Untitled Part 2

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Alice estava pensativa quando ouviu seu celular tocar, ele estava dentro da sua bolsa e com a conversa conturbada que ela tivera com mãe logo na sua chegada, nem lembrou-se de retirar da bolsa.
-Alô - disse Alice reconhecendo a voz de quem estava do outro lado da linha.
-Alô, oi Alice! Tudo bem? - disse Sophie. Sophie era a melhor amiga de Alice. As duas estudavam juntas cerca de quatro anos. Alice confiava plenamente nela, e sempre foi grata pela amiga entendê-la tão bem. As duas eram cúmplices, eram irmãs só que de outra mãe, melhor assim dizendo. Sophie sempre foi muito educada, além de muito inteligente e focada, sabia o que queria e sempre lutou por isso. 
-Estou bem Sophie, o que me conta?
-Ah amiga, eu liguei pra falar que hoje o pessoal da sala virá aqui em casa, as 18h. Vamos jogar conversa fora, cantar, comer, enfim faremos coisas legais. Você vem?
-Hum, entendi. Não sei não Sophie. Não estou muito legal, além de que estou estranha, sem contar que estou me sentindo mais feia do que nunca.
Alice sempre foi muito bonita, ela tinha uma beleza exótica. Era branca, mas permanecia corada e principalmente quando estava envergonhada. Seus cabelos desciam até o ombro, até a sétima série seus cabelos eram longos, mas ela nunca gostou de cabelos compridos, então já que agora estava prestes a fazer dezoito anos, resolveu cortá-los. Tinha olhos verdes, e eles ficavam ainda mais lindos perante o sol, eram como duas esmeraldas grandes. E a boca pequenina que parecia uma flor. Ela não era tão vaidosa, entretanto se cuidava. Naqueles dias ela estava descuídada. Não tinha vontade de se arrumar e tampouco passar qualquer maquiagem. E pra se encontrar em um lazer com os amigos, ela precisaria estar pelo menos apresentável e não estava com a mínima vontade de se mostrar e/ou conversar com alguém. Logo depois de dar inúmeras desculpas a amiga, veio a resposta de Sophie:
-Não acredito dona Alice! Vem, vai ser legal. Se o problema for sua mãe...
Antes que Sophie terminasse a frase, Alice interveio e falou:
-O problema não é minha mãe, ela não faz o que quer? É meu direito, enfim, quem vai? - disse Alice quase que irritada com o "assunto mãe" ter entrado na conversa.
-Desculpa Alice, só pensei que...que não estava tudo bem. Mas vem a Marcela, a Lorena, quem mais? A Flávia, o Bruno, o Leandro e Adriel. Pelo menos os que confirmaram.
Adriel...
Aquele nome, como irritava Alice. Ela não gostava de Adriel. Ele estudava na sala dela, tinha entrado esse ano. Ele era muito bonito, alto, um corpo atlético, olhos e cabelos castanhos e o tipo certo de garoto galã, que a maioria das meninas gostam e comprariam a maior briga para estarem ao lado dele.
-Eu até poderia ir. - disse Alice revirando os olhos. - Mas o tal do Adriel vai, e você sabe muito bem que eu não gosto dele.
-Ah, por favor Alice, vem! Amiga, você está precisando se divertir, conversar. Você nem precisa faar com ele. - Disse a amiga quase implorando para ela ir.
-Claro que preciso, eu sou educada, porém não consigo fingir. Estou com problemas demais e não quero arrumar mais. - Disse Alice levantando-se da cama.
-Então, não vai te matar. Promete que vem? Por mim amiga.
-Eu vou pensar, não prometo nada.
-Ok, eu vou te esperar.
-Está bem Sophie, beijo.
-Vem, beijo.
Alice não estava nem um pouco com vontade de sair de casa. Porque a) estava com um típico vazio no estômago e mesmo assim não estava com vontade de comer. b) com certeza precisaria pedir para a sua mãe, e mesmo afirmando para Sophie que sua mãe não era o problema, sabia que teria que pelo menos avisar que iria sair. c) não queria se arrumar e nem mesmo ver aquele garoto irritante que era Adriel. Ela pensou, e antes de resolver se iria ou não, ela foi até a cozinha e pegou uma maçã. "Não posso comer senão vou engordar." pensou sozinha. "Mas desde de ontem não coloquei nada na boca a não ser água e chiclete." Então ela relamente dirigiu-se a cozinha e pegou uma maçã. Após ingerir a maçã com muita dificuldade, subiu para o quarto e ao caminhar até a cama parou novamente em frente ao espelho e olhou-se. "O que está contecendo comigo?" ela pensou. "Só por ter comido essa maçã me sinto como se tivesse engordado cinco quilos." Ao se fazer essas perguntas internas, ela colocou a cabeça para fora do quarto e viu se alguém poderia passar por ali, ou estar ali, talvez Dona Antônia ou sua mãe. Dona Antônia havia saído para comprar uns produtos, e a mãe estava ocupada. Alice foi até o banheiro e não sentindo-se muito bem, forçou o vômito. "É melhor, senão vou acabar engordando e isso é o que menos quero." Ela sentiu-se culpada, mas pensou: "É para o seu próprio bem Alice, ou você quer ficar gorda? Não né." Ela deu descarga onde havia sujado e voltou para o seu quarto. 
