- O Baile
Três regras de ouro: olhar sempre doce, passos leves e um sorriso que nunca se apaga.
Era o mantra que a tia repetia como uma oração, enquanto empurrava uma taça de cristal contra os dedos de Lins, o líquido âmbar brilhando à luz dos candelabros como fogo aprisionado.
- Apenas um gole, minha querida. Aquecerá o sangue e lhe dará a coragem que falta - a voz da mulher era doce, mas carregava o peso de décadas de convenções inquebráveis.
Lins levou a taça aos lábios. O álcool desceu queimando a garganta, espalhando um calor seco que nada tinha a ver com bravura. Ela segurou a careta, apertando os lábios até ficarem pálidos.
- Coragem eu tenho de sobra, tia. O que me falta é paciência para fingir ser algo que não sou.
A tia soltou um suspiro tão profundo que pareceu esvaziar o próprio peito, abanando-se com força com o leque de penas brancas.
- É exatamente essa sua língua afiada e esse seu jeito de quem desafia o mundo que faz com que nenhum bom partido queira levá-la ao altar. Você já passou da idade, Lins. O tempo não espera por moças teimosas.
Sentada no sofá de veludo carmesim, posicionado de frente para a imensa estufa de vidro que ocupava uma das paredes inteiras do salão principal da Casa V, Lins observava o espetáculo diante de si como quem assiste a uma peça já vista mil vezes.
O ar estava pesado, carregado de perfume de rosas, cera de vela e o aroma doce e enjoativo do champanhe. Senhoras desfilavam com vestidos de cetim e renda bordados à mão, seus colares e brincos faiscando como gotas de água sob a luz de centenas de velas, competindo em brilho e ostentação. Cavalheiros de casaca preta e coletes de seda caminhavam com passos calculados, copos na mão, trocando palavras sobre terras, lucros, títulos e casamentos - como se fossem negociações de gado, não de vidas humanas. No canto, a orquestra arrastava uma valsa suave, mas para Lins a melodia soava como uma marcha fúnebre.
Todos sorriam. Todos pareciam encantados, satisfeitos, em seu lugar.
E todos mentiam.
Ela conhecia aquele teatro desde que aprendera a andar. As moças curvavam a cabeça porque lhes ensinaram que a modéstia é a maior virtude; os rapazes elogiavam belezas que mal olhavam porque era o que se esperava de um bom pretendente; as mães calculavam fortunas e dotes com os olhos; os pais trocavam sobrenomes como moeda de troca. E os casamentos... ah, os casamentos raramente tinham algo a ver com amor. Eram contratos. Alianças. Prisões douradas.
Lins desviou o olhar para as portas envidraçadas da estufa, abertas para o jardim. Lá fora, a lua cheia banhava os canteiros de lírios e roseiras com uma luz prateada, fria e serena, muito diferente do calor sufocante do salão. Queria estar ali, com o vento no rosto, o cheiro de terra úmida nas narinas, em vez de ser exibida como uma peça rara e valiosa na vitrine de um mercado de noivos.
- Está vendo aquele rapaz, ali perto da janela? - sussurrou a tia, tocando levemente o braço de Lins com a ponta do leque. - Filho do Conde de Northumberland. Herdará três propriedades e uma fortuna que chegará para gerações.
- Fascinante - respondeu Lins, sem tirar os olhos da noite lá fora.
- E aquele outro, de óculos? Formou-se em Direito com louvor, vem de uma família antiga e muito respeitada.
- Ainda mais fascinante.
- Lins... - a voz da tia ganhou um tom de advertência.
- Estou sendo sincera - virou-se para ela, os olhos claros brilhando com uma determinação que fazia a tia estremecer. - Só não estou fascinada pelo motivo que a senhora imagina.
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O DUQUE DE BLACKWOOD
RomanceNa Inglaterra do século XIX, onde o destino de uma mulher é selado por nascimento e convenções, Lins carrega um sonho proibido: tornar-se médica. Para dominar técnicas de cura ainda desconhecidas na Europa, ela precisa cruzar mares até a Índia - mas...
