Capítulo 1: Noite e Luz

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Houve uma época em que os céus eram escuros nas noites em Eledhor, e somente o brilho fraco de pontinhos de luz enalteciam a grandiosidade do cosmo. Muitas histórias contam de formas diferentes o que aconteceu com o manto lúgubre de Thimera, mas vos conto aqui a verdadeira.

Nas regiões ao leste do continente de Eldham, no Bosque de Yllum, havia uma tribo élfica. Naquela noite, havia uma grande agitação: eles celebravam a sua devoção à divindade que representava a imensidão da noite, e o Festival de Thimera era aguardado com ânsia durante vários ciclos solares. Música, dança, comida e, no auge da noite, o ritual sagrado da tribo que, segundo a tradição, renovaria a adoração à Thimera, tornando-a mais forte e clamando por sua proteção durante os próximos ciclos.

Naquela noite, também acontecia um evento inédito para a tribo: duas elfas, Elora e Yerin, entraram em trabalho de parto ao cair da noite do Festival daquele ciclo. Pelos registros da tribo e pela história que contavam nas noites de fogueira, nunca antes havia nascido um elfo na noite do Festival de Thimera, e isso deixava a tribo em êxtase. Com certeza era uma grande honra chegar ao mundo em um momento tão sagrado.

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As parteiras se apressavam por entre as tendas carregando mantos, água e abanadores; alguns curiosos se aproximavam silenciosamente da tenda onde estavam Elora e Yerin, como se aguardassem algo extraordinário, místico. Os demais elfos penduravam mantos prateados por entre as árvores, conferiam se as mesas de comida estavam devidamente organizadas, faziam os últimos acordes de preparação para as cantorias e algumas crianças se esgueiravam e pegavam alguma guloseima das mesas sem que os adultos percebessem.

Uma das crianças, talvez a mais astuta entre elas, percebeu o olhar curioso de alguns elfos adultos para uma das tendas. Sabia que a tribo receberia naquela noite dois elfos, e se sentia muito feliz com a chegada deles. Havia muitos anos desde que ela havia nascido, a mais nova dentre todos da tribo, e finalmente teria companhia para suas brincadeiras e aventuras.

Começou a imaginar as mil aventuras que poderiam ter juntos. Queria lhes apresentar o Espelho do Céu, onde poderiam nadar escondidos sem que os adultos descobrissem porque ela sabia um caminho escondido para chegar a uma parte do lago que poucos frequentavam. Queria mostrar para eles a árvore em que se escondia, onde colecionava suas descobertas como a maior exploradora do Bosque de Yllum. Queria escapar de seus afazeres diários para encontrá-los e se aventurarem...

Os gritos vindos da tenda a acordaram de seus devaneios. Ficou pensando se eles demorariam muito pra chegar, porque ela estava muito ansiosa por tudo que eles poderiam fazer juntos. Por um momento, pensou ter ouvido o choro de um bebê, e se perguntou se eles finalmente tinham chegado.

Foi quando ouviu uma voz perto dela, que a chamava.

- Halira! Onde você esteve? Já vai começar! - Era sua mãe, que a procurara por toda parte. - Não está ouvindo?

A pequena elfa deixou de lado seus pensamentos sobre a chegada dos elfos e percebeu que a música do festival já começara! Correu logo para o centro da tribo, onde estavam as mesas cheias de comidas incríveis que só era possível experimentar na noite de festival.

~

Phyrra, a xamã-mestre da tribo, saiu de sua tenda. Todos ali sabiam que isso significava que o ritual daquela noite estava prestes a começar. Andou devagar por entre os elfos em direção a um altar que se erguia no centro da tribo, apoiada em seu bordão - um pedaço alto de madeira com certos desenhos que se emaranhavam até o topo, onde haviam alguns frascos, uma pena prateada e um cristal da mesma cor, todos presos. A música animada cessou e os elfos se encaminharam próximos a ela.

Quando Phyrra chegou ao altar, os tambores começaram a rufar em uma vibração grave, que preenchia o corpo todo de cada elfo ali presente com uma energia inigualável. Os alaúdes começaram os dedilhados suaves, reverberando notas harmônicas e belas, enquanto as harpas e as flautas os acompanhavam, transformando a tribo e o bosque nos arredores em um palco mágico. Por fim, o coro se uniu à canção e, ao entoar os diferentes timbres, permitiu o início do ritual.

Os jovens elfos que naquele ciclo haviam chegado à idade adulta saíram, então, de uma das tendas. Eles usavam mantos cerimoniais dourados e púrpuras, e cada um carregava uma pequena cumbuca de barro com um líquido prateado e viscoso com as mãos na altura do peito. Seguindo a melodia ritmada, enfileiraram-se e caminharam lentamente em direção à Phyrra, que os aguardava. O altar era construído com pedras brancas, cinco colunas da mesma pedra que se dispunham equidistantes umas das outras, formando um círculo.

Um a um, subiam junto à xamã-mestre no altar, que recebia de suas mãos a cumbuca de barro e os despia do manto cerimonial. Com seus dedos molhados com o líquido prateado das cumbucas, Phyrra desenhava nos corpos jovens os símbolos de Thimera; eram runas sagradas que marcariam a passagem para a vida adulta através do compartilhamento de suas energias vitais com a divindade da noite, para que ela se mantivesse forte o bastante para proteger a tribo e, em troca, abençoar esses elfos com seus dons na magia. Enquanto desenhava as runas, proferia encantos em um idioma singular e rústico e, aos poucos, elas começavam a brilhar.

Quando as runas estavam prontas, Phyrra os rodeava e, com seu bordão, buscava a presença de Thimera nos céus escuros e oferecia o elfo à sua proteção e energia. As pedras brancas se enchiam de runas brilhantes por alguns momentos, e isso simbolizava a aceitação do elfo pela divindade, enquanto as runas em seus corpos lentamente deixavam de brilhar e se tornavam desenhos fracos que os acompanhariam pelo resto de suas vidas terrenas.

Assim que todos os jovens elfos haviam sido consagrados diante de Thimera, a xamã-mestre agitou o seu bordão, indicando que Elora e Yerin se aproximassem do altar com os seus pequenos elfos, que se aninhavam silenciosos nos braços de suas mães. Não era costume que recém-nascidos recebessem a bênção de Thimera, porque deveriam antes provar seu valor até chegarem à idade adulta, mas ela sabia que o nascimento de ambos representava uma manifestação divina.

Proferindo um encantamento com seu bordão, extraiu o líquido prateado de um frasco que nele se pendurava. Elora e Yerin cuidadosamente colocaram os filhos deitados na pedra branca do altar e se afastaram, e Phyrra se ajoelhou para aproximar-se dos pequenos. Vagarosamente, desenhou as runas sagradas pelos corpos frágeis de ambos, que começaram a brilhar. Quando terminou, levantou-se e ergueu seu bordão novamente para a escuridão, clamando pela bênção de Thimera aos recém-nascidos.

A música, então, parou. O ritual estava concluído, e até a floresta parecia ter entrado em um transe silencioso. Não se ouvia mais o choro dos dois elfos recém-nascidos, ninguém ousava se mover e todos, até mesmo as crianças, olhavam fixamente para o altar prateado com a escuridão ao fundo. E desse manto escuro surgiu, pela primeira vez desde a Primeira Confluência do Círculo, aquela figura élfica alta, de pele prateada e brilhante como os pontos luminosos no céu, em mantos púrpura e dourados.

Aquela, sem dúvida, era a própria Thimera.

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⏰ Última actualización: Oct 23, 2020 ⏰

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