“Desde criança... eu tenho o mesmo sonho. Não é do tipo que estou caindo... é mais uma história maluca...
“Maluca como?” Pergunta meu terapeuta.
“Como se fosse... um filme. Uma pequena cena deslocada de um trailer.” Respondo.
“E como é esse sonho?”
“Bem... tem duas pessoas e uma delas sou eu.” Respiro fundo e continuo. “É como se estivesse em uma guerra. E não havia solução para tudo aquilo. Eu...” Minha garganta arranha e sinto vontade de chorar. “Eu consigo sentir o desespero. A angústia. Só de lembrar que há pessoas mortas por perto.” Não resisto e começo a chorar. “Tem duas crianças. A mais velha está abraçada com um garotinho.” Paro de falar por alguns instantes.
“Ao seu tempo, Conrado.” Diz meu terapeuta, tentando me consolar e depois me questiona “o que mais chama atenção no sonho?”
“É a voz do outro homem...” Sinto um calafrio espinha. “É a mesma voz que ouvi quando... quando eu... eu tentei tirar minha vida.” Mas eu escondo a parte que essa voz se mistura com a de minha mãe.
“O que essa voz diz?”
“Você tem que.” Engulo seco. “Tem que morrer." Começo a chorar e solto o que sinto em palavras. “Tudo na minha vida sempre foi uma merda! E eu sempre tentei me proteger, proteger minha irmã. Mas eu...” Começo a tossir. “Eu não pude salvar ela do incêndio. Minha mãe me culpa até hoje.” Pego um lenço de papel e soco minhas lágrimas. “A gente pode parar por aqui?”
“Por que você quer parar?”
“É muito pesado falar disso... é como se o sonho fosse a minha vida e a única saída fosse mesmo morrer.”
“Como se o sonho fosse a sua vida... Okay! A gente se fala na semana que vem.”
É meio irritante quando meu terapeuta dá ênfase a algo que eu disse e encerra o atendimento. Mas no todo, acaba funcionando. Como minha terapia é no dia em que tenho folga no trabalho, consigo refletir bem durante o resto do dia.
Me chamo Conrado, tenho 21 anos. Moro em um apartamento de 4 cômodos em um bairro suburbano de Belém. Tenho um gato amarelo e um monte de boletos para pagar esse mês. Vivo só desde os 18 anos, quando resolvi sair de casa e deixar minha mãe. Desde então, não soube mais notícias dela. Fora meus colegas do trabalho, meu único amigo é o meu vizinho de 67 anos, Gregório. Na verdade, ele é meu único amigo. A gente conversa sempre no corredor ou quando ele me pede alguma ajuda. Até jogamos dominó ou algum outro jogo. Nunca soube mais da família dele e nem tocamos muito no assunto. Ele comenta sempre do neto que tem minha idade e parece ser o único que se importa com ele, ou seja, não liga pra pedir dinheiro.
Voltando a minha vida. Morar em um lugar pequeno exige uma organização extrema, porque qualquer coisinha vira uma bagunça acumulativa. E ter um gato me exige limpeza diária. Mas meu pequeno Thor me concede algumas alegrias e momentos de aconchego. Então, meu dia de folga é organizado assim: ir a terapia às 9hrs da manhã, faxina, lavar roupas e cozinhar às 11hrs, almoço depois do meio dia, assistir filmes e dormir o resto da tarde e jogar com o Gregório a noite. Às vezes, quando o dinheiro sobra, vou ao restaurante de perto de casa. Tem música ao vivo e bebida em conta.
Depois de terminar tudo o que tinha de fazer, comer (muito importante) e tomar banho, me deito só de toalha no sofá. O que me garante uma soneca e mais um sonho repetitivo. Mais uma vez eu acordo e estou em um cenário de destruição. Vestindo uma túnica branca com detalhes dourados nas bordas, suja de poeira e algo que parece sangue na manga direita. Então eu ouço a voz...
“Uriel! Você está bem? Uriel, olha pra mim!” O homem que não consigo ver o rosto parecia desesperado.
“Minha... minha cidade.” Caio de joelhos no chão.
“Conseguimos reunir os sobreviventes na parte antiga da cidade. Mas precisamos de um plano para evacuar todos.”
“Essa guerra precisa terminar [...]” não consigo distinguir o nome do outro rapaz.
“Só há um jeito, Uriel...” ele me beija e começa a lagrimar. “Você tem que morrer.”
“Você sabe. Nós não.” Uma angústia maior toma meu peito, como se tivesse perdido alguém que amo muito. “Não vou poder fazer o regresso.”
Ding-dong! A campainha toca e me levanto assustado. Percebo que estava chorando realmente. Seco meus olhos rapidamente e abro a porta.
“Oi!... ah...” diz o rapaz um pouco sem jeito. Então eu lembro que estou só de toalha.
