O quarto ano foi feito sob a batuta do, para mim, mestre do ensino como já não há. Apenas estive um ano naquela escola e logo fui bafejado pela sorte de ter sido integrado na turma do Professor Ferro Alves. Um professor "da velha guarda", mas com uma sensibilidade enorme para trabalhar com todas aquelas crianças, umas tão diferentes das outras.
O Professor Ferro Alves, e escrevo professor a anteceder o seu nome com letra maiúscula, porque sim, aquele senhor era um verdadeiro Professor, um homem, pela ocasião, talvez, com uma idade que rondaria os cinquenta e tal anos. Homem de poucos sorrisos, que falava com os alunos de uma forma tranquila mas determinada, com uma base muito sólida e capaz de atrair a atenção dos seus alunos e o enorme respeito pela sua pessoa humana. Ensinava como ninguém e não deixava aluno algum com dúvida alguma. Sempre que era necessário, também nos castigava.
Jamais com réguadas ou humilhações. Sempre com castigos que nos faziam crescer como pessoas e alunos. Normalmente os castigos assentavam em mais um ditado do que seria normal, mais extenso ou um maior número de contas e problemas matemáticos para resolvermos.
O Professor Ferro Alves era um homem marcado pela dor, pelo sofrimento, pela amargura que a vida lhe trouxera e só mais tarde a compreendi. Mas apesar disso, sempre nos sorria à sua chegada à escola e cumprimentava-nos, um por um, pelo nome de cada um. Enquanto crianças não percebíamos a tristeza que carregava no olhar ou por onde viajava quando, nos intervalos, ficava com o olhar num horizonte perdido para lá do mar de telhados que na baixa da cidade se desfaziam como uma onda até ao rio, aquele rio que o viria a roubar.
A escola tinha um muro de metro e sessenta de altura. Quando o Professor ferro Alves não chegava a horas, nós, os seus alunos, iamo-nos pendurar no muro e ali ficávamos a olhar a rua que ele, todos os dias, subia naquele seu passo cansado, arrastado, languento. Prendíamos o olhar lá bem no fundo, na curva, no exacto sitio onde o asfalto se confundia com as paredes das casas e ansiávamos que surgisse. Algumas foram as vezes em que tal não aconteceu, vindo a senhora contínua dizia-nos que podíamos ir para casa que «o senhor professor hoje não vem».
Qualquer criança ficaria contente por estar um dia sem aulas, mas não, aquele grupo de crianças, ficávamos calados, cabisbaixos e com uma enorme preocupação, ingénua, íamos para casa.
Ainda hoje dou comigo tantas vezes a pensar que magia teria aquele homem, alto, esguio, com um semblante consumido pelas amarguras da vida, para conseguir uma empatia e cumplicidade tão forte com aqueles miúdos com dez anos de idade.
