Vocês já se perguntaram porque é que as pessoas fazem questão em nos magoar? Já se perguntaram porque é que a desilusão existe? Eu, ultimamente, tenho vindo a pensar muito nisso. Sei que não sou propriamente uma santinha e tenho consciência disso, mas sou capaz de pensar sempre nos outros em primeiro lugar. Ponho sempre os outros há minha frente. Apesar de me ter tornado fria em relação a conhecer pessoas novas, eu continuo a pensar demasiado nos outros. E eu? Fico para último. O costume... O meu pai uma vez disse-me que eu era uma rapariga que na primária me preocupava sempre se os meus colegas estavam bem. Que era carinhosa com eles. Que perdia tempo do meu dia a tentar animar alguma criança triste. Acho que qualquer pessoa discute com os seus pais, não? Acho que qualquer pessoa acaba por os desvalorizar em certos momentos, mas eu acabo por me aperceber que estava errada. Na minha opinião, não merecia tudo o que me fizeram, principalmente ter perdido a minha mãe.
O fumo da minha caneca de café com leite já estava a diminuir. Pensar enquanto observava as ondas criadas no leite, produzidas pela minha respiração, esperando que o mesmo arrefecesse, era algo que costumava fazer. O meu dedo indicador viajava em torno da caneca e os meus olhos focavam-se no líquido. Estava sozinha em casa. Quando acordei e desci as escadas para tomar o pequeno-almoço, encontrei um bilhete em cima da mesa com a respetiva mensagem: "Quando acordares já não devo estar em casa. Enquanto uns ficam de férias, outros trabalham, não é verdade? Devo voltar por volta da hora de jantar. Desculpa a discussão de ontem. Beijinhos do pai que te adora.". Não sei bem o que pensar destas desculpas do meu pai. Parece que só o disse para ver se quando chegasse a casa eu não estava "amuada". Coisa que sempre que discutem, acontece. Rolei os olhos ao meu subconsciente com esta observação.
Suspirei e levei o líquido aos meus lábios. Por incrível que pareça, esqueci-me de algo super importante e caracterizado como sendo a faze final do meu secundário: exames. Ontem reagi como se fosse o último dia e o começo do descanso porque, na verdade, é a isso que estou habituada. Só hoje quando acordei é que dei conta que para a semana tinha o meu primeiro exame. Afinal o voluntariado vai ter que ficar para mais tarde.
Dando a última trinca na minha torrada, levantei-me, pegando na minha caneca do mikey, e dirigi-me à sala. Era meio-dia. Sim, eu era uma pessoa de acordar tarde e já estava a precisar de descanso. Liguei a televisão, sentando-me no sofá com a caneca na mão. Estava a dar as notícias. A esta hora? Ah...já sei. É um canal qualquer que está constantemente a dar notícias. Só ás vezes dá umas pausas para uns programas mas de resto... O meu pai liga muito a estas coisas. Gosta de estar a par do que acontece no nosso mundo ridículo... Rolei os olhos.
Eu, por outro lado, odiava ver estes canais. Ver as notícias é, de facto, algo que me aborrece, mas algo me fez permanecer no tão desprezado canal. Estava a dar uma notícia que me deixou com o ar preso na garganta como se me quisessem impedir de respirar. Por mais que eu quisesse, eu não conseguia. Tentei respirar mas não consegui. O meu ar saiu como um sufoco. A imagem era-me extremamente dolorosa. Doía tanto... Aquele labrador estava sem pele! Oh meu Deus! Como há pessoas tão maldosas ao ponto de fazer uma coisa destas?! Aparentemente a notícia era sobre os animais abandonados de uma certa zona do país e a forma como muitas pessoas se aproveitam deles para se divertirem. Estavam a aparecer no ecrã imagens de animais mortos no meio da rua, vítimas desses monstros. Sem dar conta, já tinha os olhos em água e bastou piscá-los uma vez para lágrimas escorrerem livremente pelo meu rosto. Não podia ver mais isto. Precisava de mudar de canal.
Mesmo após dez minutos a ver desenhos animados, aquelas imagens horrendas não saiam da minha cabeça. Eu sei que tenho que estudar, mas não conseguiria fazê-lo como deve ver se não fosse hoje à instituição. Não sei para onde me mandarão mas desde que possa estar com animais, por mim qualquer sítio serve. Decidi ir ligar à Mrs Grace.
-Estou? - ouvi uma voz do outro lado da linha ao qual identifiquei como sendo a da Mrs Grace.
-Estou. Mrs Grase? É a Sky...
-Ah, olá querida! Que bom ouvir-te. Está tudo bem contigo?
-Sim, quer dizer...mais ou menos. Acabei de ver na televisão uma notícia que me chocou...
-Oh... Foi a de Holmes Chapel?
-Sim. Exatamente. Também viu? - mostrei surpresa na minha voz.
-Claro que vi. Nós aqui estamos a par dessas coisas, querida e aparentemente isto é notícia em qualquer lado. Muitos dos nossos voluntários daqui estão a dispor-se para ir ao canil de lá ajudar.
-Eu sei que a instituição tem ligação com muitos canis e gatis para ajudar mas não sabia que o de Holmes Chapel era um deles... - de repente fiquei pensativa e com uma ideia a surgir na minha mente.
-Nós temos ligação com praticamente todos os do país. Muitos dos nossos voluntários querem ir ajudar visto que estamos a uma hora de Holmes Chapel, mais ou menos. Lá não há muita gente a ajudar...
-Posso ir? - perguntei num momento de loucura. Não faço ideia se o meu pai vai concordar com isto mas eu nesta altura não quero saber. Eu estava disposta a ajudar. Eu não sabia que poderíamos ir para lá pois se soubesse, não pesava duas vezes. Seja longe ou perto.
-Claro que sim querida! Seria ótimo se tu fosses! Mas não vais ter problemas com os teus pais...? - uma dor no meu coração surgiu mas rapidamente eliminei-a. Não era altura para isso.
-Não se preocupe com isso. Está tudo bem.
-Sendo assim, amanhã a nossa carrinha passa por sua casa às oito. É o mínimo que podemos fazer pelos nossos ajudantes após eles se terem disponibilizado a mudar de cidade. Eu amanhã não vou, mas a Mrs Lucy vai. Ela ajudá-la-á. - a Mrs Lucy era uma senhora ligeiramente mais velha do que a Mrs Grace. Tinha cabelo curto e grisalho, de cor acinzentada. É uma mulher com um espírito jovem e os animais são a sua vida. É extremamente doce com eles.
-Claro. Estarei pronta a essa hora. Não lhe ocupo mais tempo. Até qualquer dia Mrs Grace. - despedi-me.
-Até qualquer dia menina. Tenha o resto de um bom dia. - e com isto desliga o telemóvel.
Não sei como o meu pai vai encarar esta situação de ficar a uma hora longe de casa mas isso não me importa. Ele tem que aceitar. Já para me deixar fazer voluntariado foi o que foi mas eu tenho dezassete anos! Daqui a uns meses faço os dezoito e ai ele não pode fazer mais nada. Está decidido e mais que decidido. Amanhã partirei para Holmes Chapel.
DU LIEST GERADE
Crystal Eyes
Romantik"Há uma questão que vou colocar neste momento: acham mesmo que algo assim tão obscuro combina com uma criatura extremamente fofinha? É tão frio e arrepiante. A escuridão deve ser uma característica constante na sua vida. Aparentemente qualquer um te...
