Já ouvi vezes demais que o que estou fazendo é estúpido. Da minha mãe, dos meus instrutores e de todos os jornais do país, mas ainda assim, não vejo isso como uma escolha. Toda vida nasce e cresce nas mulheres, por isso, ao completarmos vinte e um anos devemos lutar por ela. Com pólvora e tempestade. Bem, pelo menos essas são as armas que eu devo usar. Pela nossa conexão com a vida, fomos agraciadas com o dom, uma anomalia genética que se manifesta apenas em mulheres e nós dá controle sobre os elementos naturais. Água, Terra, Ar e Fogo. Há aquelas que controlam coisas mais raras como metais, sangue, raios e no meu caso, tempestades. Mas a maioria se limita aos quatro elementos primordiais. Devido a nossas habilidades somos soldadas perfeitas quando bem treinadas. Receber esse treinamento é uma honra. Isso é o que minha mãe e todos os demais políticos gostam de dizer para o país. Não é o que eles disseram para mim. Para Kimberly Orlens, princesa herdeira de Crossfir, receber o treinamento de guerra é tolice. É rebaixar meu status e minha posição. Minha mãe nunca recebeu o treinamento e é uma rainha perfeita. Pelo menos é isso que ela gosta de escutar quando já tomou drinks demais antes do almoço. Minha mãe faz o que pode para governar o país, apesar de não ser uma líder excepcional. Principalmente depois da morte repentina do meu pai que a deixou sozinha para comandar o maior país do continente.
Mesmo que nos ame, as gêmeas e eu não fomos o suficiente para manter o mundo dela girando.
—Não acredito que você vai mesmo fazer isso. É ridiculamente estúpido.
—Aposto que você vai ser dispensada antes do primeiro mês.
—Esqueça isso, aposto que ela é dispensada antes da primeira semana.
Reviro meus olhos, mesmo que eles ainda estejam encarando o uniforme oficial em cima da minha cama ao invés das minhas irmãs. Abigail e Elizabeth
acabaram de completar dezessete anos. Elas não pensam em guerra ou em morte, elas não pensam no país. Tudo o que elas fazem é pensar em garotos bonitinhos que sorriem nos bailes de caridade do palácio.
—O que vocês estão fazendo aqui?
Pergunto me virando para elas com um olhar cortante. Não me pareço com elas, nenhum pouco. Elas puxaram as cores claras do meu pai. Longos cabelos loiros e olhos dourados que parecem pequenos anéis de ouro. Como passam a maior parte dos dias nas piscinas do palácio elas são sempre bronzeadas e têm sorrisos
provocantes que fazem as pessoas simplesmente adorá-las. No geral os súditos também as amam, seus modos impecáveis, sua beleza mortal e um talento nato para agradar. Elas puxaram isso do meu pai também. Já eu, sou toda como minha mãe. Com longos e escuros cabelos encaracolados e olhos mais escuros
que os delas, sendo mais castanhos que dourados. Sou alta demais para conversar com a maioria dos súditos sem ter que me abaixar e meu rosto apesar de não ser desagradável não é nada marcante. Sou péssima em lidar com as pessoas também, afinal de contas a maçã nunca caí assim tão longe da árvore.
—Mamãe vomitou todo o café da manhã e disse que não vai poder ir na reunião de alistamento.
Abigail começou jogando uma longa mecha de seu sedoso cabelo sobre os
ombros.
—Ela pediu que você a representasse.
Elisabeth completou.
—De novo.
As duas disseram juntas em tom de escárnio. Minha mãe e as gêmeas não se dão muito bem. A verdade é que ela não suporta olhar para elas. É uma lembrança viva do meu pai e apesar de não ser mais recente, a morte dele ainda a afeta.
Minhas irmãs podem ser muitas coisas, mas não são estúpidas. Elas perceberam o descaso da minha mãe e passaram a odiá-la. As pessoas gostam de dizer que estou indo para a guerra, o que elas não sabem é que já vivo em uma.
