A sala estava silenciosa, tornando qualquer som, por mais baixo que fosse, ensurdecedor. A poltrona branca se estendia pelo cômodo, trazendo consigo almofadas duras e desconfortáveis. O tapete felpudo estava empoeirado, mas ainda era macio o suficiente para se jogar nele. A beleza daquele lugar não estava nos móveis, mas sim nas paredes. Tijolos alaranjados mostravam suas faces com timidez, forçando suas estruturas não tão frágeis a segurar quadros enormes e sombrios. O principal era o maior de todos, no centro, exibindo uma mulher de costas e seminua. Sua silhueta possuía uma riqueza de detalhes absurda, traçando um caminho tortuoso e esguio. Era um belo quadro, por mais que os olhos da mulher estivessem fixados em quem observava.
A garota sentou-se no tapete, envergonhada. Sentar-se no chão não era bem visto, e isso a preocupava. O que diriam? "Uma dama, no chão?" Pensou, e pensou, e pensou. Antes que chegasse em uma conclusão, saiu imediatamente dali, permanecendo quieta na poltrona. Cruzou as pernas. Estaria sendo ridícula dessa vez? Ficar ali sentada era o que deveria fazer? Não sabia. Nunca soube.
Voltou sua atenção para a parede de tijolos e a mulher seminua. Ela tinha a pele pálida, cabelos ondulados e avermelhados. A pintura era corrida, como se o pintor não possuísse paciência, dando a ideia de movimento, mesmo que ela estivesse parada. Embora fosse fascinante, o que mais chamava atenção era, além do seio, o rosto. Ela estava com a cabeça virada — se fosse real, com certeza teria quebrado o pescoço —, com as pequenas pupilas vidradas em algum ponto no infinito.
Ana odiava aquilo.
— Ana! — ouviu a mãe chamar. — Já está tarde, vai dormir.
Sua mãe estava na cozinha, jogando cartas com alguns amigos. Eles eram silenciosos demais para jogadores assíduos, dando a impressão de que se esmagavam atrás da porta para ouvir o que a criança dizia. Mas não dizia nada. Afinal, como poderia? Estava sozinha.
Sozinha. Palavra forte que traía a garota assim que era pensada. As vozes dos jogadores aumentaram, aumentaram, ficaram tão altas que pareciam estar ao lado dela. Nervosa, encarava todos os lados, tendo a impressão de ter visto um vulto. Não devia ser nada. "Estou sozinha", repetia, "Nada pode me machucar".
Levantou-se e foi para seu quarto, virando a esquerda no fim do corredor. Uma sensação pesada a seguia, como uma presença. Virou-se. Não havia nada.
Algo apertou em seu peito, como se o pressionasse para baixo. Talvez fosse uma mão fantasmagórica segurando seu coração, ou só um pressentimento, mas doía. Tudo piorou quando entrou no cômodo vazio. A porta do guarda-roupa estava aberta — um crime! —, o que a fez correr para fechá-lo. Sua respiração estava fora de ritmo agora, e seu peito subia e descia freneticamente. O nervoso se dava por causa da cama. Ela estava com os lençóis esticados, o edredom devidamente alinhado e o travesseiro afofado.
Ela não arrumava a cama. Nunca.
Sua mão tremia, então resolveu deitar-se. Dormir fazia um bem danado para a alma, vivia dizendo sua falecida avó. E, como sempre, não conseguiu fechar os olhos, muito menos desgrudá-los do teto amarelado e branco, feito por tiras de madeiras em fila. O teto do quarto possuía todas as respostas do mundo, afastava todos os males. Entretanto, seus pés encolhidos ainda sentiam um vento estranho. Dois pontos embaixo da mesinha ainda instigavam sua imaginação. Ana estava muito assustada, paralisada embaixo de seu cobertor macio.
Desde pequena, se perguntava o porquê de se sentir tão observada. Ou porque nunca saíam de certos limites da casa. Ela queria saber, mas temia o que fosse acontecer se desobedecesse. O que havia lá fora? Qual seria a punição? Por que estava tudo tão quieto? Ela não entendia, nunca entendeu.
