Sufocante

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   A tarde caía, deixando o céu laranja, e por consequência o ambiente também se tornava morno, com a luz refletindo nas folhas secas do outono. A casa branca refletia o laranja em suas paredes, que reforçavam a pele morena de Hermione e lembrava os cabelos de seu marido. Cansada, ela suspirou sentando-se no sofá, sem forças. Sua calça confortável bege esquentava com os últimos raios de sol, e o suéter marrom de mangas compridas coçava levemente, mas ela já havia se acostumado.
   Eram quase 7 horas e Ronald já devia estar chegando em casa. Levantou-se, foi até a cozinha e colocou a sopa que fez para o almoço no fogo para esquentar. Ela não gostava de sopa de cogumelos, mas era a preferida de Ron, que nem ao menos agradeceu a ela. Ele trabalhava como auror no ministério, junto a Harry, e às vezes chegava cansado, sem reparar nesses detalhes, era só isso.
   A sopa estava quente na panela, exalando um cheiro forte, denso, era como uma nuvem grossa de cogumelos que não deixava que ela respirasse, e ela se perguntou se era possível ter pesadelos com cogumelos gosmentos a perseguindo. Sentou-se novamente no sofá da sala, quando a noite espreitava, e ligou a televisão velha que eles haviam comprado para agradar o senhor Weasley, que era fascinado por objetos trouxas. Ela viu na pequena tela riscada uma entrevista com uma mulher bela e elegante, que andava sobre saltos altos e usava um vestido de cor chamativa, sorria enormemente para a câmera e acenava como uma boneca.
   Uma boneca. Ela jamais seria uma boneca. Ela foi advertida por seu marido anos atrás, de que uma mulher que se mostrava demais acabava nas mídias, e se tornava apenas uma peça para o público, e isso não era o que ela queria. "Principalmente você, a grande Hermione Granger, acha que não vai parar em todas as matérias se for vista trabalhando no ministério?" Fora o que ele dissera.
   Ela não tinha certeza de que ele estava certo a princípio, mas ela preferiu agir da maneira que ele disse, para prevenir rupturas muito grandes em sua vida. A guerra ainda atormentava seus sonhos durante a noite, e todos os que ela perdeu a vigiavam pelas frestas da casa, que ela não deixava faziam semanas. Ela não queria mais perdas, ela não queria mais arriscar nada depois daquilo, não queria chatear Ronald, por que faria aquilo? Ele seria um marido para ela, a daria suporte, a amaria, isso seria suficiente, ela não queria arriscar deixar que emoções muito fortes a levassem a fazer decisões precipitadas e a perder o que ela poderia ter: uma casa e um marido.
   Uma boneca. Ela nunca seria uma boneca. Mas por que se sentia como uma? Sentia-se sem vida, como se fosse só a carcaça do que fora um dia. Não se sentia mais como antes, os livros da estante, que ela já lera pelo menos umas 3 vezes cada um, já não a faziam ansiar por conhecimento, se arrepiar com uma possível aventura, ou até mesmo ficar ansiosa para descobrir o que encotraria entre as páginas velhas e sábias. Ela se sentia vazia. Mas por que? Tinha tudo o que poderia precisar. Tinha uma casa, simples porém bela, um marido que a amava, dinheiro para se sustentar. O que faltava? Ela tentou se lembrar do que significava ser Hermione Granger, o que ela tinha que se perdera quando se tornara Hermione Weasley?
   Ronald atravessa a porta, suspira, e a cumprimenta com um selinho. Ela retribui sem se virar para olhá-lo e volta os olhos para a TV. Ele vai até a cozinha e se serve, os talheres fazendo um barulho alto, indicando que o trabalho fora cansativo.
   "Ora venha jantar comigo, Hermione, não é feliz da sua parte deixar seu marido sozinho à cozinha." Ela se levantou suspirando, indo até ele e se sentando na mesa, recusando a comida com a desculpa de que estava sem fome, o que de um modo, era verdade. Ela ficou sentada até que ele terminasse seus 3 pratos de sopa, se concentrando em não vomitar com o cheiro de cogumelos a afogando como uma fumaça morna e assassina. Ela tentava respirar o menor número de vezes possível, evitando mergulhar na gordurosa e abafada nuvem marrom de cogumelos.
