Único

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Harry Potter fitou os olhos azuis claros de Draco Malfoy pela última vez naquele dia.

Estava tudo tão turbulento. Precisava matar Voldemort, precisava agora. E, enquanto corria, viu o Malfoy, confuso, sendo puxado pelos seus pais.

É claro que eles sabiam que o Lorde iria perder. Narcissa Malfoy sabia que Harry estava vivo e o protegeu, salvou sua vida. Deveria estar planejando a fuga desde aquele momento.

Mas Draco olhava para o Potter, esperançoso, com medo. Nunca havia o visto tão assustado — e ele já esteve assim várias vezes, seja após ser atacado por um hipogrifo ou ter que passear pela floresta negra em um castigo.

Foi a última vez que viu aquele azul até ter sido chamado para depor e inocentado Draco e sua mãe. Lembra de vê-lo agradecer, com a feição tão cansada e destruída quanto a sua própria.

Tempos e tempos depois, lá estava Draco Malfoy outra vez, na estação de trem. Estava junto a um garoto — que Harry presumiu ser seu filho.

Segundos depois, o loiro levantou o olhar e viu o Potter, e então sorriu para ele de uma forma que nunca havia sorrido antes. Foi quando Potter soube que o garoto arrogante que lhe atormentava na escola não existia mais.

E, em um flash, lembrou de como se conheceram, na cabine do trem. O Malfoy com toda sua elegância mirim, preconceitos e maldade. Pensou no Draco destruído que encontrou no sexto ano, incumbido de realizar uma tarefa que fez seu coração em pedaços — e quase o matou junto aos seus pais.

Pensou e, logo após, retornou a primeira cena. Imaginou se poderia ter evitado tudo de ruim que aconteceu ao loiro se tivesse apenas apertado sua mão, o chamado para se sentar consigo e com Ron. Será que conseguiria mudar seus pensamentos? Será que Draco tinha a chance de ser alguém bom?

Afinal, quem sabe das coisas aos 11 anos? Harry poderia ter sido muito bem como ele. Poderia odiar trouxas, mas não o fez, porque sequer sabia que podia. E, no fundo, se soubesse que era um bruxo antes, provavelmente amaldiçoaria 3 gerações dos Dursley.

Potter se sentiu levemente culpado e ansioso. Mas sabia que não tinha culpa. Malfoy havia sido criado daquela forma, com aqueles pensamentos, e ninguém havia o dado espaço amigável em sua vida. Nem os sonserinos com quem ele andava eram tão seus amigos assim. E Harry não tinha culpa disso, óbvio que não. Mesmo assim, no seu interior, queria que as coisas tivessem sido diferentes.

Queria que não tivesse tido uma impressão tão ruim da sonserina porque agora — após conhecer quem Snape realmente era — ele entendia a casa e deixava a rivalidade escolar de lado. E quando seu filho teve medo de ir para a sonserina, conversando consigo naquele mesmo dia, Harry o garantiu que ficaria tudo bem.

Se não tivesse tido essa impressão, provavelmente também teria sido amigável com o loiro depois. Talvez ele não acabasse virando um bully, ou um Comensal da Morte, ou um jovem com claros problemas de ansiedade.

Mas Harry sabia que não poderia evitar o que estava para acontecer. Draco teria que escolher um lado de qualquer forma, e o Potter entendia como o sonserino amava sua mãe mais que tudo na vida. Sabia que essa havia sido a principal razão por tudo. Não que odiasse nascidos-trouxa de verdade, ou acreditasse em Lorde Voldemort. Draco só não poderia em hipótese alguma abandonar sua mãe em meio a pessoas tão perigosas.

Quando as crianças embarcaram, Harry decidiu se aproximar. Timidamente, parou ao lado do loiro, vendo o trem começar a se preparar para partir.

Draco o olhou de canto. O Eleito ainda parecia o mesmo adolescente de sempre — mesmo que agora penteasse o cabelo, tivesse marcas da idade se aproximando e fosse bem mais maduro.

Malfoy mesmo estava um pouco diferente. Ainda carregava a mesma beleza de antes, o nariz arrebitado ainda tinha prepotência. Draco só era alguém melhor, dava mais sorrisos — fracos, esforçados — e tentava ser feliz.

— Assustado, Potter? — brincou, trazendo de volta uma costumeira frase do passado. Ele mesmo estava morto de medo. Dar adeus a Scorpius era perder uma parte de si, mas a visão sorridente do filho acenando pela janela o trouxe mais um sorriso.

— Sinceramente, sim — Harry murmurou, dando uma leve risada — Mas eu já deveria estar acostumado.

— Não acho que dá para se acostumar a viver sem eles — suspirou o outro. A tensão entre os dois estava presente. Talvez ainda tivessem alguns assuntos mal resolvidos — Primeiro ano do Scorp. Ele está muito tenso.

— Albus também. Está com medo de ir para a sonserina — comentou com graça, recebendo um riso fraco do outro — Tive que lembrar a ele a cota de sonserinos que eu gosto.

O Malfoy se virou levemente, as sobrancelhas arqueadas — Sabe, Potter, você até que está na minha cota de grifinórios suportáveis.
Harry riu, balançando a cabeça.

— Você é o primeiro nome na minha.
Apesar de ter sido um comentário amigável, o moreno achou que tivesse dito algo errado. Draco tinha os olhos levemente arregalados e a expressão surpresa, que logo tentou disfarçar com um coçar de garganta.

— Pensei que me odiasse.

— Nunca te odiei — respondeu Harry — Não, certo. Eu te odiava quando éramos crianças. Mas não odeio mais.

— Também não te odeio mais. Faz uns bons anos que não te chamo de Testa Rachada... — o Malfoy tentou buscar um alívio cômico, tentando disfarçar o quanto havia ficado mexido com as falas anteriores.

— E eu não xingo mais você ou falo do seu gel de cabelo.

— Eu realmente passava muito gel — admitiu o loiro e ambos riram. Hermione, ao longe, cutucou Ginny para ver a cena, e ambas deram sorrisos felizes. A Guerra parava de ser uma ferida lentamente.

— Olha, algum dia desses... — Potter começou, incerto. Não era tão bom com palavras na maioria das vezes — Nós podemos ir tomar um café, ou algo assim?

Draco assentiu rapidamente. Sem comentários ofensivos ou repletos de sarcasmo. Só um leve sorriso.

— Claro, podemos sim. Sei de um lugar ótimo. É trouxa, mas sei que você não se importa.

Harry o olhou e sorriu. Nada disso importava, nem para Draco.

— Eu mando uma coruja para você e marcamos. Ainda mora na Mansão?

— Sim — murmurou o Malfoy, um frio no peito ao lembrar que Harry não tinha memórias nada boas do lugar — Mudei os ares por lá. Ou tentei, ao menos. Mas Scorpius traz felicidade a tudo, então eu considero que deu certo.

— Ele parece ser um ótimo menino. Espero que ele e Albus se deem bem.

— Se não estiverem competindo pela taça das casas, eles vão — riu o loiro.

Então eles ficaram em silêncio, apenas parados e desfrutando de suas companhias. Logo, Ron, Hermione e Ginny se aproximaram e cumprimentaram o Malfoy educadamente. Ronald tomou espaço para puxar assunto, e após alguns segundos de distância Draco deixou-se engatinhar em uma conversa.

Harry sorriu, observando a cena.
Queria que tivesse sido dessa forma desde o início, mas quem se importa com alguns anos perdidos, não é mesmo?

Anos Perdidos entre Harry Potter e Draco MalfoyHistorias para obsesionarse. Descúbrelo ahora