Não sei quantas éramos no início de tudo, mas agora, somos apenas treze. Chamam-nos "espíritos", "demônios" e até mesmo "deuses" - mas como são tolas as pessoas que creem que poderia haver tal coisa como divindades varões. Mas suponho que era de se esperar que fosse assim, sendo os homens tão mais vaidosos que as mulheres.
Há, entre nós treze, uma evidente confraria. Mas apenas eu e mais uma nascemos do mesmo ventre e, mais do que isso: da mesma gestação. Acho que, de algum modo, este fato nos torna mais irmãs que as outras, muito embora nunca sequer tenhamos vistoa cor dos olhos de nossa mãe. Os humanos nos chamam, em suas muitas línguas, de Vida e Morte. Mas temos nomes próprios que nenhum mortal jamais pronunciará.
Eu brincava com um gato selvagem quando minha irmã se juntou a mim.
— Hoje você terá muito trabalho – Vida disse, em um tom quase entusiasmado, quase menlancólico, como era de seu feitio.
Confesso que não me apraze particularmente atravessar os homens do mundo das coisas vivas para o próximo, mas também não me perturba. É apenas o meu dever, e, assim sendo, resigno-me a fazê-lo dia após dia sem reclamar, e sigo com minha existência majoritariamente tediosa, passeando pelos reinos de cima e de baixo, visitando minhas irmãs, e, vez ou outra, me distraindo por alguma surpresa perpetrada por estes seres bípedes tão formidáveis quanto vis.
Mas aquele dia – aquele dia não era como todos os outros. Naquele dia, eu não queria ir ao reino dos homens, e naquele dia, não me conformei que fosse aquele o meu dever. Temia ter que atravessar aquela humana por quem tanto me afeiçoara (eu não sabia seu nome – na tribo chamavam-na Nal, mas assim também chamavam todas as rainhas guerreiras que atravessei antes dela).
Amei-a como a nenhuma outra coisa fadada à morte desde o dia em que a vi lutar, esguia, com suas roupas negras, cabelo trançado, e o rosto quase todo oculto pelas pinturas de guerra que usava em vez de uma coroa. Amei-a por sua beleza, mais fulgente que tudo que eu conhecera – a beleza que só podemos ver quando encontrarmos, contra todas as chances, e nos lugares mais desesperançados, um pequeno detalhe que somos capazes de amar sem ressalvas. Nela, este detalhe único, era a coragem.
Eu poderia perguntar à Vida se aquele seria o fatídico dia. Veja bem, minha irmã era a criadora de tudo que vive, e todas as suas criações, eram-me eventualmente dadas de presente. Ela amava fabricar coisas para mim – coisas que exprimiam a aflição de sua intrínseca ambiguidade: a maioria delas eram belas, mas outras eram apenas bestiais.
De todo modo, eu não lhe perguntei. Não perguntei, porque se soubesse talvez jamais me levantasse, talvez jamais fosse ao reino dos homens, e, ao descumprir meu propósito de existir, causaria uma ruptura sem precedentes na ordem do universo.
Então, não perguntei.
— Vamos – eu disse, finalmente, despedindo-me do gato com um beijo e tentando disfarçar minha apreensão. Mas medo é uma destas coisas que brilham proporcionalmente ao nosso esforço para escondê-las.
— Por que está triste, irmã? – ela perguntou, segurando minhas mãos afetuosamente.
Eu quis lhe dizer. Ah, eu quis!
Quis pedir que não me desse naquele dia a vida de Nal, se fosse esse o seu plano.
Mas que bem faria? Ela teria de entregar-me o presente em qualquer outra oportunidade. Não porque não fosse se compadecer de mim. Mas porque, como eu, estava atada pra sempre ao legado de nossa mãe, Destino.
Respondi que não estava triste, desdenhando de sua preocupação enquanto voava ao seu redor, brincando com as lindas mechas de seus cabelos castanhos. Passado algum tempo, ela disse, assustadoramente solene, que já era hora de irmos, e partimos juntas para o lugar onde o confronto se daria.
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Coisas Vivas
FantasyE se a deusa da morte se apaixonasse por uma humana? Essa é a premissa deste conto fantástico sobre vida, morte e amor. Publicada originalmente na coletânea de contos de fantasia Valquíria (2017).
