Ângela contemplou a escuridão por um breve momento. Relances de claridade passavam a pertencer vagamente, por instantes, seus olhos lacrimejantes. Eles estavam na busca pelo preenchimento total e absoluto de sua visão; mas onde estavam as forças das quais outrora, com tamanha facilidade os faria finalmente conquistarem seu objetivo?
Suas pálpebras se esforçavam e tremendo ante o seu fracasso, denunciavam a ausência de algo que uma vez fora tão comum e banal, que seria piada se ela ouvisse tempos atrás alguém lhe contar sobre a inabilidade de suas próprias ações ante o seu comando mental.
Era a estação final da linha metroviária da qual decidira embarcar horas atrás. Jamais pudera suspeitar que seria tão breve a jornada, afinal acabara de se acomodar na poltrona.
Ouvia o barulho de alguma coisa tocando: um som tênue, talvez um lá maior agudo, bastante enjoativo, porém muito familiar que já havia ouvido por diversas vezes ao longo do caminho, mas que dessa vez denunciava outros; graves e agudos fora do antigo padrão.
Requintes de uma nova situação: o tempo tinha passado. A dor havia se tornado sua companheira que em mãos firmes era sustentada, para que no balançar dos trilhos, nos breques e nas acelerações do veículo, não escapasse. Lá não existia compartimento para bagagem. Cada um carregava a sua própria, certo de que ao chegar ao destino, pudesse então apreciar suas boas e más escolhas, que foram selecionadas como reais, insubstituíveis.
Finalmente pôde então abrir os olhos. Sentiu quando algo a tocou, empurrando seu corpo para fora do vagão, mas o que seria? Seu rosto também foi tocado por uma leve brisa, todo o seu corpo foi por instantes participante de algo tão novo e sensível. Ao mesmo tempo reconhecível e doloroso.
A dor se tornou tão forte após isso que uma vontade incontrolável de abrir a boca e gritar, de declara-la ao mundo a tomou. E assim fez. Sentiu algo leve e quente escorrer dos seus olhos, enquanto ouvia a si mesma, num alarido de verdadeira comunicação entre sofrimento e consolo. A busca por uma trégua. Já não queria mais ter deixado o vagão. Mas era tarde demais, a grande mala seria sua companheira ainda na cidade desta estação final, Solange poderia então começar a moldar com as ferramentas da mala o seu destino.
Hoje é 10 de janeiro de 2003, Ângela acaba de nascer.
