O dia ainda não surgiu por completo; ainda são 3 da manhã. Bendita insônia que me tira as horas tão preciosas de sono. Sento-me na varanda de casa e assisto a madrugada escorrer-me pelas mãos enquanto passo a refletir sobre a vida.
Aquela moça que tanto amei, mas agora não posso mais usufruir da presença dela na minha vida. A Sra. Morte já tivera se encarregado de levá-la de mim. O sorriso da mulher mais linda que havia na Terra, as piadas, as risadas... tudo isso já era e eu sabia que isso tudo não passava de um momento e uma hora teria de acabar.
A manhã vem se aproximando de pouco em pouco, o vento gelado que batia na pele e me fazia lembrar do calor emocional e físico que a minha falecida esposa me proporcionava. Às vezes o tempo é um grande filho da puta, mas vou fazer o que, né? É a vida...
Decido fazer um café. Pego uma xícara e o tomo; a fumaça me fornecia o único calor possível no rosto. Assisto só mais um dia de semana comum: os filhos que vão para a escola e os pais que se sentem orgulhosos pelo que eles fizeram; se despedem e dizer um "até logo" sonolento. O casal de namorados que passa na rua de mãos dadas e trocando beijos.
Saio para a rua para procurar por emprego... mas parece que aqui em Tokyo as pessoas não estão muito satisfeitas em me empregar. Será que é por causa da minha barba por fazer? Vai saber... o meu desespero por um trabalho é enorme. O desejo é enorme, pois assim sei de que meu estômago não irá doer de fome tão fácil. Acho que as pessoas daqui são todas egoístas, isso sim!
Ah, que se dane! Vou voltar para o Brasil! Quem sabe lá consigo emprego! Ai, ai... doce ilusão a minha. Chego no país onde nasci e sou tratado como um cão de rua (pobre deles). Não adianta chorar, nem implorar... o não é dilacerador e desesperador. Brasileiros egoístas! Eu prestes a cair duro na rua e eles nem sequer tem 1% de empatia na cara...
Volto para o Japão. A única solução é eu começar a trabalhar fazendo serviços para as pessoas (e posso te confessar de que não é tão ruim... comparando de que não sei fazer nada direito). Passo anos trabalhando assim até que atinjo o nível da perfeição. Dessa vez uma moça me chama para cuidar do jardim dela. Depois de terminado o serviço converso um pouco com a moça (dona de um restaurante local) que logo se sente empática com a minha situação e decide me empregar; trabalharei como garçom. Eu, desesperado e ansiando por dinheiro, aceitei a proposta.
Em poucos dias eu estava dando o meu suor e sangue no meu novo emprego, mas sempre tinha uma boa recompensa que anestesiava minha fome.
"O que você está achando de trabalhar aqui?", pergunta-me a dona do restaurante.
"Olha, me é muito bom e ainda consigo dar um jeito na minha vida", respondo.
"Que bom! Qualquer coisa que estiver precisando é só me chamar", disse-me a moça.
Algo dilacerava meu coração gradualmente assim que ela se afastava. Gratidão? Amor? Paixão? Não... acho que era pouco tempo para já estar apaixonado. Talvez eu estivesse profundamente grato.
Quando menos reparei o trabalho parecia ser mais tranquilo, eu me apressava para chegar adiantado. Afinal, o que raios estava acontecendo comigo? Todas as vezes nas quais ela falava comigo eu rezava para que nunca fosse embora.
"Oi, precisa de alguma coisa?", pergunta ela.
"Sim... preciso do seu amor", respondi.
Reparei de que ela ficou chocada na mesma hora em que respondi. Fiquei com certo medo de que começássemos uma discussão e ela me demitisse.
"Por que você está me dizendo isso?", perguntou ela.
"Esquece o que disse. Foi impulso meu", eu disse.
"Mesmo assim!"
"Acho que eu não ia suportar isso guardado dentro de mim por muito tempo..."
"E achou que era melhor se declarar para mim?"
"Isso"
"Eu preciso de mais tempo pra pensar nisso e também para te conhecer melhor!"
"Então você está dizendo que aceita?"
"Não sei... apenas o tempo poderá dizer a verdade"
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Conto do Conte-me
RomanceÉ um conto de romance que começa com ar de drama e termina com certo de ar de mistério. Um homem desemprego tem ânsia de arranjar um emprego em breve. Passando pela quase miséria, ele decide ir para o Brasil para se empregar por lá, mas é em vão e e...
