Capítulo Único - Flor Escarlate

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Laura descobriu que sua beleza podia dar lucro. Cliques aqui, modelagens ali, tudo ia bem, até amarrar seus sonhos nas pernas do jogador de futebol, Jair. Entre jantares de luxo e viagens marcantes, viveu seu conto de fadas e, num passe de mágica, se viu casada. Jair adivinhava seus pensamentos, ao ponto dela se esquecer de pensar. No começo era maravilhoso, até Laura perceber que não escolhia mais lingerie, maquiagem, nem mesmo seu absorvente; já que tudo era tal e qual Jair queria.

Não faltava nada, mas lhe faltava tudo! Via-se sozinha durante as viagens do marido, aos poucos todos se afastaram e se viu refém; enclausurada em seu próprio castelo. Sua função era estar sempre disponível para Jair; já ele, entre trabalho e noitadas com amigos, deixava Laura pra depois. Até o sexo ficava pra depois. Jair se embebedava nas folgas e logo dormia, outras vezes gozava antes dela se excitar, muitas vezes nem conseguia começar. Aí vinham os insultos:

— Porra, Laura! Você é fria! Não serve para nada.

Jair passou a enxergar na esposa uma unha lascada, uma dobrinha a mais nas costas; sabe aquela onde fica o sutiã? Pois, é! Além disso, culpava-a pelos três anos em que um herdeiro não chegava. Laura definhava como se definha uma mariposa sem asa.

Numa manhã, viu o marido na net, numa balada internacional com loiras de todas as nuances. Sufocada na ingratidão, precisou de ar e saiu para o jardim a caminhar. Foi então que ouviu Paulo, o jardineiro, cantarolando. Ele lhe trazia flores frescas pela manhã, mas poucas palavras tinham trocado; ela sequer o tinha olhado em seus macacões surrados. Curiosa, foi se aproximando delicadamente, surpresa ao avistar um jardineiro tão diferente. Paulo parou a canção e se levantou rapidamente. Laura descobriu o quanto ele era alto, que tinha olhos negros e corpo moreno sarado, pois estava sem camisa e com o macacão abaixado.

— Dona Laura! A senhora por aqui? — nítida surpresa.

— Ah, sim... Quis ver o jardim.

— É que, a senhora nunca vem —ele diz arrumando o macacão —desculpe, mas é a primeira vez que a vejo por aqui.

— Ah, ando sem tempo—mente a contragosto, mas desvia o olhar que teima em pousar naquele rosto.

— A senhora quer dar uma olhada nas novidades?

E assim, Laura redescobriu seu jardim. Aprendeu a mexer na terra, a podar rosas, a semear margaridas. Paulo era gentil e se preocupava com ela; se um espinho lhe feria, se escorregava na relva molhada, se um gafanhoto lhe assustava. As visitas se estenderam e ambos começaram a trocar sonhos e segredos. Ela disse detestar ser "a mulher do jogador"; ele contou que amava ser floricultor.

Combinaram de fazer uma colheita ao amanhecer; porém, naquela noite, Laura dormiu chorando. Viu Jair em outra balada e, num acesso de raiva, ligou para ele.

— Quem é você pra falar assim comigo, Laura? Quando eu voltar vai ter o que merece.

— E o que mereço, Jair?

— Um chifre por ser tão fria e porrada por esta ousadia!

Presa na escuridão da noite, Laura não percebeu o sol raiar, até batidas na janela lhe despertar:

— Laura, hora da colheita!

Ela escancara a vidraça e com um lindo sorriso se depara.

— Me dá um tempinho, Paulo?

— Claro! Vem pra cá!

Em meia hora se prepara: banho, short curto, cabelo preso e batom escarlate. No espelho, redescobre a mulher perdida no tempo, atrofiada, proibida até de usar batom vermelho; "cor de puta". Já no jardim se encanta com as flores, das mais variadas cores e Paulo lhe entrega uma tesoura de poda:

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⏰ Last updated: Sep 10, 2020 ⏰

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