A Gata de Schrödinger

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Marília Gabriela tem vinte anos, o que equivale a noventa anos humanos se levarmos em conta seu amadurecimento acelerado na infância e seu envelhecimento lento no final. O problema é que Gabi está muito magrinha e a veterinária disse que ela está com um problema nos rins. Poderia até morrer em breve! Isso deixou Rita muito triste, pois é muito apegada à sua gatinha.

Mas logo tudo estará resolvido porque construí uma caixa de Schrödinger que amplifica os efeitos quânticos até o nível macroscópico. Não, eu não pretendo obter uma gatinha semi-morta por um frasco de gás venenoso acionado por uma fonte radioativa. Longe de mim isso! O fenômeno que procuro é o Efeito Zeno Quântico, que interrompe a evolução e o decaimento de um sistema quando continuamente observado, ou seja, interrompe seu envelhecimento. Minha caixa de Schrödinger produz o Efeito Zeno mesmo sobre sistemas grandes e vivos, ou seja, a probabilidade de Gabi decair vai se tornar exponencialmente pequena.

Só tem um probleminha. Minha caixa tem meio metro cúbico, o que não é nada confortável para um gato viver dentro indefinidamente. Assim, planejei construir uma casa de Schrödinger no Condomínio Boa Vista da Mata, em Ribeirão Preto-SP. Sim, vocês sabem onde fica, ali na estrada de Sertãozinho-SP em direção ao Shopping Iguatemi. Digo, foi Rita que construiu, naquela cor azul que ela gosta. Eu apenas instalei a grade de Faraday nas paredes, os detectores quânticos especiais que produzem o Efeito Zeno e uma cabine anexa à casa com as telas de observação conectadas às câmeras internas.

Sim, eu sei que deveria ter testado primeiro minha caixa, quem sabe colocando um peixinho lá dentro, ou um ser vivo ainda mais simples. Mas estava cheio de autoconfiança e acabei não fazendo isso. A casa de Schrödinger-Zeno estava pronta e falei para Rita colocar Gabi em sua almofada na sala. Acionei os detectores especiais e esperei para ver o que acontecia. Rita estava ao meu lado e foi a primeira a notar algo errado nas imagens: Gabi parecia não respirar mais.

Desliguei todo o equipamento e corremos para a sala. Lá, Gabi levantou a cabeça e soltou um belo miado. A examinamos com cuidado, tudo parecia correto. Voltamos para a sala de observação:

— Vou acionar os detectores novamente. Olhe com bastante cuidado, OK?

Rita acenou com a cabeça, e se concentrou na tela que focava Gabi. Ela observava com cuidado, mas parecia não entender o que estava acontecendo. Gabi estava agora com a cabeça ereta, mas não se movia. Eu observava outra tela, uma que mirava a parede que tinha um relógio em cima.

— Na verdade está funcionando, mas não exatamente como esperávamos. Olhe o ponteiro de segundos desse relógio!

Rita olhou o ponteiro estático e então entendeu tudo. O Efeito Zeno era bem mais completo do que queríamos criar. Todos os processos dentro da casa estavam congelados. O tempo havia parado...

Eu tentei brincar: — Hum, acho que inventamos o emaranhamento, digo, empalhamento quântico...

Rita me olhou com os olhos faiscando de recriminação: — E você vai morrer esfregado no chapisco se alguma coisa acontecer com minha gata!

Achei melhor não fazer mais piadas. Comecei a pensar e calcular como modificar o resultado. Foi um momento de grande inspiração: eu inventei o Efeito Zeno Quântico Fracionado. Foi muito simples: apenas diminui a taxa de observação dos detectores para vinte e quatro quadros por segundo. Como em um filme, agora Gabi parecia se mover normalmente, mas na maior parte do tempo estava em um estado quântico bem definido, pulando para outro em intervalos de tempo discretos. Estimei que ela gastava apenas um segundo de vida real para cada minuto aparente. Eu havia multiplicado sua expectativa de vida por sessenta!

Rita ficou muito feliz com tudo isso e entrou na sala apressadamente. De início eu fiquei assustado, mas então percebi que ela também parecia se mover normalmente nas câmeras. Resolvi arriscar e entrei na sala também.

Parece que tudo funciona a contento. Passamos grande parte de nossa vida na casa e Rita observou que suas amigas estão envelhecendo enquanto que para ela o tempo parece não passar. Isso é verdade, afinal se ficarmos dez horas dentro de casa, isso equivale a economizar nove horas e cinquenta minutos de vida. Logo, logo, teremos que arranjar alguma desculpa para nossa eterna juventude. Agora com trinta e cinco anos, Gabi está bem, sempre pedindo sobras de frango ou peixe sentada ao nosso lado na mesa de jantar. Parece até que se recuperou do problema nos rins. E soube ontem que sua veterinária faleceu de velhice... 

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