Único

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  Aquele era o lugar em que havia nascido. À noite, aos sons estonteantes das criaturas noturnas. Natureza, sobrenatural...Tudo era presente ali. Os seres pareciam querer se comunicar, assim como o vento que soprava fortemente naquele bosque. De dia era tudo mais alegre, mais inspirador. Os pássaros lhe cantavam certos tipos de melodias que nem mesmo o melhor maestro poderia reproduzir. Juntamente com o vento, o Sol, tudo que há de natural. É o momento de abrir os braços e fechar os olhos, sentindo a brisa lhe acariciar a face. E a sensação de satisfação interna lhe domina, trazendo sentimentos bons àqueles que não os vêem há tempos. A quem era completamente vazio por dentro era algum tipo de salvação. Um simples momento do dia que poderia lhe completar por inteiro.

  Claro, durante o dia. Naquele isolado bosque a Lua já iluminava grande parte das árvores. As folhas e as pedras possuíam o reflexo da Lua, iluminando o local parcialmente. Além destes, outro lugar pouco iluminado era o caminho. Não necessariamente uma trilha, mas sim um rastro de terra sendo diferenciado do resto pelo brilho da Lua que ali estara. O contraste da pouca luz com seus pés era presente, iluminando suas unhas vermelhas do pé. A terra estava fria e o atrito de seus pés com o chão lhe causava certos arrepios, mas não a deixava desconfortável. Pelo contrário, era libertador estar descalça em um local como aquele. Poderia ser picada por algum inseto, atacar a alergia, ser pega em alguma armadilha...Mas a sensação gelada em seus pés era avassaladora demais para sequer pensar em calçar seus calçados, que no momento nem sabia onde estavam. Não se importava, também.

  Já tivera visões de seu nascimento antes. Umas esclarecedoras, outras confusas demais por alguma razão. E ela lembrava. Lembrava que havia nascido entre aquelas pedras, e logo depois havia sido mostrada à alguém envolta de um pano, sem nem dar seu primeiro suspiro de vida. É, aquilo possuía um belo significado. Mas não importava pra ela. Edward Spellman era seu verdadeiro pai em seu coração, e só isto bastava. O amor que sentia pelos seus pais era inexplicável, sem nem mesmo conhecê-los direito. Eles eram suas respostas, suas perguntas, suas razões de vida. Viveria para fazer o que não fizeram, terminar o que não terminaram. Sabrina gostava do poder, da obrigação, do desconhecido. Se entregava de corpo e alma aos seus deveres de vida.

  Mas acima de tudo...A garota era humana também. Chorava, sorria. E as vezes ela se entregava à este lado mais pessimista e se deixava levar. Se deixava sonhar e logo depois acabar com aquilo como uma agulha estourando um balão.

  Não haviam respostas para suas estúpidas perguntas e ela bem sabia. Tudo que foi feito, jamais será desfeito. E aquilo doía, como doía. Mas não havia nada que pudesse ser feito para aparentar sua dor. Nada. Mas qual era o motivo de tanta tristeza? Tanta angústia? Ela havia ganho a guerra. Seus amigos e família estavam ótimos. Tudo que ela amava estava perfeitamente alinhado, isso incluindo a cidade de Greendale. Todos à sua volta a amavam e eram gratos. E o sentimento era totalmente recíproco. Ela estava feliz de ter todos ali com ela, para abraçá-la. Então qual era o motivo de sua melancolia?

  Sozinha entre os sons das árvores e do vento que conversavam com ela, tentando de alguma forma a ajudar, a garota sabia a resposta daquela pergunta. Sabia muito bem, mais do que seu próprio nome. Ela só não gostava de admitir aquilo. Admitir que estava arrependida de praticar um feitiço que mudaria seu destino e seus sentimentos para sempre. Somente os sofredores mais radicais praticavam aquela magia. Era simples, mas doloroso. No momento em que o fez sentiu cada pedacinho de seu corpo lamentar e praguejar contra ela. Mas ela não tinha escolha nenhuma. A partir do momento em que Prudence o indicou à ela, era o que tinha de ser feito. Era a solução para poder focar em problemas mais graves, como a destruição do próprio mundo. Ela fez aquilo em puro apuros e ingenuidade, e jamais saberia das consequências que aquilo traria para si mesma. Aquele feitiço a prometia parar de sofrer para conseguir lutar, e de fato conseguiu, mas e o pós? E o arrependimento? Não pensou nisso na hora de escrever poucas letras naquelas malditas velas vermelhas.

Como Deveria SerStories to obsess over. Discover now