Estranhezas

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Kerry Locker

Porto Alegre é uma enorme  região metropolitana do distrito do Sul do Brasil. Um milhão e meio de pessoas vivem nessa localidade. O destino precisa ser bem certeiro quando resolve unir pessoas por lá, acho que é uma tarefa até meio difícil, imaginem a quantidade de combinações possíveis na hora de encontrar pessoas com algo em comum, tão significativo, a ponto de transformar esses encontros em amizade, amor ou ódio.

O dia prometia ser de muito sol, e desde as 6 da manhã a cidade já estava agitada, Porto Alegre acorda cedo, Porto Alegre raramente dorme. Cidade grande tem dessas coisas, pessoas o tempo todo se deslocando de um lado para o outro, a grande maioria indo trabalhar, a minoria voltando de algum lugar.

Sentada num ponto de ônibus, Kerry observa o trem passar. Vagão por vagão. Consegue ver, através dos vidros do comboio, pessoas se espremendo do lado de dentro. "Mal dá pra respirar" pensa ela e arfa o peito. Já esteve muitas vezes nesse mesmo lugar quando ainda cursava a faculdade de Odontologia. Foram 5 anos acordando cedo e encarando pisadas, cutucadas e empurrões por 40 minutos até chegar seu destino final. Estimo que sejam cerca de duas mil viagens dentro desse mesmo trem, no mesmo horário, com o mesmo propósito de chegar na faculdade.  Nunca conheceu ninguém, não havia como. O máximo que conseguiu foi entrar no mesmo vagão com algumas mesmas pessoas que, como ela, permaneciam com olhos vidrados no nada pensando na cama que deixaram pra trás, na louça que estava na pia, na cadeira gelada da sala de aula que a aguardava todas as manhãs e em todas essas trivialidades.

Kerry vem de uma família muito amorosa, seus pais também são dentistas, não teve como fugir do ofício. Ela gosta muito da profissão que exerce, mas no fundo pensa que poderia ter sido outra coisa, como se algo existisse em sua memória que ela não conseguia alcançar. Normalmente ela não pensa muito nessas coisas, prefere viver o presente que está diante dela, mas hoje o olhar dela estava um pouco além, sentia saudade, sentia falta, sentia um vazio dentro de si que não conseguia explicar.

Amanhã é seu aniversário de 23 anos, é dia útil, precisa trabalhar e a agenda está lotada de clientes. Essa moda de aparelho ortodôntico deu um up generoso na profissão que antes se resumia em sua maioria de extrações e obturações. Hoje tudo tem mais cor, ela se diverte com as crianças escolhendo borrachinhas coloridas ou com formato da Minnie. O que antes era sinônimo de dor, gemidos e cara feia, hoje é um paraíso colorido de crianças e adultos sorrindo e exibindo orgulhosos sorrisos metálicos.

O pai está atrasado. Kerry já conferiu o relógio três vezes. Seu carro está no conserto porque semana passada teve o azar de disputar espaço com um ônibus, perdeu feio. Desde então o pai a busca no ponto, já que para ir até sua casa teria que dar uma volta de cerca de  500 metros de onde ele vem. O horário combinado é sempre 6:30 da manhã, para que ela chegue tranquilamente no consultório, tome seu café e aguarde a chegada do primeiro paciente às 7h30min.

- Ah, papai, onde você está? - Kerry falou alto ao passo que um rapaz que estava no mesmo ponto a olhou fixamente pensando ter falado com ele, como não teve o contato visual necessário, viu que estava enganado.

Com o telefone em mãos tentou ligar, mas viu que a tela não acendia, esquecera de colocar para carregar antes de dormir. Olhou novamente o relógio, que já marcava um atraso de 10 minutos. O ônibus parou no ponto, o rapaz que estava esperando embarcou, o motorista a encarou esperando que subisse, mas recebeu um sorriso de boca fechada como que dispensando o serviço, e então fechou as portas e acelerou.

Um vento soprou o pescoço de Kerry, uma lufada que a deixou completamente arrepiada. Franziu todo o rosto imediatamente, como se aquilo fosse uma premonição, um aviso de que algo não estava bem. Resolveu que não ficaria ali esperando, se o pai passasse e não a visse, com certeza iria ao seu apartamento e como não a encontraria, iria direto para o consultório.

Kerry LockerHistórias para pegar e não largar. Descubra agora