Acordar, sonhos ruins, café amargo, o açúcar acabou, tenho de ir ao mercado, mas não sei se tenho dinheiro; tomar banho, me vestir, pegar ônibus, trabalhar, estou exausta, mas mal consigo dormir, estou faminta, mas mal consigo comer. Não sinto o gosto do cigarro que toca meus lábios e nem sinto mais o efeito da fumaça que me preenche os pulmões, mas mantenho o vício porque as escapadas para fumar são um alívio no frenesi da rotina. Os rostos que eu vejo na cidade aparecem e desaparecem, o sol vai embora tão rápido quanto chegou, o céu nunca mais assumiu seu tom azul, agora está sempre cinza. E no dia seguinte tudo se repete, de novo, mais uma vez.
A chuva bate forte na janela e respinga em meu rosto de forma incômoda enquanto o ônibus atravessa a noite no caminho de volta. Algum estranho esbarra no outro, alguém perde a carteira, alguém salta no ponto errado, alguém dorme demais, alguém planeja nem ao menos voltar para casa, mas a chuva cai da mesma maneira para todos nós, o céu está igualmente cinza e a noite igualmente escura. Encosto a cabeça molhada no banco e sinto meus ombros relaxarem parcialmente enquanto observo a paisagem mudar conforme avançamos, até que eu veja o mercado vermelho, me avisando que é minha hora de saltar, então forço minhas juntas cansadas a levantarem meu corpo, limpo os respingos de chuva do rosto e vou para casa.
Acendo todas as luzes e, mesmo com um relento invadindo, abro as janelas. Tiro minha roupa encharcada, xingando baixinho quando sinto os meus sapatos molhados machucarem o calcanhar. A água do chuveiro não está quente o suficiente, mas não me importo, e até cantarolo no chuveiro enquanto limpo os resquícios do dia de meu corpo. Dentro de casa, o cheiro de chuva é agradável e se mistura com o cheiro do vinho que eu derramo em duas taças. Eu bebo uma delas enquanto espero, apoiada no batente, apreciando a vista, pois só há beleza na chuva quando não somos mais molhados por ela.
Sinto alívio quando, finalmente, escuto as tão familiares três batidas na porta, e o sorriso que toma conta do meu rosto quando eu a abro é o primeiro verdadeiro dessa semana. A garoa continua, mas não entra mais em casa. Bebemos, preenchemos o ambiente com aquela risada que só o vinho proporciona, e dançamos mesmo sem música, iluminadas pela luz da televisão. O frio não nos impede de nada, mas é uma desculpa para que eu possa chegar mais perto. Enquanto as taças se vão, vai ficando cada vez mais calor, mas o sereno continua. Abraçamos, bebemos, falamos, cantamos, sentimos, amamos, enquanto nos aconchegamos juntas no nosso conforto. Se não fosse pelo barulho na janela, eu nem me lembraria da chuva.
No dia seguinte, acordo com a cabeça leve de uma noite bem dormida e tomo uma ótima xícara de café adocicado. Alegremente, dou bom dia ao motorista quando entro no ônibus, e nem me importo de não conseguir sentar, mesmo que vez ou outra alguém pise no meu pé. Caminho tranquilamente em direção ao prédio do trabalho, e nem me preocupo com o fato dos meus sapatos ainda não estarem totalmente secos, e nem percebo que esqueci de trazer meus cigarros, porque o dia passa tão levemente que eles se tornam desnecessários. Abro as janelas do meu escritório para poder observar o cenário, e nem mesmo a pressa e impaciência da cidade abaixo impediu o sorriso que tentava moldar meus lábios. Respirei fundo, deixando a brisa entrar. O céu ainda estava cinza, mas finalmente houve um dia de sol.
