Lá estava eu, passando pela mesma e conhecida vitrine, aquela pela qual passei há dois dias pela "última vez".
-Como sou patética.- pensei alto.
A fachada com uma pegada vintage era convidativa e a grande porta me transportava para aquele mundo de papéis repletos de memórias.
Dizia a mim mesma que estava indo checar se havia chegado o novo capitulo do HQ, mas não havia mais desculpas, não tinha como fugir de meus pensamentos: eu não conseguia escapar dela.
Soava quase poético, se não fosse triste, aquela famosa história de uma paixão unilateral.
Só um lado ama, só um lado sofre.
Injusto, pensava sozinha enquanto fingia procurar algum título inexistente, nas imensas estantes rústicas recheadas das mais variadas histórias. Em meio a todos aqueles livros tinha certeza de que alguma personagem estava tendo um final mais feliz que o meu.
E ela estava lá... e ela era linda...
Nossa como era linda!
Linda, esbelta, quase brilhante... Eu apenas sabia observar como uma boba, totalmente encantada com a visão que tinha.
O sol fazia seu cabelo ondulado brilhar como ouro puro, a pele pálida sendo iluminada, enquanto seu vestido dava a impressão de que era uma linda flor flutuando.
Ela movia-se graciosamente por entre as prateleiras gigantes que pareciam engolir sua pequena, porém magnífica presença. Sempre sorrindo, deixando todos abismados com sua incrível beleza, seu rosto banhava-se em uma alegria contagiante enquanto atendia algum cliente.
Era assim comigo... sua doce voz era diariamente direcionada a mim, seus gestos elegantes já tinham me pertencido, ela por inteira fora minha.
Havia... tinha... já foi... passado...
Era claro seu amor pelo trabalho de bibliotecária, assim como pela leitura. Ela sabia exatamente o lugar de cada livro e já havia lido quase, se não todos, que ali estavam.
Dizia que quando pequena queria ser uma princesa, mas agora sonhava em ser escritora, dona do próprio mundo em seu livro(um lugar sem limites)e então lá poderia ser princesa.
E eu...perdida em meio ao turbilhão de emoções que era aquela garota que me tirava o ar, não sabia como explicar que ao meu ver ela já era rainha, dona de todo meu amor.
Mas eu havia acabado aquilo
Eu via, mas fingia que não, me fazia de boba. Até porque o que os olhos não veem o coração não sente, então me recusava a enxergar.
Sabia que não me amava como eu desejava, seus olhos me olhavam com carinho mas eu não era a mulher certa pra ela.
Não era sua culpa, e sim só minha, que não soube inspirar-lhe o coração com minha paixão que ainda ardia intensa no peito.
Gosto de pensar no que minha avó me falava... sempre achei bobagem, mas não poderia servir melhor pra essa ocasião. Dizia ela, que no dia em que eu encontrasse alguém que me fizesse perder os sentidos e deixasse minha cabeça em êxtase, era melhor ir com calma.
Podia ser o amor da minha vida, mas não o amor pra minha vida.
E eu a via assim, como uma bela obra de arte, que eu nunca poderia possuir, por mais que a amasse com todas as forças. Então apenas admirava de longe, contemplando sua imensidão e glorificando sua formosura .
Aprendi a ser invisível entre os livros, me esgueirando naquela imensa floresta de contos como uma ratazana, uma praga, um stalker. Me sentia uma estranha, parecia uma obcecada, precisava dar um fim nisso antes que Ela notasse.
Hoje jurava ser meu último dia ali. Talvez eu achasse outro lugar para descontar o estrago que o mundo me fez, talvez outra mulher que me cativasse a alma.
Ou talvez eu falasse tudo isso vagamente e continuasse a ver aquela moça que me enchia os olhos.
Não dependia mais de mim...
Eu havia me tornado uma abelha que mesmo em meio a um jardim de oportunidades, voltava pra polinizar sempre a mesma flor.