   Ele foi tomar seu banho e ela lavou o que precisava ser limpo na cozinha, subindo e prendendo seu cabelo num coque, para trocar sua roupa por um pijama de mangas compridas e calça. Ronald saiu do banheiro, a umidade quente da água abafando o quarto, o cheiro enjoativo de pêssego dos produtos dele deslisando até ela de uma forma ameaçadora. Ele deitou-se ao seu lado e ela apagou o abajur alaranjado, virando-se contra ele, esperançosa de que ele estivesse cansado demais. Infelizmente, não estava.
   O toque de suas mãos deslizaram por baixo da sua blusa e alcançaram seus seios por baixo do sutiã, aquele toque quente que costumava deixá-la nervosa, mas agora só a fazia suspirar cansada. Ela já havia visto em sites e entrevistas com pessoas assexuais que elas não viam graça em nada relacionado a sexo, mesmo que amassem seus companheiros, será que era o caso dela? Seria assexual? Rony entenderia? Seria compreensivo? Antes de poder completar seus pensamentos, a boca molhada dele invadiu a dela, e por mais que ele já tivesse escovado os dentes, ela não conseguia livrar seus pensamentos dos 3 pratos de sopa de cogumelo. Com certeza sonharia com cogumelos.
   Ronald subiu sobre ela e tirou suas roupas, enquanto ela tirava as dela com calma, sem pressa, não tinha por quê ter pressa. Ele deitou-se sobre ela beijando-a novamente, e penetrou-a com velocidade. Não que ele fosse um exemplo de tamanho, mas ela não conseguira chegar nem perto de ficar molhada, e isso doera. Logo ela não sentia mais dor. Ele se movimentava rapidamente, com a cabeça encostada em seu ombro, virada para a parede do quarto. Seu suor grudava levemente, e ela suspirou, a cena da moça na televisão acenando e sorrindo veio em sua cabeça. Ela imaginava que, apesar de ser uma boneca, a moça parecia estar bem. É claro que o sorriso exagerado não passava de uma encenação para a cãmera, mas ela, com o dinheiro que tinha, podia pagar quem quisesse para ter sexo, e podia estar comendo as coisas mais deliciosas nos mais belos restaurantes. O pensamento a levou, e quando voltou a si, Ron já havia gozado e saído de dentro dela. Ela se levantou vagarosamente e foi em direção ao banheiro, o suor que ele deixara em sua pele provavelmente cheiraria a pêssego a noite toda e não a deixaria dormir.
   Deitando-se na cama novamente, ele suspirou estressado.
  -- Sabe, Hermione, não sei o que tem com você ultimamente.
  -- O que quer dizer?
  -- Não anda nem mesmo se mexendo na cama, parece uma boneca inflável, nem mesmo gemeu para mim.
  -- Eu... não estava com muita vontade hoje...
  -- Você nunca está. Sabe, acho melhor se animar um pouco, ora, não quer que eu me canse de você, quer?
  -- Não, claro que não.
   A exclamação veio não muito animada, mas ela suspirou e se deitou. Quem sabe fosse melhor assim? Ou não?
   Ela lembrou dos dias de guerra e de como sentiu que poderia morrer, ou que um de seus amigos poderia morrer, da sensação desesperadora de sentir que nada era certo, de que tudo poderia mudar repentinamente, e ela não gostava de se lembrar disso. Preferia evitar mudanças drásticas, e se separar de Ronald era uma mudança drástica. Não havia ficado com ninguém além dele e de Krum, e não sabia o que podia acontecer se sua vida mudasse tão drasticamente. Ela teria uma casa? Teria como se sustentar? Teria alguém com quem contar? A família Weasley, Harry, Gina, se voltariam contra ela?
   Ela decidiu que era melhor não pagar para ver, seria melhor gemer e fingir que estava sentindo prazer, do que ver o mundo que já estava construído para ela a tantos anos desmoronando diante de seus olhos.

Quente e abafadoTempat cerita menjadi hidup. Temukan sekarang