───── ◇ VAMPIRE ◇ ─────
O começo de uma nova era quase sempre nasce da mesma forma: um rei surge, governa... e logo depois morre.
Os inimigos triunfam. Um novo ciclo de tormento se inicia.
Sempre nessa ordem.
Seriam esses os requisitos de uma conquista? Perseverança, talvez. Alguns líderes caem, outros imediatamente tomam seus lugares, e assim o mundo segue - sucessivamente, infinitamente.
E por que isso acontece?
Não sei dizer.
A única coisa que sei é que reis morrem.
Então, por via das dúvidas, serei sempre o seu inimigo.
Estarei logo, logo junto a ti, irmã.
P.S.: Estou com saudades.
Atenciosamente,
Teresa Clark
O cheiro chegou antes da presença.
Era um odor espesso, quase palpável - o fedor inconfundível de podridão misturada a metal oxidado.
Sangue velho. Muito velho.
Catarina Clark sentiu o estômago revirar. Parou no meio da trilha, os pés afundados na terra úmida da floresta, e prendeu a respiração com força.
Ao redor, tudo parecia suspenso no tempo. Nenhum inseto cantava. Nenhuma folha se movia, além do leve arrastar do vento que parecia carregar apenas poeira e morte. Era como se a própria mata tivesse aprendido a se calar diante daquilo que se aproximava.
Ele estava ali.
Ela não precisava ver para saber. Sentia. Uma pressão invisível apertava seu peito, tornando o ar pesado, denso, difícil de respirar.
Um rosnado baixo ecoou - áspero, arranhado, um som que jamais poderia ter saído de uma garganta humana.
Catarina recuou devagar, pressionando as costas contra o tronco rugoso de uma árvore, tentando se encolher, desaparecer nas sombras. Seus dedos apertaram a corrente de ferro em seu pescoço até que o metal cortasse a pele, numa dor familiar que a mantinha ligada à realidade.
Tarde demais.
Algo a atingiu com força bruta, arrancando todo o ar de seus pulmões num só golpe. Seu corpo foi lançado contra a árvore, a casca áspera rasgando sua pele, antes que um peso imundo e gelado esmagasse seu peito, impedindo qualquer movimento.
O cheiro agora era insuportável: carne em decomposição, doença, putrefação pura.
Catarina engasgou quando sentiu dentes afiados percorrerem o contorno do seu rosto, roçando a pele, mas sem perfurar - ainda.
Brincavam.
- Ora... ora...
A voz soou como se viesse de dentro de um túmulo úmido, arrastada e gorgolejante.
- Se não é uma Clark.
Ela abriu os olhos.
Os dele eram amarelos, turvos, quase cegos, com veias escuras e estouradas riscando o branco dos olhos como raízes de uma planta morta. Ele sorriu, e os dentes à mostra eram irregulares, escurecidos pela idade e pela sujeira, muitos deles quebrados ou tortos.
- Qual das duas você é? - perguntou ele, inclinando a cabeça e aspirando o ar profundamente ao redor do pescoço dela, como um animal reconhecendo o cheiro da presa.
Catarina permaneceu em silêncio, a garganta seca, o coração batendo desesperado contra as costelas.
A criatura soltou uma risada curta e úmida.
- Engraçado... sempre dizem que as Clarks falam demais.
A mão dele fechou-se sobre o seu rosto. Os dedos eram longos, frios e duros como madeira velha, afundando na pele dela com uma pressão que ameaçava quebrar os ossos.
Lágrimas escorreram sem que ela percebesse.
- O que foi, docinho? - murmurou ele, e uma língua bifurcada saiu de sua boca, cortando o ar entre eles como uma lâmina fina. - O medo comeu sua língua?
Ela reconheceu então, naquele instante de terror absoluto.
Meltron.
Um erro abominável da ciência antiga. Metade cobra, metade fungo, inteiramente monstruoso. Uma abominação que nem mesmo os outros vampiros ousavam manter por perto.
- Uma Clark calada... - ele aproximou o rosto até que seus narizes quase se tocassem, o hálito queimando a pele dela como fogo podre. - Você vai valer bastante para quem te encontrar.
O pânico explodiu dentro de Catarina como fogo líquido, percorrendo cada veia, despertando o instinto de sobrevivência que ela pensava ter adormecido.
Num impulso desesperado, ela empurrou o corpo pesado e podre para longe. Escorregou na lama úmida que cobria o chão e, com um movimento rápido, sacou a adaga que escondia na bota. A lâmina de aço brilhou por um segundo sob a luz fraca da lua, antes que a criatura se lançasse novamente contra ela.
Ela caiu de costas. A lama engoliu seus cotovelos, suas costas, emaranhou-se em seus cabelos. O vampiro tentou arrancar a faca de sua mão, torcendo o pulso dela com força, mas Catarina chutou com toda a força que ainda restava em seu corpo, acertando-lhe o peito.
Ele cambaleou para trás, surpreso.
Ela rolou por cima dele, montando seu torso imundo, o joelho pressionando com toda a força contra a garganta da criatura, cortando-lhe o ar. Levantou a lâmina, pronta para cravar-lhe no coração.
Então ele mordeu.
Os dentes rasgaram a carne da sua coxa como se fosse tecido fino.