“Oi... desculpa. Saí do banho ainda pouco. Você precisa de alguma coisa?” Pergunto rápido, pra sair dessa situação embaraçosa.
“Bem, eu sou novo aqui e moro no apartamento ao lado.” Ele aponta para a porta em direção a onde vive Gregório.
“Espera. Quem mora aí é o Gregório.” Interrompo.
“Sim, sim! Ele é meu avô...” o rapaz se corrige.
“Ah! Você é o neto que ele sempre fala!” Fico surpreso por ele ser tão bonito. Aquele velho sacana nunca me falou que o neto era bonito!
“Bem, eu disse que chegava hoje.” Ele começa a rir, um tanto desconfortável. “Liguei pro meu avô e ele está no supermercado. E como disse que ia demorar um pouco ele me falou pra vir aqui com você. Disse que era um amigo, mas não imaginei que era alguém tão novo.”
“Como assim?”
“Ah! Não que você seja velho! Nada disso! Você é bem bonito e tal... é que.”
“Falei do seu avô.” Tento parecer tranquilo e solto um riso. “Você pode entrar. Eu vou vestir uma roupa e volto.”
Dou passagem ao rapaz e digo pra que ele fique à vontade. Entro em meu quarto e rapidamente visto algo. Ao voltar dou de cara com o rapaz brincando com o Thor. E fico observando durante algum tempo.
“Qual o nome do seu gatinho!?” Grita o rapaz. Acho que ele pensou que eu estava no quarto.
“Ah, é Thor.” Ele me olha e sorri com o gato no colo.
“Você mora sozinho aqui?”
“Sim, sim! Há bastante tempo.” Me sento no sofá ao lado do rapaz.
“Meu avô sempre fala de você. E a propósito, obrigado por ensinar esse velho a usar o celular.”
“Ah, não foi nada. Ele comenta de você também, mas nunca soube o seu nome.”
“Típico do meu vô. Meu nome é Oliver e você é o Conrado, certo?”
"Aham!"
Apertamos as mãos e sorrimos. Ficamos conversando até que minha campainha toca novamente. Era Gregório procurando pelo neto. Eles se abraçam e sinto uma alegria nostálgica. Nunca havia sentido isso antes. Então eu ouço outra voz e essa me deixou com medo: Você vai ficar só pelo resto de sua eternidade.
“Toma café com a gente, Conrado?”
“Hã?” Retorno à minha atenção para essa realidade.
“Está no mundo da lua de novo?” Pergunta Gregório. “Vem! Vamos tomar um café!” Ele me pega pelo braço, como se fosse uma criança teimosa. Odeio ter 1,69m de altura.
“Já vou, já vou!” Me solto da mão desse velho.
Oliver me olha de uma forma diferente. Mesmo amigável, parece que ele sabia que algo tinha acontecido. Deixei de lado a voz e foquei na alegria que Gregório estava. Parecia uma criança de tão feliz. Contou histórias de quando era mais jovem e algumas de Oliver criança. Até que ficou tarde e ele se retirou para tomar banho e depois dormir, deixando Oliver e eu com as louças.
“Obrigado por ajudar o meu avô, Conrado.”
“Tudo bem. Ele me ajudou bastante. Acho que isso é o mínimo.”
“Meu avô não merece os filhos que tem. Bando de sanguessugas!”
“Eu trabalho em uma loja do seu avô. E esse era o boato da antiga gerente, sua tia.”
“Eu sei. Ele quase perdeu tudo, mas teve que abrir mão do antigo apartamento e vender vários bens. Tudo isso pra não deixar os funcionários sem salário.”
“Ele é um grande homem. Vocês são parecidos.” Oliver faz uma expressão discordando do que disse. “ Na fisionomia. Quero dizer.”
“Ah, sim! Todo mundo fala isso!”
“E sua família?”
“Ah… eu é… sou sozinho nesse mundo.” Sinto uma pontada no peito. Não é meu assunto favorito, nem na terapia.
“Não mesmo! Você tem o Thor, um vizinho e acho que a mim, agora.” Olho para Oliver e confesso que senti vontade de abraçá-lo.
Mas tudo que consigo expressar é um obrigado. Terminamos a louça e ele me acompanha. Não lembro de o Gregório falar sobre minha sexualidade alguma vez, mas ele sempre pareceu não se importar com isso. Mas em relação ao neto dele. Tinha algo que me atraía. Oliver me acompanhou até a porta do meu apartamento e antes que eu entrasse, me deu um abraço bem apertado e me desejou boa noite. Me senti confortável e nem ao menos pensei sobre a outra voz. O que me ajudou a dormir profundamente.
KAMU SEDANG MEMBACA
Conto das eras
Pertualangan[Concluído] Conrado é constantemente assombrado por sonhos que se repetem, um passado de dor e traumas. Entretanto, eventos estranhos começam a acontecer a sua volta. Como o sumiço do seu pet, tremores de terra, o neto de seu vizinho e uma voz macab...