 Ela não pretendia contar isso  a ninguém, principalmente se esse alguém fosse sua mãe. Na concepção dela aquilo estava certo, era só uma maçã que não lhe fizera bem. Só que com toda certeza sua mãe não gostaria nada disso, além de que a levaria para algum médico e isso ela odiava. Para afastar esses pensamentos da sua cabeça, ela decidiu ligar para o seu pai. Afinal, tinha mais de uma semana que ela não falava com ele, estava com saudade e queria ocupar a mente.
-Alô - atendeu o pai.
-Oi pai, tudo bem? 
-Sabe como é né filha, vivendo. E você?
-Ah, estou bem na medida do possível. 
-Fico feliz meu amor, e como estão as coisas com sua mãe?
-Não são as melhores né pai, ela insiste em me colocar contra você.
-Isso é cara dela, nem sei como as coisas foram parar assim.
-E eu pai...
-Mas não fique assim não, o papai sempre vai estar com você.
-Eu sei pai, e eu vou fazer de tudo para não me afastar de você.
-Ok filha, como vai a escola?
-Final de ano pai, as coisas estão parando.
-Imagino, nem acredito que a minha menininha daqui a pouco estará formada!
-Nem eu, já estou com saudades.
-Saudades da escola? - ouviu-se um riso.
-Claro, eu amo estudar. E você sempre assim né, largado de tudo.
-Eu só acho que a vida sem compromissos é melhor!
-Seus pensamentos, nada a declarar.- Alice riu deliciosamente, como ela adorava conversar com o pai. Também pode-se ouvir um riso da parte dele.
-Pai, eu vou desligar agora! Ligo a medida que der.
-Tudo bem meu amor, eu espero. Beijo, eu te amo!
-Também te amo papai, beijos. 
Alice desligou o celular e notou uma lágrima querendo escapar do seu olho. Ela estava realmente triste e não queria aceitar a separação dos seus pais, sobretudo não queria estar longe de seu pai. Ele não estava totalmente longe, estava morando junto com um amigo, na mesma cidade São Paulo. Mas ela estava frágil e necessitava do seu pai, que sempre lhe apoiara em tudo, e lhe dava atenção necessária que sua mãe nem sempre lhe disponibilizava. Ela estava em uma fase difícil, passando por complicações e aquela falta de apetite/vontade de vomitar a perseguia como se quisesse arrancar algo dela. Depois da conversa carinhosa que teve com seu pai, ela resolveu deitar-se e dormir um pouco. Mesmo estando com os olhos fechado, ela pôde perceber uma presença dentro do seu quarto. Era sua mãe. Sentando ao lado de Alice, ela disse:
-Posso deitar com você?
-Depende, se for pra me dar sermão não quero.
-Ouça nem, eu pedi pra deitar. Quero te fazer carinho filha.
-Ah, deixou o trabalho? - perguntou Alice sarcásticamente.
-Pare de jogos, posso ou não?
-Já está aqui mesmo.
Então a mãe de Alice deitou-se junto a ela, aconchegando-se o mais perto que pôde. Alice estava com receio, mas mesmo assim não negou o afeto da mãe. Ela precisava daquilo naquela hora.Estava estranha, com os sentimentos machucados e acima de tudo carente. No silêncio daquele aconchego Alice perguntou:
-Mãe, posso ir na casa de Sophie mais tarde?
-Fazer o que?
-Ah, conversar. Outros colegas virão e eu queria ir.
-Está bem Alice, você está mesmo precisando sair desse quarto.
-Eu só vou porque quero. - disse Alice.
-Porque eu deixei né mocinha.- disse a mãe passando os dedos no cabelo de Alice.
-Claro, senhora mandona. 
A mãe de Alice sabia que se não permitisse a saída da filha, causaria problemas ainda maiores. A partir daquele momento ela sabia que teria que aprender novamente a lidar com a filha. 
As duas adormeceram ali mesmo, diante daquele diálogo mal resolvido, no quase calor de um amor materno. Alie estava distante da mãe, mas mesmo assim preferiu tê-la por perto ao invés de entregá-la ao trabalho. 
Depois de certo momento, Alice acordou e olhou as horas no celular. Percebeu que a mãe não estava mais lá, e viu que ela havia deixado um bilhete. "Tive que sair Alice, fui levar uns relatórios e deixou você dormir quietinha. Só volto a noite, e cuidado ao sair hein, beijo filha."