Catarina gritou. Uma dor branca, intensa, total, percorreu seu corpo inteiro, fazendo tudo girar. O mundo pareceu tremer. Sem pensar, movida apenas pela necessidade de parar aquilo, ela afundou a adaga profundamente no peito da criatura.
O som foi horrível - um estalo molhado, seguido de um grito que pareceu vir das profundezas do inferno.
Ela puxou a lâmina e, num movimento seco e sem piedade, arrastou o aço pela garganta dele, de um lado ao outro.
Sangue negro e grosso jorrou quente, escorrendo por seus braços, sujando sua pele e suas roupas. Ela assistiu, imóvel, enquanto ele se debatia, engasgando-se com o próprio sangue, as mãos gordurosas tentando em vão estancar a ferida, os olhos cheios de ódio, medo e uma incredulidade silenciosa.
Quando tudo acabou, Catarina caiu pesada ao lado do corpo inerte.
Sua perna queimava. Uma sensação de frio subia pela sua pele, rápida como a sombra da morte. O mundo girava diante dos seus olhos, as cores se misturando, os sons ficando distantes.
Ela fechou os olhos por um segundo, pedindo silenciosamente por Teresa. Pedindo para não morrer ali, sozinha, na lama, ao lado de um monstro.
Acordou com o balanço constante.
Seu corpo pendia de cabeça para baixo, jogado sobre um ombro largo e duro, o sangue da ferida na perna escorrendo para o seu rosto e cabelos. Alguém a carregava.
O homem caminhava com passos longos, firmes e silenciosos. Cada movimento fazia a dor na sua perna pulsar mais forte, uma batida ritmada que parecia martelar dentro dos seus ossos.
Ele assobiava. Uma melodia lenta, antiga, incrivelmente triste, que cortava o silêncio da floresta.
Catarina tentou se mexer, mas seus membros pareciam feitos de chumbo. O estômago virou violentamente, e antes que pudesse controlar, ela vomitou, o gosto amargo subindo pela garganta.
Ele a soltou de repente, com desgosto, como quem se livra de um saco de lixo.
Ela caiu no chão duro, batendo o ombro e a cabeça.
- Merda - rosnou ele, a voz profunda e rouca, carregada de irritação. - Não podia ter avisado?
Ela levou a mão trêmula até a coxa, sentindo o sangue que ainda escorria, quente e pegajoso. A visão embaçava.
- Me... ajuda... - sussurrou, a voz fraca, quase inaudível, perdida no ar frio da noite.
Ele se aproximou devagar. Agachou-se diante dela, as sombras cobrindo parte do seu rosto, mas deixando à mostra os olhos - verdes, brilhantes, intensos na escuridão.
Bonitos. Errado. Predatórios.
- Uma humana pedindo ajuda a um vampiro - disse ele, com uma diversão fria e cortante na voz.
Catarina lutou para manter os olhos abertos. A sensação de frio agora tomava todo o seu corpo, subindo pelas veias, paralisando os músculos.
- O que me mordeu... era um Meltron - conseguiu dizer, entre respirações curtas e dolorosas.
Ele arqueou uma sobrancelha, curiosidade piscando naqueles olhos brilhantes.
- Meltron?
- Metade... cobra. Metade... outra coisa.
Ele a observou em silêncio, estudando cada detalhe do seu rosto, da sua ferida, da forma como ela lutava para não desmaiar.
- E como você sabe disso?
- Sou médica. Sei reconhecer... o que mata.
O olhar dele percorreu o corpo dela lentamente, avaliador, pesado. Um conhecimento sombrio pareceu acender-se nele.
- Clark - concluiu ele, baixo, como se provasse o sabor do nome. - Só pode ser.
Os dedos de Catarina formigaram de repente, um formigamento que virou rigidez, que virou dor aguda. Ela abriu a boca para gritar, mas nenhum som saiu.
O vampiro segurou seu queixo com força, virando seu rosto para cima, obrigando-a a olhá-lo nos olhos.
- O veneno já chegou ao sistema nervoso, humana. - Ele sorriu, e não havia bondade nenhuma naquele gesto. - Você está morrendo.
Ela sabia. Sentia a vida escorrer para longe, tão rápida quanto o sangue que deixava seu corpo.
Ele aproximou o rosto, os lábios quase tocando os dela, e sussurrou:
- Diga-me... por que eu desperdiçaria o meu tempo para te salvar?
Catarina reuniu o resto de consciência que ainda lhe restava. Com um esforço sobre-humano, sorriu de volta, o sangue manchando seus dentes, os olhos escuros brilhando com a mesma teimosia de sempre.
- Porque... - ela sussurrou, a voz se apagando lentamente - ...eu sou quem você procura.
Os olhos verdes dele se estreitaram, a surpresa e o interesse brilhando ali, fortes como chamas.
Antes que ele pudesse responder, a escuridão a engoliu por completo.
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VAMPIRE - Dormindo com o Inimigo
FantasyO mundo de Catarina Clark desabou em meio às chamas. Seu vilarejo foi reduzido a cinzas, sua família exterminada, e a única pessoa que lhe restava - sua irmã gêmea, Teresa, uma caçadora de renome lendário - desapareceu sem deixar vestígios. Sozinha...