—Vocês também devem vir. Quando eu partir, vocês vão ter que fazer isso por ela. Passa a ser responsabilidade de vocês.
—Não deveria...
—...afinal de contas ela ainda não está morta...
—...tecnicamente.
Quando eu era mais nova isso costumava me incomodar. A maneira como as duas pareciam dividir um cérebro e sempre falavam contando que a outra continuaria sua sentença inacabada.
—Isso não deveria importar. É o dever de toda Orleans obedecer ao chamado quando o recebe.
—Por isso você está indo para a guerra?
—Vocês sabem porque estou indo.
—Não acredito que você vai nos deixar aqui...
—...com ela.
—Vocês já são quase adultas. Tenho certeza que podem se cuidar sozinhas.
—Sinto que é nosso dever provar que você está completamente enganada.
—Estou falando sério. Não façam nada que eu não faria.
—Isso é um péssimo conselho. Você nunca faz nada.
As conduzo para fora do quarto pensando que se tivesse outra escolha eu provavelmente ficaria aqui. As gêmeas são um caos nos melhores dias e minha mãe não tem nenhuma condição de cumprir a metade dos seus deveres reais.
Na sala do conselho as pessoas fuxicam e nos observam enquanto entramos.
Elas nos olham de cima a baixo e julgam se estamos prontas para assumir o lugar de nossa mãe. Todos sabem que vai acontecer mais cedo ou mais tarde.
—Vossas Altezas.
Eles cumprimentam sonoramente enquanto curvam a sua cabeça em
submissão. Gostaria que eles fossem submissos assim na hora de nós criticar.
—Pelo que intendemos Sua Majestade, vossa mãe, não comparecerá a reunião. Forço um sorriso em meus lábios imaginando que estou o desenhando com um
lápis afiado. A imagem pura e sublime da perfeição.
—Ela não está se sentindo bem nessa manhã.
—Enxaquecas de novo? —Apenas assinto ainda sorrindo. —Elas estão ficando cada vez mais frequentes.
—Coisas da idade...
—...vocês sabem como os velhos são.
Todos riem. Eles adoram as gêmeas. Adoram a ideia de colocá-las no trono da minha mãe e manipulá-las a fazer o que eles quiserem. Se eu fosse mais esperta, ficaria aqui para impedir que isso aconteça.
Os conselheiros e duques se movem pela sala encontrando seus lugares, as garotas sentam ao meu lado e sorriem para os duques jovens e solteiros que nos rodeiam. Seguro a vontade de revirar os olhos.
—Como fazemos todo ano, nesse final de semana sediaremos o baile de
alistamento para honrar as filhas alistadas. É esperado que Sua Alteza, princesa Kimberly, as receba e agradeça por seu serviço.
—Também estamos esperando que Vossa Alteza faça um discurso. Afinal de conta a mídia estará presente e não poupará críticas a sua pessoa.
—Estou pronta para as críticas. E terei um discurso estimulante e corajoso
formulado. Agora se isso é tudo, eu e minhas irmãs temos muitas preparações a fazer.
—Na verdade, Sua Alteza há um detalhe que eu temo que a senhora esteja se esquecendo.
Franzo minhas sobrancelhas em curiosidade.
—Eu raramente me esqueço de alguma coisa.
—A senhora completou vinte um anos.
—Sei bem disso, aconteceu ontem.
Tento soar paciente, mas minhas palavras soam desdenhosas. Ninguém se surpreende.
—E o que estava previsto para seu aniversário de vinte um anos?
—Meu alistamento.
—Além disso? —Fico em silêncio por um longo tempo sem conseguir me
lembrar. —Ficamos de revisitar a ideia de seu noivado com o príncipe de Morphie. A proposta deveria ter sido feita no seu aniversário de dezesseis anos, mas com a fatalidade daquele ano...
—Seria feito aos vinte e um.
