Capítulo 1

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5 de abril de 2019

Andando pela rua a caminho de casa, Will caminha devagar e mantém um leve sorriso no rosto, como sempre. Foi um dia corrido, o restaurante estava muito cheio e teve que ficar até mais tarde. Típico de um sábado a noite, mas não muda o fato de que é bastante cansativo. Depois de cozinhar horas e horas até que o último cliente saia satisfeito, tem que limpar tudo, devolver cada utensílio ao seu devido lugar e, por sorte, Paulo ficou pra fechar a cozinha.

Will deu muito duro para conseguir o seu cargo de cozinheiro no Farfalla, imponente restaurante na área nobre da cidade. Saiu de um emprego como atendente num fastfood e graças às recomendações de um professor da faculdade hoje ocupa um cobiçado cargo para qualquer estudante de gastronomia. Pode ser apenas o começo mas já é um ótimo começo. Sem contar que o restaurante fica a apenas 20 minutos da sua casa. Dois quarteirões até o metrô e mais três depois da segunda parada.

Agora, já madrugada de domingo, enquanto faz o caminho de volta pra casa, Will já desceu do metrô e está a alguns metros do seu apartamento. É um bairro de estudantes, vários condomínios com pequenos apartamentos nos quais uns quatro ou cinco jovens que não conseguem arcar com o custo total do aluguel se espremem uns com os outros para dividir as contas. Quanto a isso Will tem sorte, ele já teve que dividir o apartamento com outros amigos mas hoje em dia, com o salário que ganha no restaurante consegue manter seu apartamento sozinho, e por mais que ele odeie ficar sozinho, por algum motivo não hesitou em se isolar assim que o apartamento do prédio ao lado ficou vago. Apesar de serem bem apertados, estes apartamentos são muito procurados por conta da localização. É próximo do centro, tem o metrô pertinho e um ou outro mercadinho e lanchonetes, que é mais que suficientes para o monte de jovens que não têm tempo para cozinhar.

Passando pelo bloco três, ainda com seu caminhar calmo e ritmado, Will já avista seu apartamento no nono andar do quarto bloco. A rua está tranquila, ao longe dá pra ver dois food trucks que insistem em competir pela mesma esquina a meses.

- Os dois sem clientes, de novo - fala com um homem baixo bem acima do peso que ao avistar Will abre um sorriso e gargalha respondendo.

- Bom, eu fiz minha parte garoto - ele mostra um sanduíche numa das mãos enquanto segura uma latinha de refrigerante na outra - daqui a pouco eu pego mais um lanchinho com o outro pra equilibrar.

Will ri olhando para o homem e balançando a cabeça:

- Me sinto muito seguro ao saber que o segurança que deveria guardar o prédio tá mais preocupado com a economia daqueles dois cabeça dura.

- Eu preciso manter meu porte físico pra assustar os encrenqueiros. E não preciso nem falar do meu histórico de atleta né? - gargalha mais uma vez o segurança. Gargalhada que compensa umas três vezes sua falta de estatura.

Os dois riem mas já é tarde e Will adentra o prédio enquanto se despede do segurança brincalhão. Nada de elevador, como sempre. Ele vai direto para as escadas e sobe trotando sem parar até seu andar. Não existem muitos adornos ou ornamentação em excesso no prédio e não é diferente no apartamento de Will. Ele destranca a porta lisa de madeira e vê é seu sofá de frente para a TV, ao fundo a cozinha que é dividida apenas por uma meia parede, e a porta que leva para varanda e área de serviço. A direita fica o quarto e banheiro. Não tem nada fora do lugar, isso porque a arrumação mensal de Will foi a dois dias. Em uma semana tudo estará diferente. É raro um mês em que a disposição das coisas não é alterada. Às vezes Will só muda o sofá ou põe algumas cadeiras de frente a meia parede que serve como balcão. Já houve uma mesinha de centro nesta sala, mas ela está perdida. Foi uma ótima ideia comprar essa mesa de centro dobrável. Ela é muito prática. o problema é que depois que dobra ela cabe em qualquer lugar e não seria surpresa achá-la dentro do guarda roupas ou no banheiro. Nos próximos dias ela deve aparecer.

