I - UM ACONTECIMENTO INUSITADO

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Em um piscar de olhos, Flávio viu-se a si mesmo andando sobre águas quentes, em um lugar que não reconheceu. Olhou para um lado, e, depois, para um outro. Nada lhe parecia ser conhecido. A certa distância pôde ver uma ilha. E nem a ela pôde reconhecer. Parecia deserta. Ninguém à vista. Ele, então, se aproximou cada vez mais dela.

Enquanto estava a caminho, reparou nas águas. Viu que, enquanto andava sobre elas, peixes nadavam abaixo. Alguns até faziam cócegas aos seus pés. Eram peixes diferentes. Nunca os tinha visto. Vira antes peixes de vários tipos e cores. Desde os pequeninos, que garotos gostam de ter quando criança, até os que costumava comer com sua família na Páscoa.

Os que via agora eram de tamanho "normal". Nem muito grandes, nem muito pequenos. Alguns poucos pulavam sobre as águas e mostravam sua beleza. Suas cores se iluminavam à luz do sol. Era um espetáculo de cores. E eles faziam questão de ostentar aquelas cores tão lindas.

Um deles saltou tão alto que chegou à altura da cintura de Flávio. Tinha mais ou menos uns quinze centímetros e o azul de sua cor lhe escondeu no mar ao fim de seu salto espetacular. Ao passo que a ilha parecia cada vez mais perto. Em poucos minutos poderia alcançá-la. Já podia até mesmo distinguir traços de sua vegetação. Alguns coqueiros pareciam, de longe, tão majestosos que uma enorme vontade de provar a água de seus frutos inundou o ser de Flávio, que passou a correr sobre as águas.

Correu tanto, na ânsia de provar logo da água de coco, que antes da metade do caminho ficou cansado e se viu obrigado a diminuir os passos. Passou a vagar lentamente sobre aquelas límpidas águas. Tão azuis que olhar muito para elas podia cansar a vista de qualquer um. Agora, não sentia mais os belos peixes sob seus pés.

Olhou para trás e pôde vê-los ainda a dar belos saltos à luz do sol. Quis nunca se esquecer daquelas cores. Aliás, não apenas delas. Mas, de toda a bela paisagem ao redor da pequena ilha desabitada. Uma ilha tão-tão-distante. 

Sentiu que, a cada passo que dava, a ilha se lhe parecia mais longínqua. Como se seu esforço nunca fosse recompensado. Não importava o que fizesse, ela sempre parecia distante. Inalcançável. Correu novamente até que suas pernas fraquejaram. Estava já próximo à pequena praia da ilha. Alguns pequenos animais pareciam lhe observar. Um papagaio de cores também majestosas, nesse instante, começou a bater suas asas em um vôo agitado. Ao pousar à praia, eis que começou a gritar:

— Homem ao mar. Homem ao mar. — algo que soou como um estalar de dedos entre os sons daquele paraíso tropical.

Porém nenhum animal mais olhava para Flávio. Ele, então, percebeu que não mais andava sobre as águas. Estava se afogando. Afundou uma vez. Agitou-se e cheio de vontade conseguiu novamente chegar à superfície. Apenas para ver mais uma vez a bela ilha. No instante seguinte, estava no fundo do mar pedindo perdão a Deus por seus pecados.

A criseOù les histoires vivent. Découvrez maintenant