Nesse momento, sua mente parou. Aquele medo sem cabimento algum transformou-se em determinação. Aquela impulsiva que nos obriga a cometer atos de burrice. O ato de burrice, nesse caso, foi pular com tudo da cama, sem calçado, e correr pelos corredores. Fez barulho. Ela nem ligou. Continuou correndo, passou pela mulher seminua — mais observadora do que nunca — e quase parou, mas estava tão perto. Tão perto da maçaneta. Sua mão foi de encontro à ela, rodeando os entalhes delicados de madeira.
Abriu.
Suas mãos pequenas, assim como sua estatura, abriram a porta grande. A porta para sua liberdade.
No silêncio da noite, Ana se sentiu vigiada pela milésima vez. Só que dessa vez parecia mais real. Além de ver olhos na mata, ela sentia uma força que gritava em sua mente "corra!". A força ficou maior, mais potente, até que teve de pressionar os ouvidos. Escondeu-os entre as mãos, algo que percebeu que fora em vão por conta dos tremores. O chão vibrava, como uma enorme caixa de som.
Alguém estava atrás dela. A respiração em sua nuca denunciava isso. Sua cabeça mexeu-se lentamente, até que pudesse ver pelo menos uma parte da pessoa. Não. Pessoa não. Aquilo não era humano. Sua mão era a própria escuridão, fina, picada como se estivesse em chamas. Algo pingava no chão com um fedor forte de ferro.
Correu sem pensar duas vezes.
Ah, como o vento trazia lembranças. Infelizmente, aquelas eram puro desespero. Da última vez que correu tanto, quebrara o braço, mas nada se comparava ao medo absoluto que se instalava em seu corpo. Primeiro, foi até sua garganta, fechando-a; depois, tratou de apertar todo o seu pequeno corpo, como se torcesse. Ele continuava se apossando do mesmo, sufocando-lhe as tripas em sangue e terror. A morte nunca esteve tão vívida em sua mente.
Entrou na estrada de terra que ali havia, acelerando o passo. Não conseguia ter certeza, mas sentia a criatura a seguir com cada fibra de seu corpo. Quanto mais corria, mais ela parecia crescer. Ao passar por um caminhão, pareceu ter visto olhos embaixo dele. O poste dava a sensação de que era um homem alto. Ouvia risadas. Risadas grotescas.
— Socorro! — gritava, implorava, berrava. — Alguém me ajude!
Em toda a sua vida, Ana sentiu que alguém, ou vários alguéns, estavam vigiando-na. Porém, quando as lágrimas grossas caíram, ela soube que não havia esse tal alguém para ajudá-la. Só havia escuridão. E vidro.
Ela encarou o monstro, sentindo uma parede invisível atrás de si. Mesmo que o encarasse, ela não conseguia vê-lo. Era um vulto. Estranho, aéreo. Inalcançável. Entre todos aqueles sentimentos, ela já não ligava mais para modos, muito menos em sentir dor. Fechou os punhos, determinada como antes, e bateu na parede. No vidro. Sua mão doía.
— Pare! — uma voz distante pedia. — Você vai se machucar!
Ela não sabia de onde vinha, mas bateu mais e mais forte. Esmurrava com uma força que nunca imaginou que teria, até ver o escarlate escorrer. Era lindo.
— Por favor, Ana. — soluços. — Por favor, pare.
Ignorou. O vidro estalava, rachando aos poucos. Riscos se viam em cada canto, até que uma rachadura enorme se fez presente. Finalmente tinha quebrado a barreira. Estava, depois de todo esse tempo, livre. Livre da observação, da prisão, da solidão. Nunca mais sentiria aqueles seres horríveis rindo dela.
— Adeus. — atravessou o buraco, sorrindo como uma criança deveria sorrir.
Tudo se desfez.
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Caixa de Vidro
HorrorA sensação de ser observado pode levar os mais sadios à loucura e paranóia completa. Ana não aguentava mais os olhos, os vultos, as risadas. Era tempo de dar um fim àquilo tudo. [ Sozinha. Palavra forte que traía a garota assim que era pensada. As v...
