We've updated our Content Guidelines.
Review the latest guidelines to keep sharing stories safely.

Capítulo 1 - A Ilha dos Esquecidos

131 6 0
                                        



Iago ainda sentia o gosto do sal nos lábios quando o helicóptero pousou na clareira cercada por palmeiras retorcidas. O vento das hélices levantava a areia branca da praia como se a própria ilha o estivesse saudando — ou avisando.

O homem de terno que o acompanhava não dizia uma palavra desde que o tirou de casa naquela manhã, apenas entregou-lhe um envelope com o brasão dourado da Instituição Saint Luar. Um nome que Iago nunca tinha ouvido até então, mas que parecia pesar mais do que qualquer sentença judicial.

Foi tudo muito rápido. A discussão com seu pai, o olhar decepcionado, a voz firme dizendo "Você vai pra um lugar onde talvez aprenda a ser alguém de valor". E agora ele estava ali, com uma mala cara e o coração afundado, pisando numa ilha privada que mais parecia saída de um filme futurista: mansões espalhadas pelas colinas, uma escola com torres brancas de vidro, jardins que lembravam labirintos franceses e jovens andando em uniformes impecáveis como se fossem modelos saídos de uma revista de luxo.

— Venha, Iago. — disse finalmente o homem de terno, caminhando em direção a um carro elétrico estacionado sob uma árvore.

No caminho, Iago notava que nada naquela ilha era comum. Havia uma piscina em forma de lagoa natural no meio do que parecia ser um café ao ar livre. Estátuas de mármore moderno flutuavam em plataformas, e drones circulavam silenciosamente entre os prédios.

— Você vai morar na Casa Solaris. É uma das melhores — disse o motorista sem muito entusiasmo. — São quatro por casa. Todos... como você.

— Como eu? — Iago arqueou uma sobrancelha.

— Filhos de gente poderosa que não querem lidar com certas... diferenças.

Silêncio.

A Casa Solaris era mais do que uma casa: era praticamente uma mansão com vista para o mar, com paredes de vidro e madeira escura, cercada por um jardim suspenso. A porta se abriu automaticamente e um cheiro de baunilha e lavanda invadiu suas narinas.

— Ah, você deve ser o novo. — disse uma voz doce e sarcástica ao mesmo tempo.

Na sala principal, três rapazes estavam sentados em sofás de couro branco, cercados por luz natural. Um deles, de pele bronzeada e cabelos loiros ondulados, se levantou com um sorriso preguiçoso.

— Eu sou Noah. Esses dois são Ravi e Gael. Bem-vindo ao nosso exílio dourado.

Ravi, de origem indiana, sorriu de leve sem desviar os olhos do notebook, enquanto Gael — com o rosto meio escondido por um capuz preto e fones nos ouvidos — apenas levantou os olhos e assentiu.

Iago largou a mala ao lado da escada e olhou ao redor. Tinha mais perguntas do que coragem de fazer. Mas havia algo no jeito que Noah o olhava — um brilho no olhar, uma fagulha de curiosidade — que fazia seu coração acelerar.

— Espero que goste de drama, festas ilegais e segredos de milionários, Iago. — disse Noah, piscando. — Porque nessa ilha, ninguém é só o que parece.

E Iago soube, naquele instante, que sua vida jamais voltaria a ser a mesma.

❛ ━━━━━━・❪ ❁ ❫ ・━━━━━━ ❜

O quarto de Iago era algo que ele jamais imaginaria ter. O chão era de madeira escura polida, e uma parede inteira era de vidro, revelando o mar azul-turquesa batendo suavemente nas pedras lá embaixo. Uma cama king size, uma estante com livros que pareciam nunca ter sido abertos, e uma escrivaninha minimalista completavam o espaço. Mas, mesmo com todo o luxo, ele sentia como se tivesse acabado de ser deixado num zoológico de elite.

Na sala, o clima era tranquilo demais para um lugar onde quatro adolescentes moravam juntos.

— Vocês estudam o quê aqui? — Iago perguntou, tentando puxar conversa enquanto abria sua mala.

— A gente tem aulas comuns, mas... tem umas disciplinas "especiais", digamos — respondeu Ravi, sem tirar os olhos do notebook. — Como Controle de Narrativa Pública e Ética de Riqueza. Nada muito básico.

— Também tem Treinamento Corporal, retórica, programação, psicologia... e claro, aulas de etiqueta, porque aparentemente isso ainda importa — completou Noah, deitado no sofá como se fosse dono da casa.

Gael, ainda calado, saiu do quarto dele e foi direto para a varanda, acendendo um cigarro eletrônico. O vento bagunçava o cabelo preto dele, e Iago não conseguiu evitar ficar olhando.

— Gael fala pouco. Mas quando fala, é tipo uma granada — comentou Noah em voz baixa, percebendo o olhar de Iago. — E cuidado com ele... o charme gótico vem com espinhos.

— E você? — Iago perguntou, voltando o olhar para Noah.

— Eu? Eu sou o carismático da casa. Filho de um magnata do petróleo, ex-namorado de dois alunos e atual "monitor de boas-vindas" não-oficial. — Ele riu. — Tô aqui desde os quinze. Já vi gente pirar, fugir e até tentar nadar pra longe. Spoiler: não dá certo.

Ravi fechou o notebook com um estalo.

— Isso porque a ilha é cercada por sensores e drones. Se você tentar sair, eles avisam imediatamente o Controle. E aí... bom, ninguém nunca contou o que acontece depois.

O clima na sala mudou. Iago sentiu um calafrio, mas tentou disfarçar.

— Parece que vocês são bem... "livres", considerando.

— Somos prisioneiros com serviço cinco estrelas — disse Gael, falando pela primeira vez. Sua voz era rouca, suave, mas firme. — Aqui ninguém veio por vontade própria. Só somos bons em fingir.

O silêncio caiu como um cobertor pesado.

Iago olhou para cada um deles, sentindo que todos carregavam suas próprias feridas escondidas sob camadas de sarcasmo, inteligência ou silêncio.

— E quanto às regras? — perguntou.

Noah sorriu de canto.

— Regras? Existem. Mas aqui, quebrá-las é quase uma tradição. Só é preciso saber quem está observando... e quando.

Iago subiu para seu quarto naquela noite sentindo um nó no estômago. Aquela ilha era mais do que um colégio para garotos problemáticos de famílias ricas. Era um jogo. E ele acabara de entrar no tabuleiro.

Colégio Interno Stories to obsess over. Discover now