ALEX
Não sei exatamente qual foi o dia em que comecei a desconfiar que eu era diferente. No entanto, lembro-me bem de uma manhã na escola, quando eu tinha mais ou menos uns quinze anos. Era aula de Educação Física e a professora havia dividido a classe em dois grupos. A gente tinha que fazer fila, correr até a rede e lançar a bola do outro lado, tentando atingir um determinado ponto da quadra.
Assim que chegou a minha vez, fui correndo e, com toda a força dos meus braços gorduchos, lancei a bola, mas infelizmente ela não alcançou o ponto marcado. Por outro lado, desequilibrei-me e caí bem no meio da quadra. Ali, na frente de todo mundo. A turma toda riu e, mais uma vez, eu me senti extremamente envergonhado. Aliás, me sentir assim estava ficando cada vez mais frequente.
Os sarros da turma me faziam odiar as aulas de Educação Física. Eu não levava jeito para aquilo e sempre achei que os alunos deveriam decidir se queriam ou não fazer esse tipo de aula. Não seria muito mais legal se as escolas dessem opções variadas, tais como aula de canto, tocar um instrumento, teatro... sei lá? Para mim, o desrespeito às diferenças já começa no próprio sistema que trata todos os alunos como iguais.
Nasci e cresci em Lorenzo de Oliveira. Uma cidade pequena, litorânea e pacata. Eu considerava a escola um lugar hostil. A impressão que ela me passava era a de que o mundo era feito somente para algumas pessoas. Aquelas que cabiam nos moldes: a criança loira, a criança esperta, o menino que brincava de carrinho, a menina que gostava de boneca, a criança que tirava boas notas ou que levava seu material em bonitas mochilas coloridas. Já eu, assim como outros alunos, não me encaixava. Com o meu batalhão de sardas no nariz e excesso de peso, sentia-me fazendo parte de outro grupo: o grupo daqueles que passavam anos pelos corredores sem serem notados, a não ser que fizessem algo considerado terrivelmente ridículo.
É claro que eu não pensava nisso tudo naquela manhã, durante a aula de Educação Física. Naquele momento, tudo que eu podia perceber era o som das risadas e deboches, vindo de todos os cantos da quadra. Minha vontade era apenas sumir, deixar de ser eu, ir para casa.
No auge da minha meninice, já sentia o peso que a vida pode nos colocar nos ombros toda vez que os olhares que nos dirigem não aquecem o nosso coração. Naquela ocasião, assim como em tantas outras, esse peso estava muito difícil de suportar. Enquanto me preparava, senti uma mão tocar o meu ombro. Assim que me virei, deparei-me com os olhos mais lindos do mundo, bem ali, sorrindo para mim. Eles não eram de um azul simples como os meus. Eram uma mistura de azul do céu e de azul do mar, que se tornava um só azul mágico, que mudava de cor conforme a luz ou o próprio movimento dos olhos. Um turbilhão de sensações passou pelo meu corpo naquela hora. O peso que eu sentia, subitamente, foi embora com o toque daquela mão e uma alegria sem tamanho me invadiu o coração.
— Você está bem? — perguntou ele sem ter ideia do que se passava comigo.
— Sim. — Foi o máximo que consegui dizer. E assim eu fiz uma coisa totalmente idiota: afastei-me dele, seguindo em direção ao banheiro.
É difícil explicar, mas tenho inclinações básicas para fugir daquilo que meu coração não entende. Desde criança, sempre que sofro algum baque, sinto necessidade de me afastar para pensar. O problema é que nem sempre consigo colocar meus pensamentos em ordem. Na maior parte das vezes, mesmo me retraindo, continuo confuso.
Já ouvi muitas pessoas dizerem que algum dia, quando criança ou adolescente, apaixonaram-se por algum de seus professores. Mas acho que nunca ouvi nenhum garoto dizer que havia se apaixonado por um professor e não por uma professora. Imagino que, nestes casos, fica muito mais complicado trocar confidências com o melhor amigo ou jogar indiretas através de bilhetinhos dentro da sala de aula.
YOU ARE READING
O lado esquerdo do amor
RomanceDisporei aqui os três primeiros capítulos do meu primeiro romance. Espero que vocês gostem e que queiram continuar a leitura. Para isso, é só entrar em contato comigo para adquirir o exemplar físico por aqui ou adquirir o exemplar no site da Amazon...
