remendar o que foi partido, agora não restava nenhuma. Era visível o desgaste nos dois e ficou claro que Julinho não aguentava continuar mais. O peso das palavras de Julinho ainda ressoava na cabeça de Maurilio, ele devia ter falado o que queria antes.
- Pra mim chega. Cê acha que tá na globo pra fazer novela. Não quer resolver a porra do problema, não resolve. Eu aceitei fazer essa porcaria de cinema brasileiro por você. Mas vê se agora senta longe de mim na porra do programa também.
- Pois eu digo o mesmo pra você! Passar bem!
O silêncio pesou mais do que havia imaginado. Oh Santo Tony Ramos, o que ele tinha feito?
Maldita teimosia. Maldito drama teatral.
Quatro de dezembro estaria no mesmo cômodo que ele de novo.
Talvez até o final das gravações, as coisas possam se resolver.
Tomara.
Até lá, o jeito era voltar ao forúm sozinho. De novo.
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SprinterKombi: Ciúmes de Você
Romance"Uma ligação inesperada após a live. Uma treta não resolvida que continua sem resoluçao. Ligação entre Maurilio e Julinho após o episódio da Pandemia." Baseado no episódio da pandemia e nos relatos dos pilotos na entrevista com o Pedro Bial. Eu amo...
