Dia 1 da pandemia — 291 casos e 1 morte
- Existe um oceano de ansiedade nesses tempos. — com essas exatas palavras fui arrancado da cama por esse vulto translúcido e jovem.
- Você não acha incrível estarmos no mesmo ciclo astral? Em 1920, nós também tivemos a peste. — prossegue, sem cerimônia e sem nenhuma reação à minha face de susto e desespero incrédulo.
- Nós, — continuou seu monólogo espectral — os dobradores da natureza, os mestres da arquitetura e engenharia, jamais poderíamos imaginar que os piores sentimentos sairiam à tona em dias como esses. Pode acreditar em mim. — e sumiu.
Dia 33 da pandemia — 36.599 casos e 2347 mortes
- Isso aconteceu há mais de um mês, não é? — pela tela fria da videoconferência, o terapeuta confere mais uma vez o que acabei de dizer.
- Sim, senhor. — respondi de novo.
- Para você, o que significa este sonho? — repetições devem ser fetiche para ele.
- Como das outras sete vezes que perguntou, eu continuo dizendo que não foi um sonho. Foi real, e agora eu sei que é o meu avô. Tive que procurar, claro, nas fotos da família. — aposto que ele não vai acreditar, vai responder "Ah, sim" e anotar tudo no bloco de notas.
- Ah, sim. — já digitando no seu freecell.
Fim da transmissão
Dia 42 da pandemia — 66501 casos e 4643 mortes
- Sair à rua se tornou um tormento. A sensação claustrofóbica de viver em uma sociedade que desacredita a ciência me esgota. Sério! Sinto um nó na garganta que me faz querer vomitar. De preferência, na cara de cada desgraçado que debocha de mim ao não usar máscara, sabe? — desta vez não vou perder a oportunidade de falar, já que de novo perdi o sono às três da manhã com meu avô aparecendo.
- Ah, sim. — disse ele, enquanto eu imaginava formas de esganar espectros anotadores de freecells espirituais.
Dia 51 da pandemia — 126148 casos e 8566 mortes
- A sensação é de enjoo constante. Ver pessoas distantes morrendo e o medo das próximas é intoxicante. Não tem produtividade no serviço, não tem série no stream que amenize isso. Minha casa e, até mesmo a rua, cheiram à limpeza sabor lavanda. — frustração acima de 8000.
- Ah, sim. — agora, em estéreo.
Dia 109 da pandemia — já nem sabemos quantos Infectados e 770.605 mortos
- O meu mundo está em chamas. Meu terapeuta cancelou as sessões por não ter mais condições e sanidade dele e de ninguém. Quase todos se foram. Os que sobraram não se importam uns com os outros. Falhamos. — desabafei em prantos.
- Agora, meu filho, você faz o que pode. Junte os cacos da humanidade e de si mesmo, aprende a conviver com essa náusea e vá reconstruir tudo. — disse meu avô, na sua última aparição, e concluiu — Como eu fiz, como fizeram antes de mim e como vão fazer depois de você, porque é isso o que somos, sobreviventes!
Inspirado por: Eurythmics - Sweet Dreams (Are Made Of This)