Will vai direto até a cozinha e procura alguns biscoitos dentro das gavetas. Encontra umas rosquinhas de coco, suas preferidas. Pega o pacote inteiro e vai até o sofá. Por um momento ele apenas fica ali, parado, sem pensar em nada. É daqueles momentos em que você mal percebe que o tempo passa, próprios dos dias cheios e cansativos. Mas não dura muito, com uma mão ele joga uma rosquinha na boca e com a outra pega o controle da TV para ligar em qualquer canal. Neste momento não importa muito a programação, a televisão é apenas para preencher um pouco do vazio. E desde a juventude, desde o incidente com seu amigo, Will não suporta estar sozinho consigo mesmo. Sua cabeça é barulhenta demais e o rapaz alegre e extrovertido de sempre dá lugar ao garoto assustado que não consegue afastar a culpa. Culpa que ele mesmo atribui a si. Agora não é diferente.

É difícil encarar os momentos sozinhos e Will sabe disso, mas parece que hoje tem algo diferente no ar. Ele olha para a TV mas sequer consegue entender o que está sendo falado. A voz na cabeça está mais alta hoje. A voz de Otávio. A voz que o tortura mesmo que ela não tenha mais vida...

Vrrrrr Vrrrrr! - o celular de Will toca e o tira do transe

- Quem em sã consciência faz ligações a essa hora da madrugada? - Will diz voltando a sua expressão ao bom humor de sempre - é bom que eu tenha ganhado um prêmio incrível - ri um pouco e pega o celular.

Ao pegar o celular ele vê o número e a informação abaixo diz que a ligação é de Pinhal, sua cidade natal, mas se é de alguém que ele conheça o número não está salvo na agenda. Isso assusta um pouco.

- Alô! - Ele diz apreensivo e aguarda.

- Alô! Eu gostaria de falar com Willian Carvalho - a voz do outro lado parece desanimada. Será cansaço apenas? Parece que é algo mais.

- Sou eu mesmo. Quem está falando?

- Meu nome é Marina, sou enfermeira no Hospital Regional aqui de Pinhal. Seu nome estava listado como contato de emergência dos...

Will a interrompe pedindo que ela seja mais breve. Na sua mente só se passa o pior:

- Dos meus pais. O que aconteceu? Fale de uma vez! - apressa para acabar com a espera.

- É... Seus pais... - a moça hesita por um instante mas fala a seguir - Eles foram encontrados mortos dentro de casa. Houve um vazamento de gás e os vizinhos chamaram a polícia quando o alarme da casa disparou. Segundo a polícia não se sabe o que disparou o alarme, afinal o problema foi mesmo o vazamento de gás, mas se não fosse isso os corpos não seriam achados tão cedo. A causa do óbito foi asfixia, devido a inalação do gás. Eles estavam dormindo quando aconteceu.

Assim que a enfermeira termina de falar o mundo se apaga. Will está preso dentro de sua mente, as vozes dos pais se juntam a de Otávio. Eles questionam Will "onde você estava?" "quando foi a última vez que você ligou pra eles?" "É sua culpa" "É SUA CULPA WILL" "você abandonou todos que mais precisaram de você. Você é assim, sempre será assim"

- Senhor? Ainda está aí? - a enfermeira pergunta sem sucesso - eu compreendo sua perda, mas preciso que fale comigo.

Will desliga o celular, numa expressão angustiante. Ele está sem reação, até que lágrimas começam a rolar pelo seu rosto, a princípio devagar, mas em questão de segundos ele está aos prantos. Não é apenas a dor da perda, tem a dor da culpa, da saudade, da sua incompetência. Seu celular volta a chamar mas ele não o atende, ele não tem forças para isso. Ele passa do sofá para o chão que parece ainda mais frio que o natural. Suas mãos vão até a cabeça e tentam sem sucesso, calar as vozes que insistem em despedaçá-lo. Elas vêm de dentro, e não é fácil calar a própria mente.

No chão e sem cessar as lágrimas por um minuto sequer, Will se contrai cada vez mais até que por compaixão divina ou satisfação das trevas que o rodeia, ele é tomado pela inconsciência.

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