Enquanto durar

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Basta pisar o pé na areia e o barulho do mar traz aquela sensação conhecida de casa, os azuis dançam diante dos seus olhos entre o céu e a água, e com certeza tornam o dia mais feliz. Era disso que Luna precisava, de sentir-se ali, nesse canto que é meio casa, meio paisagem-linda-que-me-inspira-e-eu-amo-estar-por-perto. A sensação de casa que faz ela se sentir mais ela, mesmo que ainda não saiba o que isso significa ao certo.

Pés descalços e a areia, um clássico, e a água gelada nos pés, enquanto caminha a pequenos passos, como se contemplasse uma tela em um museu com música clássica de trilha sonora. "Eu ficaria para sempre aqui" – conclui, enquanto sente a brisa lhe tocar a pele. E sim, ela é o tipo de pessoa que costuma se ater a esses detalhes, às sensações, ao que aquela cena lhe faz sentir. Passa tanto por sua cabeça o tempo todo que seria difícil até para ela descrever precisamente tudo.

Ela senta mesmo com toda areia, e apenas para. É a hora de estar ali. E a essa altura, aquele aperto no peito que não é de tristeza, mas também não é ... está ali. E querendo ficar ali em paz com o mar, um pensamento lhe atravessa, e apesar de incomodo, ele faz sentido – "Quando a maré vai virar⁇". Não é um pensamento literal, ela sabe que provavelmente depois das 16h, só as 22h para a maré subir novamente, é de outra maré que ela estava pensando. É algo do tipo "qual vai ser o próximo momento em que minha a vida vai virar de cabeça para baixo outra vez? Como vai ser?", e o medo de perder sua vó vem com força. Imagens como as que a tocam todas as noites voltam, e dói. Há um ritual, para afugentar o medo ela se agarra sempre a última conversa, a última imagem que viu, mesmo que tenha sido a poucas horas atrás. Mas diferente do esperado, o medo não some, ele só aumenta, porque é difícil imaginar que ela poderia ter ficado mais, conversado mais, ou ter ficado lá ao invés de vir. Luna sabe que esse não é um jeito gentil de viver, mas imagem simbólica da maré virando é na verdade um tsunami, é um tipo de garantia dolorosa sobre a vida e sobre tudo que ela já viveu, para ela é quase que natural viver esperando sempre por mais uma mudança abrupta. "A vida não dá avisos", ela simplesmente te obriga a viver o agora com verdade ou na verdade você não tem nada, porque ainda que sejam boas memórias elas sempre lhe escorrem nos dedos.

A água fria lhe toca os pés e o som dos passarinhos ao fundo lhe trazem de volta. "É melhor voltar, antes que o looping comece", ela respira, sente a areia sob seus pés, pega o livro que trouxe e tenta começar a ler.

É Campell, o Poder do Mito, parece ser um livro interessante, apesar de exigir mais do que ela consegue dar de seu raciocínio agora. É que formas de explicar o mundo sempre lhe encheram os olhos, mas com certeza o pôr do sol e o mar cumprem esse papel melhor agora, apesar de seus olhos permanecerem no papel.

- O que você está lendo⁇ -, disse uma voz masculina de alguém que aparentemente se sentara ali ao lado.

- O poder do mito – respondeu, ainda analisando o menino ao seu lado. "Beleza britânica", foi o pensamento mais rápido que lhe ocorreu.

- O livro é bom⁇ - Respondeu ele, curioso e tímido.

- Eu ainda não comecei para falar a verdade, mas tive boas indicações -, respondeu.

- Humm -, foi sua única resposta, enquanto olhava para o mar.

Fez-se um silêncio, o silêncio apesar de sempre lhe parecer muito tentador, agora parecia desconfortável. Os dois olhavam o mar, com um ar de contemplação que oscilava entre uma admiração real e uma forma de lidar com a estranheza da conversa recém iniciada, se é que era possível chamar de conversa.

- Eu sou o Arthur.

- Luna. – respondeu balançando a cabeça como um cumprimento.

- Luna -, ele falou, como se tentasse absolver essa informação.

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⏰ Last updated: Sep 21, 2020 ⏰

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