Capítulo Único

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Eram dez horas da noite. A luz estava cheia e a vida não tinha sentido. Song Mingi deveria estar feliz, não deveria? Dentro de alguns meses se casaria, deveria ser o homem mais feliz do mundo inteiro, deveria andar por aí com um sorriso de orelha a orelha. Estava até mesmo ocorrendo um baile de noivado para festejar o futuro acontecimento. Ah, deveria ser grato por toda comoção que causava... Sendo assim, com todos esses motivos, por que aquelas malditas lágrimas insistiam em cair por seu rosto? Elas trilhavam um caminho gélido e doloroso por suas bochechas, repousavam em seus lábios maltratados e ardiam contra a boca. Um amargor subia pela garganta, tocava a ponta de sua língua e então seu estômago revirava-se, contorcia-se como se tivesse sido atingido em cheio por um soco. Era tão, tão covarde. A covardia tinha sabor amargo, um sabor que devorava suas entranhas e lentamente alimentava-se do coração já frágil por tantas quedas. Definitivamente, não merecia Jeong Yunho.

Ele chegara de repente no palácio, passou bastante tempo despercebido por parte do príncipe. Mingi desejou que nunca tivesse trombado com aquele guarda real. Naquele dia, Yunho fizera um esforço tremendo para esbarrar propositalmente seu ombro contra o de Mingi, pedindo desculpas e se curvando lealmente apenas para que pudesse se apresentar. A partir dali, o guarda naturalmente começou a estar em todos os lugares em que Mingi estava. O palácio era enorme demais para que tantas coincidências acontecessem daquela maneira. Se Song estivesse tendo lições na biblioteca, Yunho passava pela porta lhe encarando com tais orbes que pareciam guardar todas as respostas que saciariam a sua curiosidade. Se Mingi estava sentado à mesa com todos os membros da família, a imagem de Jeong passava pelas vidraças enormes das janelas que davam para o jardim. Se Mingi estivesse dormindo, lá estava o rosto de Yunho perambulando em seus sonhos.

As coisas pioraram quando Mingi fora assistir o treinamento dos guardas. Yunho era lindo usando a farda com ombreiras douradas, todavia havia de admitir que tal beleza não se comparava com a perfeição que rodeava Jeong quando ele estava ofegante, com o corpo pingando suor e as madeixas castanhas úmidas colando contra a face. Era tão tentador. Song nunca se sentiu assim e havia centenas de homens bonitos espalhados pelos corredores. Porém, nenhum era como Yunho. Nada era mais belo do que Jeong Yunho. A arquitetura do palácio, as enormes colunas brancas, as coberturas douradas, as abóbadas que exibiam pinturas renascentistas, o ouro cravejado em detalhes pequenos pelas paredes, o piso ilustrado que mostrava o reflexo de qualquer um... De fato, a moradia da família real era esplêndida, a personificação da palavra nababesco. Era luxuoso e ao mesmo tempo possuía tamanha simplicidade que causava inveja a qualquer um. Todavia, nada disso era mais belo do que Jeong Yunho. Não chegava nem aos pés.

A curiosidade — disfarçando o interesse — de Mingi crescia a cada dia. A chama de sua incessante busca por informações sobre Yunho era alimentada por faíscas diárias que vinham do próprio Jeong. Mingi sabia que ninguém nunca o olharia como Yunho o olhava. Era como se bastasse apenas uma confirmação do príncipe para que ambos saíssem rolando pelo chão. Jeong se aproximava tão perigosamente, sorrindo quando seus olhos se encontravam, dizendo bom dia, falando antes que fosse permitido... Era de certa maneira até mesmo um pouco atrevido, talvez um pouco desafiador. E Mingi gostava. Gostava muito.

O primeiro abraço dos dois ocorreu inusitadamente. Foi na mesma noite em que Mingi descobrira que iria se casar. O príncipe fugiu daquela reunião estúpida onde decidiam seu futuro e correu para o último cômodo do último corredor do último andar daquele palácio. Era um salão vazio, continha apenas um piano onde recebia suas aulas de música que foram canceladas pelo rei e pela rainha por alguma imbecilidade que não se recordava. Era onde estava naquele exato momento. A única pessoa capaz de encontrá-lo fora Yunho. Não sabia como ele conhecia seu esconderijo particular, não tão particular assim porque qualquer um tinha acesso àquele lugar. Talvez fosse pelas observações de Jeong, nunca havia perguntado, mas tinha uma vaga ideia. Se lembrava perfeitamente do que aconteceu naquela noite, o guarda o abraçou tão gentilmente que Mingi sentiu-se protegido, afirmou que ficaria tudo bem, fez graça dizendo que se quisesse poderiam fugir para longe de toda aquela monarquia. Mingi riu em meio a confusão, retribuindo o carinho singelo que recebia e respondendo num sussurro que fugiria com Yunho para onde ele quisesse. Era uma mentira e ambos sabiam disso. Mingi sempre seria o príncipe e Yunho sempre seria o guarda. Mingi se casaria e não seria Yunho a esperá-lo no altar.

Dançando no Escuro Cerita yang bikin terobses. Temukan sekarang