"Até parece que ela se permitiria trocar eu pelo trabalho." Alice pensou. De qualquer forma já estava quase na hora de ir a casa de Sophie. Ela estava se sentindo mal, talvez por não ter comido direito e ter forçado o vômito. Então resolveu ir tomar um banho. Enquanto estava debaixo daquela água morna, ela começou a pensar no que acontecera mais cedo, e prometou a si mesma que não faria mais aquilo. 
Ao sair, escolheu um short qualquer e uma blusa de seda. A blusa estava meio amassada, mas ela nem importou-se. Colocou uma sapatilha azul e foi. A casa de Sophie era perto da dela, então ela resolveu ir andando. Mandou uma mensagem para Sophie dizendo que havia chegado. A amiga foi abrir o portão, as duas de cumprimentaram e Alice disse:
-Já chegou todo mundo?
-Sim, mas ainda bem que você veio.
-Creio que cheguei "atrasada"!
-Que isso, entra logo amiga!
As duas deram um sorriso tímido e entraram. Ao chegar na sala, que era onde o pessoal estava reunido Alice cumprimentou todos. 
-Oi gente!
-Oi Alice - respondeu Leandro. E logo as outras pessoas também responderam.
-E aí amiga, demorou hein! - disse Flávia.
-É, eu nem ia vir. Sophie que insistiu.
-É bom que veio, disse Adriel. 
Alice revirou os olhos disfarçando. Como alguém poderia a irritar tanto. Ele parecia nem gostar dela e como poderia ser falso a esse ponto, mas pensou "calma Alice, tente ser educada." Eles começaram a conversar e Alice achou melhor se introduzir no assunto. 
-Nossa, nem acredito que estamos terminando o colégio - disse Sophie servindo refrigerante.
-É mesmo, parece que foi ontem que estávamos no primeiro ano.- disse Bruno.
-Graças a Deus, não aguento mais escola. - disse Lorena. E todos riram.
-Eu estudo com vocês a pouco tempo - disse Adriel.
-Ainda bem. - disse Marcela. E novamente todos riram.
-Engraçafa, hehe. - falou Adriel em tom de provocação.
Alice estava odiando tudo aquilo, ela apenas gostava pelo fato de estar na casa da melhor amiga Sophie. E mesmo assim tinha que disfarçar. Ela já estava estranha e não queria que percebessem ainda mais isso.
-Pega refrigerante Alice! - disse Sophie indicando o último copo na bandeja.
-Não, obrigada! 
-Precisa comer menina. - disse Adriel fitando a menina.
-Não quero já disse! - falou Alice de um jeito sério.
De uma forma Adriel percebeu o tom de seriedade de Alice e resolveu não insistir. Todos conversaram por um bom tempo, e depois Flávia pegou o seu violão que havia levado e começou a tocar uma música. Alice estava meio entediada e disse para Sophie que iria para o jardim ligar para a mãe dela.Enquanto os colegas se divertiam cantando e ensaiando passos de dança, ela foi até os fundos onde se localizava o jardim. Não queria propriamente ligar para a mãe, mas mesmo assim deu uma olhada nas últimas mensagens. Verificou e logo percebeu que havia alguém ali.
-Atrapalho? - perguntou Adriel com um sorriso torto.
Alice teve um "choque" ao ver Adriel. "Que abusado" pensou Alice! Ela não podia acreditar que ele estava ali. Eles nunca tiveram uma conversa coletiva, quanto mais sozinhos. O que ele queria afinal?
-Ah não. - respondeu Alice meio sem jeito.
-Conseguiu falar com a sua mãe? 
Alice ficou um tanto perdida pois não ligara para a sua mãe, isso foi apenas uma desculpa para se ver livre daquela reunião que não a agradava.
-Não, mas tudo bem. Como soube que eu ligaria pra ela?
-Eu vi quando você falou pra Sophie, estava meio perdido na música e vim te fazer companhia.
-Entendo.
-Nós nunca conversamos não é?
-Verdade, creio que nunca tivemos oportunidade.
-Agora temos, veja só.
-Pois é.
-Afinal, sei lá, vamos falar do que?
Alice pensou e quase respondeu: "De nada, eu nem gosto de você!" mas manteve-se educada.
-Qualquer coisa.
-Como assim? - Adriel riu.
-Não sei, talvez o que fez hoje? - Ela deu um meio sorriso.
-Nada demais, li um livro...
Passos foram ouvidos, e Sophie apareceu interrompendo Adriel.
-Vocês estão aí né? A pizza que eu pedi chegou, venham!
-Estamos indo adiantou-se Alice antes de Adriel.
Sophie foi na frente e um silêncio permaneceu, apenas um olhar fixo de Adriel foi lançado bem nos olhos de Alice. Os dois chegaram na sala e receberam vários olhares, mas estes foram de desconfiança, de verdadeira desconfiança com uma pitada de malícia.


Amor reinventadoWhere stories live. Discover now