Capitulo Um

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Eu amo como o vento bate em meu rosto e me faz sentir como é ser livre, como se fossemos pássaros soltos de nossas gaiolas experimentando a liberdade mais uma vez. O sol que bate contra o meu rosto faz com que eu abra um sorriso inesperado e sinta como é estar viva, sinto-me grande, meu futuro depende só de mim, de mais ninguém. Nem de meus pais com suas regras rígidas de como ser uma dama e um dia uma noiva decente. Sem os pretendentes ansiosos pela mesma resposta. Sem espartilho apertado sobre o meu peito, pressionando os meus sonhos e desejos apenas para mim. Sinto que posso ser eu mesma, sem olhares críticos e rigorosos. Apenas eu.
Mais uma vez, caio da cama aos gritos de minha empregada, deixando meus sonhos agarrados à minha cama.
Levanto e ponho meu pé no macio tapete, ao lado de minha cama vejo uma figura muito familiar parada ao meu lado, uma de minhas empregadas me acordando às pressas, provavelmente estou atrasada para algum chá importante em que nada de especial será mencionado. Espero minhas criadas aparecerem com meu vestido dourado que combina com o tom de minha pele negra e com a cor que representa a minha Casa. Pego um corredor em direção à sala de jantar, o chão de mármore reflete o meu vestido e por um momento me cega. Ouço conversas de vozes já conhecidas.
Como sempre, papai está falando sobre negócios e sobre a guerra existente entre a nossa Casa Laurëa e a Casa Telpë. Mamãe deve estar conversando sobre como o vestido de tal princesa era inadequado e como tal príncipe se comportou de maneira ultrajante em um dos milhões de jantares exatamente iguais, aos quais já participei, também onde papai consegue aliados e onde segundo mamãe "inimigas".
A única pessoa que posso ter uma conversa sendo eu mesma é com meu melhor amigo Aldon, da Casa Helcë. Mas sempre acabo estressada depois da conversa com ele, pois sua única função na vida é me irritar. Consigo reconhecer os cabelos ruivos e os olhos azuis logo de cara, acabo esbarrando em Aldon já na porta da sala de jantar:
- Bom dia flor do dia, pelo visto a princesinha acordou de bom humor hoje?- diz com o ar brincalhão de sempre, me impedindo de adentrar à sala de jantar- Quais são os nossos planos? Hmm...Que tal bordado!...ou talvez tricô!, sou ótimo nisso. Já sei uma coisa que você vai amar...
- Não tenho nenhum plano para "nós" hoje Aldon, e nem pretendo ter!! -falo, interrompendo-o antes que perdesse a oportunidade.
- Amarie!!!- ouço a voz de minha minha mãe me chamando de dentro da sala, provavelmente indo me apresentar a algum príncipe mimadinho com um rosto bonito e neurônios faltando, mas para minha mãe, eles sempre são um "bom" partido- Venha conhecer esse belo rapaz minha querida!
- Boa sorte- essas palavras que saem da boca de Aldon fazem meu olhar ferver de raiva, mas como uma boa dama que sou, me seguro e vou enfrentar o monstro que eu chamo de mãe.
-Sim mamãe, me chamou? -digo, indo em sua direção.

Chego sã e salva de mais um café da manhã com minha mãe exaltando as minhas qualidades- não que eu tenha muitas. Já de volta ao meu quarto, tiro o mais rápido possível o meu vestido e desfaço o espartilho apertado sobre minhas costas, visto uma calça e uma camisa velha, que escondo no fundo do armário para nenhuma empregada encontrar, e sento sobre a minha janela, que dá de vista das montanhas do Oeste. O que estou fazendo olhando aqui? Eu devia estar na linha de frente, junto a tantos outros jovens da minha idade que aos 18 anos já têm suas vidas marcadas pela guerra. Devia estar na batalha, lutando pelo meu reino, lutando pela minha liberdade, lutando pelo meu povo! Eu daria qualquer coisa para poder sair dessa prisão.
Tento me distrair, pensando em tudo que vivi neste castelo, mas as únicas lembranças que tenho invadem minha cabeça. Regras de etiqueta, de como se comportar à mesa, essa não é a vida que quero para mim, ser uma dama, uma esposa, me calar na frente de meu futuro marido. Sinto meu sangue ferver, quero correr, gritar, mas as únicas coisas que saem de mim são lágrimas.
Aí que eu me lembrei - amanhã será meu 18° aniversário, e poderei de qualquer forma me alistar. O pior seria arrumar uma boa desculpa, para conseguir sair de casa sem que a minha mãe perceba. Uma batida em minha porta faz com que eu acorde, olhando para o lado vejo Aldon, que já estava adentrando ao meu quarto. Vejo seu desconforto ao encarar meus olhos encharcados, mesmo assim ele senta ao meu lado sem dizer nada, apenas me abraça. Esse simples gesto faz com que eu ceda totalmente as minhas emoções. Sei que falei sobre como ele só conseguia me irritar, mas somente os verdadeiros amigos permanecem ao seu lado nos piores momentos da vida, quando o mundo inteiro fica contra você. Ele é o meu porto seguro, um pilar para que tudo não desmorone.

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⏰ Last updated: Oct 27, 2020 ⏰

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