Abigail sussurrou ao pé do meu ouvido. Eu fiz uma careta.
—Estou partindo para o forte Prior na segunda-feira, então não vou ter tempo...
—A rainha Mirabella, ouviu sobre o seu alistamento e enviou o príncipe Damiem de Alcântara e Bragança para cá. Ele deve estar chegando para oficializar o pedido durante o baile de alistamento. Ótimo. Isso era tudo o que eu precisava fazer antes de morrer tragicamente na guerra. Ficar noiva de um cara que nunca vi antes. Perfeito.
—Que seja. Me avisem quando ele chegar. Não quero nada público. Podemos anunciar o noivado quando eu voltar para o natal. Não quero que um estúpido casamento por aliança roube a atenção do alistamento dessas garotas. Não seria justo.
—Do seu alistamento também.
—Meu alistamento não é importante.
—Você é a princesa herdeira, Kimberly. Tudo que você faz é importante.
Lhe lanço meu sorriso desenhado a lápis de novo. A princesinha perfeita. Isso é o que eles querem ver hoje.
Todos os conselheiros deixam a sala. Inúmeros homens de meia idade que se parecem todos os mesmos. Tenho sorte de não ter que me casar com um deles. Se for realmente sortuda, talvez eu morra na linha de frente da guerra e não tenha que me casar com ninguém.
—Ouvi dizer que Damiem é muito bonito...
—...Ele tem olhos dourados como o papai...
—... e cabelos pretos como você.
—Ele é nosso primo.
Resmungo mal humorada fazendo uma careta ao me lembrar.
—A avó dele era prima da nossa avó...
—...ele dificilmente pode ser considerado nosso primo.
—E de alguma forma ele ainda tem os olhos do papai e o meu cabelo.
—Não foi isso que queríamos dizer.
—Sei disso.
—É uma droga que você tenha que se casar assim...
—...pelo menos você não tem um namorado...
—...não desde Alyssa.
Faço uma careta. Com certeza vou ver Alyssa no baile de alistamento e não sei se tenho a resistência mental necessária para enfrentar ela e meu futuro e
desconhecido noivo no mesmo dia.
—Não vamos falar sobre Alyssa.
—Os espiões disseram que Damiem está vindo com seus primos...
— ...Khristoff príncipe herdeiro de Damor...
— ...e Alexander, o jovem rei de Thali.
—Por que infernos ele faria isso? O acordo nunca foi sobre vocês.
—Mas ajudaria...
—...teríamos todos os países da fronteira ao nosso lado.
—Não. Eu proíbo, estão me ouvindo? Proíbo qualquer uma das duas a aceitar quais quer propostas vindas deles.
—Mas Kim...
—Sem, mas.
—É nossa responsabilidade...
—...nosso dever.
—A responsabilidade e o dever de vocês é governar o país enquanto eu estiver fora. Não brincar de casinha com estrangeiros. Eles vão querer alguém...
—...de preferência alguém daqui.
—E eles podem ter qualquer duquesa ou viscondessa que quiserem. Podem até ter as filhas da tia Rissa. Vocês, não.
—Charlotte e Anissa jamais aceitariam.
—Elas são princesas como nós e têm seus próprios deveres. Elas faram o que eu mandar.
—Você não é rainha ainda, Kim.
—Sou a coisa mais próxima de uma rainha que essa país tem.
Elas não podem discordar disso.
—Precisamos provar nossos vestidos.
—Eu preferia morrer esmagada.
—Pelo tamanho do espartilho que vi Ada preparar para você...
—...não duvido nada que isso aconteça.
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Um Coração de Pólvora e Tempestade
FantasyEm um mundo onde apenas mulheres são agraciadas com o "dom elementar" aos vinte e um anos elas são convocadas para lutarem na guerra contra os inimigos de sua nação. A princesa Kimberly Orleans que acabou de completar a idade de alistamento, se junt...
