Prefácio

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Subindo os primeiros degraus na estreita escada dessa história, a qual medíocres palavras - apesar de existirem inúmeras - não são capazes de expressar o que eu senti, e até hoje sinto, quero alerta-lo, meu caro leitor, a princípio, que o amor não é nada do que pensas. Em todos esses anos de minha vida, não consegui decifrá-lo, apenas senti-lo. Envolvi-me dentro de um paradoxo incapaz de ser compreendido. Aliás, dentro de dois: O amor e, sobretudo, a vida. Quero informá-lo, desde já, que, se por acaso estiveres a procura de uma resposta consolidada acerca do amor, recomendo-te, do fundo dos miolos do meu coração e, também, da pouca consciência intelectual ainda restante nos arredores dos meus neurônios, que não cometa a audácia de desperdiçar seu valioso tempo em meio a esses rabiscos que aqui deposito, porque, no que se diz respeito à palavra Amor, nem eu e nem você conseguiríamos achar, ou até mesmo descobrir, a sua verdadeira face.Meu caro leitor, perdoe-me pela minha forma de agir, mas, se por acaso as palavras escritas nessas folhas de papéis manchadas de sentimentos o atingirem, peço que dê-me outra chance, aliás, já deixo avisado que daqui para frente tudo pode piorar. Não sei se serei inconveniente ao afirmar isso, mas possivelmente nas posteriores linhas, quando eu me referir à sua presença, irei te chamar de amigo. Não leve em consideração minha falta de coerência, porque, nesses últimos anos de solidão e melancolia, tudo que eu menos quero ter na minha medíocre vida é alguém para verdadeiramente chamar de amigo. Ninguém é amigo de ninguém. Não existem pessoas que se importam com você. Existem pessoas que querem algo de você. Se não possuíres nada que venha a agradar as pessoas dessa maldita sociedade, você é como eu. Irrelevante. Inútil. Um grão de areia imerso num infinito mar. Perdido no vazio e refém da realidade. Nesse exato momento, encontro-me jogado sobre uma cadeira velha, que perpetua nessa casa há alguns anos, com as únicas companhias e, sem dúvidas, verdadeiras que realmente me interessam. Cerveja e cigarro. Aqui vai para você, meu caro amigo, a primeira lição que deverás obter dessa leitura. Um segredinho tão simples que a maioria desvaloriza: O poder que o álcool pode oferecer-te. Quando perceberes que tudo na vida está perdidamente abaixo da merda, não se precipite, não ainda. Existem soluções para você desviar a mente durante uma mínima quantia de tempo, e uma delas é preencher o vazio do seu corpo com a beleza do álcool. Após perceberes que tudo está desmoronando na sua vida, por via das dúvidas, use a arma em que a realidade não pode resistir. Use a arma em que a realidade, mesmo que seja por algumas horas, seja inútil e inofensiva. Use-a até o ponto em que a única coisa que realmente possa te machucar, de forma incalculável, seja você mesmo. Nós, seres humanos indesejáveis, morremos e renascemos todos os dias das nossas vidas. Vivemos e aprendemos. Aprendemos e com isso sofremos. Existência é um termo muito amplo para ser explorado, mas, meu caro amigo, posso garantir-lhe uma observação sobre essa palavra um tanto quanto questionadora: Existir não significa viver. Os melhores momentos da nossa existência são aqueles em que nem lembramos que existimos, porque viver é sofrer. Não irei pedir-lhe para voltar às linhas anteriores e tentar entender o que eu quis deixar explícito. Se pudesse escolher, eu o pediria para sentar numa cadeira velha no meio da sala, abrir uma garrafa de cerveja usando os dentes e, após a perdição existencial vim à tona, reconfortá-los com a boa e velha sensação, um tanto quanto gostosa e singular, de um cigarro dentro da boca.Caso não tenho gostado da minha humilde sugestão sobre conceitos alcoólicos que forneci-lhe anteriormente, saiba que possuo outras alternativas que talvez possam ser úteis. Para o seu bem (ou talvez não) deixemos para falar sobre elas em outro dado momento, pois, no atual, não possuo forças psíquicas para deixar registrado aqui. As forças que possuo são apenas para escrever mais algumas irrelevantes linhas e para terminar de despejar dentro da minha boca os últimos prazeres que fazem parte do gosto da cerveja imersa no gelo, deixando-a fria, de modo que sinto as pregas da minha garganta se contraírem durante sua trajetória em direção ao meu estômago. A janela entreaberta permite a entrada do ar congelante que vem da rua. O mesmo ar que congela minhas mãos e arrepia os pelos dos meus braços, manchados com a marca dos relógios e pulseiras que uso, é o mesmo que faz as flores se balançarem como uma dança de tango, mas sempre presas à terra dentro do jarro. Caro amigo, as flores não se diferem muito da nossa realidade, nós somos como elas, e nossas vidas são como a terra, deixando-nos sempre presos.Não consigo ver muito do que acontece do lado de fora, apenas a visão que as aberturas de madeira me permitem. A luz do poste ilumina a janela da casa de forma tão intensa que consigo ver, e até contar, os rastros de poeira que nela estão caminhando. Não sei o que as pessoas pensam quando passam aqui pela frente. Não sei se sentem o vazio que eu sinto quando estou aqui dentro. Creio que devem olhar disfarçadamente e imaginar o quão sujo este local está. Todos são hipócritas, chatos e sujos. Que fique claro, meu caro amigo, a sujeira que é preenchida por fora é algo muito simples de resolver: Tome um banho de alguns minutos e o fedor passa. A sujeira impregnada que habita dentro de nós, nem um banho de dias é capaz de tirá-la. Está presa na nossa alma. Essa casa já não vive, como antigamente, há alguns anos. As plantas do jardim estão todas mortas. As grades do portão, que dificultam a saída das suas cinzas, estão todas enferrujadas, tão enferrujadas que quando abro-as o barulho é terrivelmente agoniante, como o desastroso som de uma garrafa de cerveja caindo no chão e deixando todo o líquido se espalhar.Aos poucos, os postes da cidade vão se desligando e o sol vai reaparecendo mais um dia, seja para queimar a vida de uns ou iluminar a de outros. Consigo observar, de relance, pernas e mais pernas esmagando os paralelepípedos da calçada. Pernas dos mais variados tipos. O moço do correio, de calças amarelas, que deposita as cartas na calçada da frente. A mulher de vestido, que acorda todos os dias mais cedo que o seu próprio despertador, indo vender pães na esquina para os moleques que são obrigados a ir à escola. O gari com as roupas sendo usadas pela quarta vez na semana varrendo as calçadas pesadas e imundas, as quais são cuspidas e sujeitas à toxicidade dos seres humanos todos os dias do ano. As crianças inocentes, acompanhadas pelos pais, indo em direção à escola como se nada de grave estivesse acontecendo ao redor de todo aquele paraíso. Caro amigo, minha superficial vida não foi lá essas coisas. Debrucei-me em cima do mar da solidão. Desnorteei-me em meio à névoa escura. Não consegui enxergar nada além de mágoas, desprezos e hipocrisia nesse inferno que insistimos em apelidar de mundo. Mais uma vez venho a alertá-lo. Não jogue seu tempo fora tentando entender as más relações presentes nos falsos seres humanos. Apaguei-me na fumaça da vida, mesmo sem saber que hoje eu me apagaria na fumaça do cigarro.

Ainda refletindo sobre o título hihihiStories to obsess over. Discover now