Voltei a passar a lâmina pelo meu pulso, criando mais um corte no meio de muitos. Talvez terá sido por nunca ter ouvido um "porta-te bem" da minha mãe nem um "não abras a porta a ninguém" do meu pai, por nunca ter sido chamada de 'filha', ou por ter vivido a minha vida de lar em lar, por nunca ter feito um amigo, e por mais rídiculo que isto seja, por nunca ter falado com um rapaz, é verdade, o orfanato era apenas para raparigas por isso nunca falei com um rapaz, embora isso pareça impossível em dezassete anos de vida. Posso arranjar muitos motivos para fazer o que estou a fazer neste momento, mas o motivo fica resumido : nunca fui amada.
Eu não escolhi cortar-me, apenas aconteceu a primeira vez e não consegui parar. Dor era o que me levava a isto. Neste momento devia estar em casa com a minha família à volta da lareira, andar numa escola normal, ter as minhas amigas e quem sabe apaixonar-me, por minha vontade era o que eu faria mas os meus pais preferiram deixar-me num lar, até acho que seria melhor se me tivessem deixado num orfanato, pelo menos vivia com freiras que talvez me ajudassem, em vez disso deixaram-me num lar, onde fui transferida de um para outra várias vezes por não falar com ninguém. Eu tive oportunidades de ter pais, ter família, mas sempre que iam casais para adotar eu escondia-me num armário, não sei bem porquê, talvez por vergonha ou medo. Agora estou aqui, no meu novo dormitório, sozinha, passar dos lares para uma escola normal vai ser uma grande mudança para mim, talvez me dê bem com as pessoas, ou não.
