Enquanto atravessávamos a Floresta da Tormenta, notei que o clima estava ainda mais mórbido que o de costume. O vento parecia brincar com as poucas folhas dos galhos secos e olhar para aquelas árvores pálidas era um modo de distração para me esquecer da angústia que é estar longe de meu bebê por todo esse tempo.
一 Estou incerta sobre as mentiras de ultimamente, cedo ou tarde eles descobrirão a verdade 一 comentei pegando nervosamente o colar sobre meu pescoço.
一 Tinha certeza que viajava com a mestra da arte da mentira, acho que acabei me confundindo 一 Athalos me surpreende, como pode estar tranquilo ao ponto de fazer piadas sabendo que estávamos mentindo para o homem mais poderoso de toda Blancástria? Bem, pelo menos do submundo de Blancástria. Ele esboça um sorriso de canto ao ver meu rosto sério e prosseguimos em silêncio.
Minha intuição odiou a imagem da taverna inteiramente vazia quando chegamos lá, o som do completo silêncio tampouco me deixava aliviada, porém seguimos em frente após uma troca de olhares. No momento em que Athalos abriu a porta em minha frente percebi que algo realmente estava errado, todas as mesas estavam empilhadas nos cantos e haviam poucas velas acesas. Estufei meu peito em posição de alarde.
一 Algo não está certo 一 sussurrei enquanto andávamos atrás de algum sinal de vida. De repente Athalos soltou um grunhido abafado, quase como se estivesse sendo enforcado, só foi quando eu me virei bruscamente que me dei conta, aquele era o início de nosso fim.
一 Fiz uma visita àquele velho esses dias e você sabe como ele fica após umas doses de hidromel, não sabe? É claro que uma faca apontada contra seu peito ajudou um pouco, mas nunca escutei uma história tão... fascinante 一 ele dizia enquanto limpava a adaga nas roupas de Athalos. Aquela visão, o sangue por todo o chão, os olhos verdes opacos quase me fizeram desabar, porém o ódio pelo sarcasmo das palavras que acabara de escutar me mantiveram em pé. O choque emocional não me fez recuar diante de cada passo que ele dava, apesar de não portar nenhuma arma senti que poderia acabar com um exército 一 Eu sei que você trabalha com probabilidades Ailah, é impossível que saia daqui com vida. Você escolhe: ceder ou morrer tentando 一 cerrei meus punhos e com um movimento ágil e rápido derrubei-o. Me aproximei limpando o sangue de seu nariz com meu indicador e respondi:
一 Vou arriscar a segunda 一 a raiva em meus olhos era visível, havia chamas ardendo neles. Então pisoteei sua mão, fazendo com que a adaga se alastrasse para longe. Ele soltou um grito intenso enquanto se contorcia de dor 一 Se quer fazer isso, iremos fazê-lo do modo justo.
一 Como queira, 一 ele recolhe a mão pisoteada para perto do peito e levanta sutilmente一 mas lembre-se 一 estava atenta a cada passo que ele dava, em posicionamento de ataque. Ele solta uma risada irônica e prossegue 一 não há justiça no submundo 一 senti o ar deixar meu corpo, uma queimação atingiu meu estômago e eu não conseguia soltar uma só palavra, apenas grunhidos. Inclinei meu rosto para baixo com dificuldade e vi meu vestido bege se tingir de vermelho, enquanto o brilho do prata da adaga reluzia ainda pendurada em meu corpo 一 e eu sempre tenho uma carta na manga.
Uma escuridão tomava conta dos meus olhos pouco a pouco, enquanto minhas forças finais se reuniam em um sorriso curto. Memórias rodeavam minha mente na rapidez da luz, porém a imagem daquele rostinho inocente fez com que se tornassem irrelevantes. A morte pode roubar-me a presença da minha maior felicidade, mas da lembrança dela jamais.
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Slorah - A Maldade da Bondade
Fantasy"A esperança é um conceito de ignorantes, pois o destino não é para aqueles acreditam, é para aqueles que planejam."
