Capítulo 1

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Sabe aqueles amigos que você considera quase como irmãos, que você pode conversar sobre qualquer coisa e fazer qualquer coisa juntos sem se preocupar, principalmente porque eles têm namoradas e são super fiéis?

Então, eu tenho um amigo assim.

Só que tem um problema. Mesmo ele sendo um ótimo amigo e eu não tendo interesse em ser mais que isso, nada me impede de sentir uma puta atração por ele. Pois é.

Por conta de milhares de fatores, eu sempre escondi isso, mas, há alguns meses, ele terminou um relacionamento de anos e o fogo tá querendo crescer aqui. Antes, eu até achava que era um sentimento relacionado ao proibido, já que ele era tão fiel à namorada e eu a conhecia e gostava dela - então não queria ser filha da puta - o que tornava tudo ainda mais proibido, mas agora vejo que não.

A vontade continua aqui e eu não pretendo fazer nada, porque não quero arriscar uma amizade boa assim por conta de uma foda. Na verdade, minha atração nem é muito relacionada à foda, mas dar uns pegas mesmo, sabe? Uma coisa meio adolescente.

Sei que nunca seríamos mais do que isso (com foda ou sem foda), porque não temos muito em comum para relacionamentos, mas por sermos como somos, acredito que isso abalaria nossa amizade, ficaria confuso.

Então continuo deixando isso aqui, por baixo dos panos....

Ou assim acho eu.

***

Essa tarde sonhei mais uma vez com ele, num cochilo pós aula de quatro horas. Ele estava abalado por conta do término com a namorada, e vinha desabafar comigo.

Eu não aguentava e o chamava para encenar uma peça comigo, para distrair a cabeça. Mal sabia ele que na verdade a gente formava um par no final do texto.

Óbvio que eu queria tirar uma casquinha, mas achei que essa era a desculpa ideal para não nos envolver numa confusão enorme.

Ele topou e começamos a ensaiar. Como num passe de mágica, ou numa aceleração de filme, estávamos no palco, já alguns dias depois, só nós dois, cara a cara. De repente, ele parava de falar, baixava o papel do texto e ficava apenas me encarando - dos olhos pra boca, da boca pros olhos.

-Sabe que sempre tive uma queda por você, né? - ele soltou.

Em cinco segundos meu rosto queimava, meu coração palpitava e as borboletas na barriga me assolavam. Não sabia o que responder, então apenas ri, com incredulidade no tom.

-É sério! - ele continuou - Mas antes eu namorava e, embora eu gostasse muito dela, sempre tive um tesão por você. Só que não iria sacanear a Priscila, muito menos te envolver numa treta dessa.

Dei dois passos pra trás, com a mão no peito pela falta de ar. Não conseguia falar - era muita coisa para processar -, e olhando para ele, incrédula, virei de costas.

Ele deve ter achado que não recebi bem a frase, que não compartilhava do mesmo sentimento. E não recebi mesmo, mas não da forma como ele interpretou.

-Desculpa, Sarinha. Não queria te desconcertar. Acho que interpretei as coisas errado. Sempre entrei fundo no seu olhar e você sustentava ele até eu desviar, além de sempre trocarmos umas frases de duplo sentido que me deixavam querendo te puxar para um canto e te beijar ali mesmo. Achava que acontecia a mesma coisa com você, mas, pelo visto, não. Vamos esquecer que falei isso,ok? Eu te considero demais para deixar isso influenciar na nossa vida. Além do mais, você tá me ajudando pra caramba. Acha que consegue?

-Não, Dan... Não consigo não. - eu disse enquanto pegava minha garrafa de água, ainda de costas.

Ele interpretou errado mais uma vez e a carinha de desolado partiu meu coração. Eu precisava consertar isso, mas como? E será que era melhor consertar mesmo ou deixar assim e não me envolver? Afinal, de onde surgiu isso, minha gente? Eu achava que era um lance unilateral - ele era muito apaixonado pela namorada. Embora esses olhares e frases duplas rolassem mesmo...

Minhas palavras mais honestas decidiram por mim, sem nem me deixar pensar.

-Você não entendeu, Dan... - eu ri e dei dois passos para mais perto, ato que ele instantaneamente repetiu, deixando-nos cara a cara de novo - Não dá pra fingir que nunca aconteceu, porque você tem razão.

E ele me beijou. Sem nem pensar duas vezes.

E, puta merda, que beijo.

Eu instintivamente agarrei seu pescoço e aqueles cachinhos lindos, enquanto ele me puxava pela cintura, me fazendo ficar na ponta dos pés e segurava minha nuca na intenção de não me libertar tão cedo.

Ele interrompeu o beijo apenas para mudar de lugar, chegando na minha orelha com a respiração tão pesada quanto a minha, enquanto eu descia minha mão direita pelo seu braço até chegar nos quadris e o puxava para grudar em mim completamente.

Enquanto ele continuava descendo os beijos pelo meu pescoço, respirei o suficiente para clarear a mente e pensar que aquilo não devia ser tão rápido assim, que na verdade não deveria ser nem um pouco assim, porque ia estragar tudo entre a gente.

Mas cabeça e coração algumas horas não se comunicam nem um pouco... puxei-o de volta para minha boca, para calar minha mente, o que funcionou, mas logo quem me afastou foi ele, respirando fundo, de olhos e punhos fechados.

Deu pra ver que ele se arrependeu. Ridiculamente, meu coração parou de bater nessa hora e a decepção se estampou no meu rosto tão facilmente legível. Rapidamente uma vozinha soprou em minha mente "Quer dizer que você gosta dele, piranha? Não era só tesão?" Eu cortei esse pensamento e respirei fundo eu mesma.

-Desculpa. - ele soltou finalmente.

-Pelo quê, exatamente? - eu juro que estava confusa.

-Por ter partido para cima de você assim. Deve estar pensando que tô louco de saudade da Priscila e querendo meter em algum lugar. - ele desabafou.

-É sério, Dan? - perguntei, incrédula.

Ele sacudiu a cabeça afirmando.

-Fala sério, cara... Acho que você não reparou que eu parti pra cima de você, tanto quanto você pra cima de mim. Eu não pensei isso em momento algum.

-Tudo bem, Sara. Talvez você me conheça bem, mas acontece que no momento eu não me conheço, nem um pouco - ele desabafou.

-Danilo, você não tá fazendo sentido algum. Você acabou de dizer que sempre tinha tido tesão em mim e aí eu correspondo e você simplesmente surta? - eu tava surtando um pouco também, porque que porra estava acontecendo?

-Sim, isso é verdade, mas não tô surtando, só não acho justo eu abusar de você assim.

-Alou, há quantos anos a gente se conhece? Você realmente acha que rolaria abuso por qualquer um dos lados? Já era pra ter rolado, né? Eu sei que você era louco pela Priscila, você não tá me enganando em nada não. Você terminou com ela, lembra? Qual o problema de sentir falta e querer trepar com alguém que você sente tesão?

-Cara, você não existe. Mesmo assim não acho justo, Sarinha, não com você.

E daí ele me deu um beijo na testa e foi embora.

A Verdade em Meu CoraçãoStories to obsess over. Discover now