Capítulo 1

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A sombra da cidade flutuante de Lumia cobria todo o distrito de Lisar-B como uma cumulonimbus.

- Mas que saco, bem no meu dia de folga vou ter que ficar todo mofado com a sombra dessa porcaria dessa cidade! – Sarine conseguiu ouvir através das paredes finas do seu minúsculo apartamento. – Já não bastasse que todo esgoto deles caísse aqui, agora tão bloqueando até a luz do sol! – A voz era rouca, como de alguém que fumava pelo menos 5 maços do cigarro Mali por dia. Certamente era o vizinho bicheiro que teve inúmeros problemas com a guarda municipal, o cara era um figurão.

O complexo habitacional de Lisar-B era quase como um labirinto construído em um morro quase totalmente vertical. As pessoas construíam onde podiam, buscando os lugares onde a radiação dos cânions de Beiral não os alcançaria. Era possível encontrar pessoas de todos os tipos, espécies e raças ali, desde anões jogando truco com orcs e meio-elfos. A diversidade já era algo banal ali, muito diferente da cidade alta que tinha um sistema de segregação restrito com raças que não eram consideradas puras. As casas eram construídas umas sobre as outras, se amontoando no topo do morro, como se fossem peças de um quebra-cabeça gigante. O distrito era um reflexo da desesperança e da precariedade que muitas pessoas enfrentavam, mas também da força e da resiliência de sua comunidade.

O apartamento de Sarine Sanchez era praticamente um cubículo, mal cabia seu futon, mas ela sempre conseguia encontrar um espaço para sua coleção de capas de revista. Ela guardava com carinho as revistas que mostravam a vida glamourosa dos socialites, algo que a deixava deslumbrada. Ela tinha certa admiração pela filantropa Axella Franken, que sempre apoiou a causa de ajudar as pessoas das cidades mais baixas. O espaço limitado do apartamento era um contraste gritante com o luxo mostrado nas revistas, mas Sarine se esforçava para criar um ambiente acolhedor, colocando flores frescas em um vaso e pendurando suas capas de revista nas paredes.

"Um dia chego lá" - pensava Sarine enquanto se preparava para começar seu dia de trabalho.  "Mas enquanto não chego, bora trabalhar." Ela desceu pela escada que ficava do lado de fora de sua janela e chegou até o pátio que ficava logo abaixo. "Hmm... Qual será a entrega pra hoje?" Sarine era uma entregadora da gigante corporativa Kurupira, uma empresa especializada em entregas importantes e na maioria das vezes confidenciais. Ela montou em sua moto-planadora e partiu em direção ao centro de distribuição mais próximo, ansiosa para começar sua jornada diária e trabalhar duro para alcançar seus objetivos.

***

"Qual é a boa, Sarine?" - perguntou o orc, movendo o braço prótese que rangeava a cada movimento. Era uma prótese da 3ª geração, e ele a manuseava com habilidade, segurando um pequeno pacote embalado em fita adesiva. Ele o arremessou em direção à Sarine, que agarrou-o rapidamente antes que caísse no chão.

"Tô tranquila, Bonz. Isso aqui é do Nathaniel?" Sarine perguntou, dando uma chacoalhada na caixa, tentando ouvir o que havia dentro. "Acho que é aquela caneca que ele tinha comprado da Kina. Parece que não tá inteira mais não." Ela colocou a caixa na mesa de Nathaniel.

"Ó, vou te contar. Parece que tem entrega da Magnum. Coisa grande." – ele cochichou, se curvando para ficar da altura de Sarine. A expressão no rosto dele mostrava a surpresa e a curiosidade sobre essa entrega importante. – E é série Três, nem a gente pode saber o que é.

"Bom, já tem alguma ideia da parcela que o entregador vai receber? Pra uma coisa dessas, ainda mais da Magnum... Não deve ser pouco." – questionou Sarine, sentindo a tensão crescer dentro dela. Ela sabia que entregas da série três eram importantes e geralmente remuneradas com valores altos.

"Tão falando que é na casa de cinco dígitos. Mas vou te dizer, viu... Não sei se vale a pena." - Ele retornou à postura normal, com um ar de preocupação e incerteza. - "Nunca recebemos algo assim nesse centro de distribuição. Isso é coisa dos grandes, da galera lá do Jones. Não é com a gente. A gente entrega..". - Ele pegou a caixa na mesa, apontando para ela como exemplo - "A gente entrega mercadoria pequena, Sarine, tipo essa caneca. Por que mandariam pra gente? Nesse lado da cidade? A Magnum não pisa nessas bandas."

