Um estranho

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Era a terceira reunião que estávamos tendo aquela semana simplesmente porque nosso professor não queria esperar até que todos os alunos entrassem na classe. Meu olho estava revirando pela décima terceira vez naquela hora. Senhor Alfred estava falando sobre as práticas de teatro e como iríamos desenvolvê-las naquele período, visando sempre o contato e a desenvoltura no palco com o outro.

— Só não entendo porque estamos fazendo isso de novo se já conheço todo mundo aqui. — Sussurra Ana para mim. Ana e eu somos amigas desde o início da faculdade de Artes Cênicas. Além de partilharmos o mesmo dormitório, trabalhamos juntas numa peça de teatro no primeiro período e logo nos tornamos melhores amigas. Ela é divertida e sensual ao mesmo tempo, o que a torna muito simpática e bonita. E eu era a pessoa que ria de tudo o que ela fazia.

— Nem eu. Aposto que ele vai nos obrigar a fazer a apresentação de novo. — Era sempre assim. Desde quando conhecemos senhor Alfred sabemos que ele faz a mesma interação para os alunos se conhecerem. "Fale sobre você, quantos anos tem, o que pretende da vida, peças em que já trabalhou (se trabalhou) e algo engraçado ou constrangedor para quebrarmos esse gelo que está me esfriando daqui."

A questão é que todo mundo já conhecia todo mundo. Entrou duas pessoas completamente novas que acredito que foram transferidas para cá, mas elas já haviam sido apresentadas nas reuniões anteriores. Não fazia ideia porquê estávamos tendo essa terceira reunião, já que aparentemente não tinha ninguém novo.

— Professor Alf... — Começa Mel com sua voz melosa e fina. Acredito que ela iria perguntar que merda estávamos fazendo ali, mas a porta do anfiteatro de repente se abre com um estrondo e eu vejo uma cabeça morena aparecer de supetão tentando fechar o guarda-chuva.

Mel parou de falar assim que avistou o menino sorridente e atrapalhado que acabara de entrar no mesmo que lugar que nós.

Voltei minha atenção para os meus colegas de turma que encaravam divertidos o estranho na porta.

— Minha Deusa, amiga. Esse aí é um pedaço de mal caminho. — Sussurrou novamente Ana que não parava de encarar a bunda do homem.

— Ana... — Comecei, mas fui interrompida por uma voz grave.

— Está uma chuva do cão lá fora. — Não reconheço sua voz de imediato. O homem que agora eu me virava para encarar também, estava colocando seu guarda-chuva do lado da porta e se encaminhava em nossa direção.

Sério? Nem um pedido de desculpas por atrapalhar a aula inútil de hoje? A visão do menino sorridente que eu vi na porta assumiu uma figura confiante e cheia de si quanto mais se aproximava de nós. Minha mente deu um estalo de lembranças quando vi seu sorriso debochado. Ah! Eu costumava odiar aquele sorriso. Lembro como se fosse ontem.

— Você deve ser o aluno novo. — Alfred falou sorridente enquanto dava boas-vindas ao rapaz com os cabelos espetados e molhados.

— É... — O menino disse como se nem prestasse atenção. Olhou para cada um de nós e se sentou na cadeira. Apesar de um pouco chocada por ser ele, revirei os olhos pela décima quarta vez. Todos estavam sentados no chão e comportados. Custava ele acompanhar? Vejo que não mudou em nada.

— Como se chama? — Mel perguntou melosa. É... o nome combina com o estado de espírito dela.

— Vocês começaram sem mim? — O estranho simplesmente ignorou o que Mel disse e olhou para o professor que o encarava agora sério, porém calmo. Eu também não gostava muito de Mel, mas ignorar a menina na frente de todo mundo como se ela não fosse nada me irritou profundamente. Qual é! Ele definitivamente não sabe o que está fazendo aqui.

— Já que você aparentemente não sabe ler um relógio, sim, começamos sem você. — Retruquei rabugenta e o olhei com cara de poucos amigos. Seus olhos brilharam ao me encarar e reconhecimento brotou de suas íris castanha.

Atuação IrresistívelStories to obsess over. Discover now