"Bom, eles mandaram e a gente tem que entregar né." – disse Sarine, encarando o desafio com determinação.  "Se cair pra mim, vai ser minha chance de conseguir ir pra Lumia, Bonz." Ela sabia que essa entrega poderia ser sua chance de sair daquele lugar e ir para a cidade flutuante, onde as oportunidades eram maiores e as possibilidades eram infinitas.

Ele olhou Sarine nos olhos, chacoalhou a cabeça negativamente e se virou. – "O que tu quer fazer lá em cima, menina? Lá não é lugar pra gente como eu e você." Ele disse com desdém. "Você é humana, mas sabem que você tem sangue orc. Teu avô era orc, não era?" Ele apontou o dedo para si mesmo. "Eles não gostam de orcs lá em cima. Eu sei bem disso. Eu já passei por isso".

"Não é como se eu quisesse morar lá, Bonz. É diferente. Tem um pessoal que quero conhecer, lugares que quero descobrir. Mas pra morar não serve pra mim não." Ela apontou para os piercings que tinha no rosto. "Você sabe como eu sou. Aquele frufru todo não é pra mim."

Bonz deu de ombros e se dirigiu em direção ao seu posto de trabalho. "Se você está dizendo, quem sou eu para discordar, menina." Ele disse, compreendendo a perspectiva de Sarine. Ele sabia que ela queria explorar novos horizontes e vivenciar novas experiências, mas também sabia que ela não se encaixaria na sociedade rígida e conservadora da cidade flutuante.

***

As horas pareciam não passar enquanto a ansiedade de Sarine aumentava. Ela queria que aquela entrega fosse dela, não importasse o quê. Quando o bipe dos computadores quase que centenários que eles tinham tocou, Sarine logo foi correndo saber o que era.

Finalmente era o pedido oficial da Magnum, junto de um e-mail que dizia:

"Bom dia.

Este pacote deverá ser entregue até as 16h do dia de hoje, no ponto de entregas em Vallenport.

O conteúdo é confidencial e nenhuma pergunta deve ser feita. Todas as informações necessárias estão neste e-mail.

O pagamento se dará automaticamente ao entregar o pacote.

Caso o lacre tenha sido rompido, o entregador não receberá e será rebaixado para o Umbral.

Magnum est virtus. Magnum est vitae.

Equipe de comunicação da Magnum."

A parte sobre o Umbral deixou Sarine assustada. O Umbral era um distrito que ficava abaixo do distrito de Lisar-B, onde eram jogados os criminosos, aqueles que falharam com a Magnum, aqueles que foram tirados da sociedade. O governo mal conseguia chegar lá e a polícia quase não tinha poder nenhum lá embaixo, e os policiais que tinham alguma autoridade, certamente eram corruptos. Era um lugar onde a lei não se aplicava e onde as pessoas viviam em condições precárias e desumanas.

Sarine engoliu em seco, hesitante em aceitar a entrega. – "Vamos, Sarine... O que pode dar errado?" – disse para si mesma enquanto colocava sua mão no leitor de palma e digitais, tentando convencer-se de que era a melhor decisão.

Assim que aceitou a entrega, o compartimento de entregas abriu, revelando uma pequena maleta preta fosca. Além dos lacres, não parecia ter nenhum fecho nem nada assim. A maleta parecia estar hermeticamente selada, o que aumentou ainda mais a curiosidade de Sarine sobre o que poderia estar dentro dela.

Ela colocou a maleta na traseira de sua moto e saiu para a entrega.

***

Sarine estava se dirigindo para Vallenport, mantendo sua atenção concentrada na estrada e na maleta preciosa que estava transportando. Ela sabia que não poderia se dar ao luxo de errar. Mas, infelizmente, ela acabou perdendo o equilíbrio da moto-planadora e sofreu um acidente. Ela caiu da moto e rolou alguns metros no asfalto. Ela se levantou rapidamente, tentando se certificar de que não estava gravemente ferida.

Ela olhou para a maleta, que havia caído a alguns metros de distância, e seu coração afundou quando viu que ela havia se aberto. Uma esfera negra, que parecia ser feita de vidro, havia rolado para fora da maleta e estava parada no meio da estrada. Sarine soltou um palavrão e correu para pegar a esfera.

"Merda... Merda... E agora???" – ela murmurou, olhando desesperada para a esfera. Ela sabia que não podia deixá-la lá, mas também sabia que não podia entregá-la danificada. Ela não sabia o que fazer.

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⏰ Last updated: Mar 27, 2023 ⏰

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